segunda-feira, 4 de julho de 2011

O MARXISMO E A CULTURA: ENTRE OS FRANKFURTIANOS E OS ESTUDOS CULTURAIS



José Luciano de Queiroz Aires

O marxismo tem sido justo e injustamente atacado nos rols da academia.  No primeiro caso, se a crítica for direcionada ao que Eric Hobsbawm chama de “marxismo vulgar”. Nesse caso, acho pertinente defini-lo como ideologia ou “prática-teórica” stalinista, portanto, problemática para fundamentar teórico-metodologicamente o ofício do historiador do século XXI. Não obstante, tem que ser lido, sobretudo, para que possamos entendê-lo em seu tempo histórico e a ele fazermos a crítica. No segundo caso em tela, acho que a injustiça acadêmica cometida contra o marxismo advém daqueles que o simplifica, que o generaliza e, desse modo, contrariando a diversidade, silencia as suas várias matrizes interpretativas.  
Posto isso, gostaria de enunciar o objetivo dessa comunicação. O que pretendo é demonstrar como o marxismo se renovou no século XX, rompendo com o economicismo e passando a dar ênfase a questão da cultura.  A Escola de Frankfurt e os Estudos Culturais são os recortes utilizados para enfrentar esse diálogo, buscando as aproximações e descontinuidades efetuadas por ambos nas análises sobre a “cultura da mídia”.
Nomes como Walter Benjamin, Adorno, Horkheimer, Habermas e Marcuse, protagonizam os estudos sobre fotografia, cinema, rádio, música moderna, no contexto da primeira metade do século XX.  De ascendência judaica e simpatizantes das idéias de Marx, a vida desses grandes intelectuais não seria nada fácil em meio a  uma Alemanha Nazista.  Do lado oriental, a nação que se julgava socialista não passava de uma ditadura do partido Comunista Soviético, com a qual eles não concordavam, assim como Antonio Gramsci na Itália fascista. Restou aos frankfurtianos o exílio para os Estados Unidos, fincando os pés na pátria que se julga o maior exemplo de democracia e liberdade do mundo. Benjamin, ficou pelo caminho, se suicidou ao tentar entrar na Espanha franquista.
Enfim, aos olhos desses pensadores de esquerda, cai a máscara da democracia estadunidense. Em 1947, Adorno e Horkheimer formulam o conceito de indústria cultural para demonstrar que o Capitalismo transformou o entretenimento e o lazer em mercadorias. Em uma sociedade rodeada pelo rádio e a indústria fonográfica, pelo cinema, pela fotografia, enfim, pela “obra de arte permeada pela reprodutibilidade técnica”, os dois autores percebem que os donos do capital se beneficiavam duplamente dessa transformação da cultura em mercadoria: em primeiro lugar, por preencher o tempo do ócio das classes trabalhadoras, mantendo-as “alienadas”, “conformadas”, “manipuladas”, em meio ao estado do bem estar; em segundo lugar, pelos dividendos que passaram a faturar em função da imposição de um modelo de sociedade consumista consignado no american way of life.
Benjamim, em verdade, era mais otimista, um idealista, conforme observou Regina Behar.  A perda da aura, para ele, não tinha um sentido negativo. O cinema massificado, por exemplo, podia ser utilizado de forma contra-revolucionária, abrindo possibilidades de uso para o proletariado questionar o sistema.  A dupla Adorno e Horkheimer era mais pessimista. Pessimismo esse, produzido em um contexto de autoritarismos, do Estado de Bem Estar e da indústria cultural, no qual o proletariado que Marx pensou como agente da revolução, ou estava apoiando os fascismos ou conformados com a sociedade de consumo, esquecendo a lição de que “a luta de classe é o motor da história”. Marcuse, desencantado com o proletariado, apostou na juventude, participando ativamente dos movimentos contra culturais de 1968.
Em síntese podemos apontar algumas características desse marxismo alemão: a) romperam com a ideologia soviética stalinista; b) não eram militantes filiados ao Partido Comunista; c) romperam com a visão economicista e passaram a analisar os efeitos sociais da cultura; d) questionaram a razão instrumental. Esse último ponto merece uma reflexão maior.
Eu diria que os frankfurtianos se anteciparam aos pós modernos na crítica ao paradigma da modernidade.  Eles questionaram os iluministas e a certeza de que a razão e a ciência levariam a humanidade no caminho da civilização e do progresso. Afinal, foram homens que viram e sentiram na pele o cenário do inicio do século XX, tempos de catástrofes mundiais, intolerância e ódio e carnificina humana. A ciência e a técnica modernas foram aliadas de dominação do homem pelo homem e não elementos de emancipação humana conforme apregoavam as filosofias da história.
Outro campo de renovação do marxismo, em relação ao aporte leninista-stalinista pode ser observado no início dos anos 1960 com a fundação do Centro de Estudos Culturais de Birminghan. Nesse texto, vou tratar apenas dos chamados “pais fundadores”: Richard Hoggart, Raymond Williams, Stuart Hall e E. P. Thompson, a fim de compreender a dimensão da cultura na interpretação materialista da sociedade.
Tomaz Tadeu da silva nos adverte de que os Estudos Culturais não formam uma homogeneidade.  Do ponto de vista teórico, além do marxismo que, aliás, é a marca dos trabalhos fundadores, dos anos 1980 para cá tem incorporados trabalhos na perspectiva foucaultianas; do ponto de vista temático, estudam desde as “subculturas” (Stuart Hall, por exemplo), até alfabetização de massa, meios de comunicação, etc; e, do ponto de vista metodológico, tanto ocorre o método etnográfico como a hermenêutica textualista.
O surgimento dos Estudos Culturais, na virada dos anos 1950 para 1960 está indissociavelmente ligado a romper com uma concepção de cultura da crítica literária inglesa. Raymond Williams, ao fazer a historicidade do conceito propõe sua democratização. Discorda dos críticos literários, para os quais cultura significava as “grandes” obras de artes dos “gênios” da literatura, da filosofia e da arte de um modo geral. Para Williams, cultura também significa a experiência global da sociedade.
Assim recortei temporalmente nos anos 1960, acho interessante fazer mais um recorte para essa comunicação. Procuro analisar como os Estudos Culturais encaram a questão da mídia e em que medida se aproximam e se particularizam em relação à Escola de Frankfurt. Mesmo com todos esses recortes, tenho plena consciência de que estou apenas fazendo uma breve leitura da temática. O espaço, inclusive, não permite grandes aprofundações.
Os “pais fundadores” vão buscar Gramsci para ressignificar a análise frankfurtiana.  Aliás, vão utilizar os seus conceitos de hegemonia, contra-hegemonia, intelectuais orgânicos e resistência para a reflexão da cultura da mídia. Sendo, desse modo, trarão avanços em relação à escola alemã.
Segundo assinala o filósofo Douglas Kellner, os Estudos Culturais irão “corrigir as limitações” da Escola de Frankfurt. Em primeiro lugar, não irão dispensar um tratamento mais empírico para as suas análises teóricas, assim como darão ênfase aos estudos focados na recepção, algo não característico da obra dos filósofos germânicos. Em segundo lugar, os Estudos Culturais ao tratar o conceito de cultura como campos de luta para atribuição de significados sociais discordam da idéia de “massa manipulada” ou de “consumidores passivos”, tão cara ao pensamento frankfurtiano. Contudo, os estudiosos ingleses de Birmingham não jogaram a água do banho com o bebê junto. Eles reconheciam a grande contribuição e vigor do sempre problemático, mas não inteiramente descartável conceito de indústria cultural.
Uma linha dos Estudos Culturais, fortemente marcada pelas teorias críticas, jamais abandona a interface que a discussão sobre cultura permite fazer com o poder político e o econômico. Douglas kellner exemplifica isso quando afirma que ultimamente os estudos têm centrado mais atenção numa perspectiva da recepção sempre ativa dos consumidores do que na produção cultural na perspectiva da economia política. Para esse filósofo, temos que ter cuidado para não fazer fetichismo nas resistências, assim como, não devemos abandonar o campo que trabalha os aspectos ideologizantes dos textos culturais, entendendo ideologia não na perspectiva de falseamento da realidade, mas de conjunto de idéias construídas pelas elites detentoras de hegemonias, porém, nem por isso ilesas de contra-hegemonia.
Certamente Adorno e Horkheimer não estavam completamente errados. O que não faltam são exemplos para provar sua sustentabilidade conceitual, embora em parte, diga-se de passagem. Dificilmente alguém ousaria dizer que o cinema hollywoodiano e o “maravilhoso mundo da Disney”, para lembrar Henry Giroux, estariam descolados do capitalismo estadunidense. O faturamento anual dessa última gira em torno de vinte e três milhões de dólares.  Em 2004, segundo dados da Revista Veja, o faturamento anual de Hollywood era algo estimado em trinta e cinco bilhões de dólares, no qual entre sete e onze bilhões vêm da indústria pornográfica. Por falar nela, é bom que se diga que em 2006 o lucro com o mercado pornográfico superou o faturamento de oito multinacionais de grande destaque no mundo da informática: Microsoft, Google, Amazon, Ebay, Yahoo, Apple, Netflix e Earthlink. O Big Brother Brasil (2009) rendeu aos cofres da poderosa rede Globo de Televisão  US$ 280 milhões, cem milhões a mais do que a edição de 2008. O lucro do BBB-2009 equivale a todo faturamento anual da Rede TV! Por outro lado, programas religiosos da Rede Record também geram fortunas que parecem cair dos céus com a mercantilização de Deus.
São apenas alguns poucos exemplos que podemos apontar para sugerir que o debate sobre indústria cultural não está completamente ultrapassado. Além dos aspectos concernentes ao consumo e ao lucro, parece sustentável, repito, feitas as devidas ressalvas, a tese da ideologia que circula em torno da cultura da mídia. Henry Giroux mostra isso quando estuda a “disneyzação da cultura infantil”, sinalizando quanto ao estilo de vida estadunidense presente nos produtos culturais, sugerindo, assim, um padrão de cultura ocidentalizante a ser consumido em detrimento das alteridades diversas. Para não ficar falando apenas dos países capitalistas, caberiam algumas perguntas: As histórias em quadrinhos editadas pelo Vaticano não estão carregadas pela ideologia cristã? A URSS stalinista não fez uso da cultura de modo a legitimar a ideologia socialista? Em Cuba e na China, os usos e a manipulação da imagem não fizeram parte da ideologia revolucionaria da esquerda dos anos 1960? O cinema Novo no Brasil pode ser pensado descolado da ideologia marxista revolucionaria?
Douglas Kellner está convencido de que não. Eu também. Para ele, é impensável, a partir dos Estudos Culturais clássicos, trabalhar com os aspectos culturais descontextualizados dos aspectos econômicos, sociais e políticos mais amplos. Certamente, é a análise materialista da cultura, formulada por Raymond Williams que fundamenta esse ponto de vista.  O engajamento político é visível, o desengajamento, para Kellner, é um perigo.

REFERÊNCIAS
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MATTELART, Armand e NEVEU, Eric. Introdução aos Estudos Culturais. Tradução Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade: Uma Introdução às Teorias de Currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
THOMPSON, Edward. A miséria da teoria: um planetário de erros. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.

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__________ A Formação da Classe Operária. 4 ed. V.1. Tradução Denise Bottman. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
__________ As peculiaridades dos Ingleses. 3 ed. Textos didáticos. Campinas: IFCH/UNICAMP, 1998.



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