terça-feira, 13 de outubro de 2020

PATRIARCADO E CAPITALISMO: SOBRE O CASO DE MISOGINIA NA UFCG


 

José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Quem falou que homem não pode se meter no tema do feminismo? Pois bem, sou homem, professor de História da UFCG e pretendo me manifestar sobre a postura misógina do colega do curso de Engenharia Elétrica realizada em paginas de redes sociais. Não creio que haja necessidade de reproduzir aqui o conteúdo por ele apresentado, inclusive por já ter viralizado nas próprias redes e ser do conhecimento da ampla maioria das pessoas.

Antes de mais nada, é preciso ampliar a escala de análise no tempo e no espaço, pois esse não é um caso isolado, nem descolado de uma estrutura macroscópica. O patriarcado precede o capitalismo, mas a situação da maioria das mulheres piorou, consideravelmente, com o surgimento do Modo Capitalista de Produção. Nas sociedades pré-capitalistas a divisão do trabalho se circunscrevia ao âmbito de uma economia doméstica na qual as mulheres possuíam um papel importante juntamente com os homens e a economia girava em torno da casa. O capitalismo separou a economia doméstica da economia de mercado, a casa se distanciou da fábrica e as mulheres trabalhadoras passaram a sofrer a exploração econômica e social no chão fabril, sem se libertarem das funções tidas como “femininas”, da “rainha do lar” e “boa mãe de família”. Nesse sentido, há uma enorme diferença entre as condições de ser homem ou ser mulher na sociedade capitalista, pois à (maioria absoluta) delas coube, até hoje, a função da reprodução social no âmbito do lar, trabalho esse, desqualificado e não remunerado. Mais importante para o mundo da produção e circulação de mercadorias.

Junto a essa base material da estrutura capitalista, de suas relações sociais e da sua divisão do trabalho, a burguesia do século XIX encravou um processo ideológico que definia subjetivamente uma concepção de família patriarcal e heterossexual. Ancorada e justificada na ciência moderna, o homem foi classificado como um “ser racional”, “viril” e “forte”, portanto, “naturalmente” determinado para a vida pública, para o mundo lá fora; por outro lado, a mulher foi classificada como um “ser emotivo”, “sexo frágil”, portanto, “por sua essência e natureza” determinada à vida privada. Ser mãe, esposa e dona de casa eram as atribuições que “combinariam” com o gênero feminino. Não custa lembrar que essa ideologia se transforma em força material quando essas representações são essencializadas, naturalizadas e postas em prática. A função da ideologia em Marx é justamente essa.

Por essas é que entendemos o quão estrutural é a questão. O caso do professor misógino da Engenharia Elétrica da UFCG reproduz essa ideologia da família burguesa vitoriana do século XIX. Em geral os próprios cursos de engenharia nas universidades, além de outros, revelam um racismo e um machismo institucionais quando me parece haver uma exclusão de homens negros e de mulheres nos seus corpos docentes. E não me venham aqui falar em meritocracia!

As instituições também não são ilhas incomunicáveis com a terra. Na verdade, elas reproduzem no seu interior as estruturas societárias mais amplas, a exemplo do capitalismo, do patriarcado e do racismo. E pouco fazem para combater essas vigas poderosas que teimam em continuar apesar das lutas sociais e de algumas conquistas de direitos por elas trazidos.

O que nos espanta é um professor universitário botar seu corpo no século XXI e sua cabeça no XIX e achar que os homens trabalhadores executam as mais “nobres” e “pesadas profissões”, enquanto as mulheres trabalhadoras “reclamam da vida” por ter que lavar a louça, trocar a fralda do bebê e fazer o almoço todos os dias. Quando sabemos que muitas mulheres trabalhadoras, durante os mais de três séculos de capitalismo, são exploradas pelos patrões, fazem as máquinas gerar riqueza para eles e ainda não se libertaram da opressão patriarcal, da tripla jornada e da violência doméstica. A propósito, é por achar que o corpo da mulher é propriedade privada do homem, por não aceitar uma traição ou o fim de uma relação que muitos casos de feminicídio se arrastam em estatísticas alarmantes e ainda omissas, apesar da lei Maria da Penha.

Se essas mulheres trabalhadoras forem racializadas, a exploração econômica e o machismo serão reforçados pelo peso do racismo estrutural. Hoje podemos ver muitas delas trabalhando nas funções mais precarizadas do mundo do trabalho, ainda tratadas como escravas, recebendo salários menores do que os dos homens. Essa divisão é propositiva do capitalismo, dividir a maioria das classes e grupos subalternos.

O que fazer? Do meu ponto de vista, continuar combatendo em três frentes, mas no mesmo campo de luta. A emancipação das mulheres, também deve caminhar nas mesmas ruas antirracistas e anticapitalistas, pois, embora devamos fazer notas de repúdios, abrir processos em comissão de ética, lutar por uma lei no parlamento, etc, creio que são paliativos e que, embora importantes, não resolverão o problema que, como formulado por Ângela Davis, é de gênero, raça e classe.  Talvez, uma tarefa número zero fosse derrotar o bolsonarismo, movimento que possibilitou os neofascistas saírem do armário e acreditar que tudo podem dizer e fazer. Mesmo que esse tudo saia da mão de um docente universitário que deve se orgulhar de seus projetos no ramo da engenharia mas resiste em lavar sua própria cueca.

 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

THAMMY MIRANDA, A NATURA E A ESQUERDA





Prof. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Temos acompanhado pelas redes sociais a polêmica em torno da escolha da Empresa Natura pela imagem do homem trans, Thammy Miranda, para a campanha publicitária do Dia dos Pais. O que as forças de esquerda poderiam e deveriam dizer sobre a temática?

Em primeiro lugar, um intelectual marxista fiel aos ensinamentos dos pais do materialismo histórico e do feminismo socialista russo da primeira onda, tem por dever político e teórico, articular luta de classes com luta de gênero e outras lutas, pois a emancipação dos 99% da humanidade deverá ser realizada com a complexidade da análise teórica e a unificação das classes e grupos subalternos na mesma frente de combate. Temos que lutar contra o capitalismo, mas também contra o racismo, o patriarcado e a lgbtfobia. Portanto, os partidos políticos e movimentos sociais e populares mistos, devem sair na defesa de Thammy Miranda, pois isso significa o combate à transfobia.

Por outro lado, não me parece adequado à esquerda sair na defesa da Empresa Natura, pois o nosso engajamento deve ser com os trabalhadores e trabalhadoras desta e de todas as empresas capitalistas. Cabe ressaltar que os empresários vivem de extração de mais valor e superexploração da força de trabalho, muita dela, realizada por mulheres, por negros e negras, por imigrantes e refugiados. Trabalho sem direitos substantivos, já que as contrarreformas trabalhista e da previdência se encarregaram de aprofundar o trabalho intermitente, sem a garantia da aposentadoria futura e da proteção jurídica de uma legislação do trabalho no presente.

Hoje mesmo eu li postagens no facebook nas quais as pessoas, na melhor das intenções, digo isso porque saíram em defesa dos e das pessoas trans, defenderem o não boicote ou o “não cancelamento” à Natura. Alguns até fizeram campanha incentivando o consumo de seus produtos no dia dos pais. Embora tenha entendido perfeitamente as justificativas das pessoas que saíram em defesa de Thammy, creio que defender a empresa capitalista que explora homens e mulheres, não é nossa tarefa. Até porque, não há nenhum engajamento político das empresas e dos empresários na pauta das opressões se não fosse o lucro obtido em um mercado segmentado que tem mercadoria para oferecer às mais diversas identidades sociais. Nesse caso, LGBT são tratadas, ideologicamente, no capitalismo, como meras consumidoras. Na outra ponta, dificilmente pessoas trans, lésbicas ou gays assumidos, serão contratados no mercado quando tiver que concorrer com homens e mulheres heterossexuais na hora da entrevista.

Outra crítica que algumas pessoas fizeram a Thammy Miranda foi realizada no sentido de ele ter, supostamente, votado em Bolsonaro. Nesse ponto, acredito que a melhor saída não seria atacá-lo com discursos transfóbicos, mas problematizarmos as razões que levaram massas de explorados e oprimidos a optarem por um projeto político que é a sua própria destruição. A esquerda, nesse momento de crise profunda no planeta, deverá ter a sabedoria de trabalhar no sentido de reverter esse quadro no qual massas populares aderiram à extrema direita.
Como historiador socialista e marxista, deixo aqui meu repúdio a toda forma de preconceito. Thammy Miranda é mais do que um indivíduo, é a personificação das pessoas trans que derramam sangue nas ruas do Brasil. A essas, nós de esquerda temos que ficar juntos, sobretudo, nos tempos neofascistas que vivemos. Meu repúdio igualmente ao sistema capitalista, materializado, nesse caso, na Empresa Natura, exploradora do Dia dos Pais, data hegemonicamente patriarcal e heterossexual, agora também alargada para outras tipologias de famílias, como forma de “inclusão” pelo consumo e não pela emancipação política. Não será defendendo esse tipo de inclusão mercadológica e publicitária que iremos acabar com o machismo, o racismo e a lgbtfobia no Brasil e no mundo. O capitalismo devora gente, tritura trabalho e vomita mercadoria alienada a ser consumida. O cheiro desse tipo de perfume fede bastante em muitos corpos.

sábado, 25 de julho de 2020

AS DORES DA EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA


José Luciano de Queiroz Aires
Historiador UFCG

Um semestre já se foi de tanto trabalho docente à distância. Seminários, lives, reuniões administrativas, orientações, escrita de artigos e muita leitura. Talvez essa tenha sido, até aqui, a realidade de todos nós professores. Ou seja: muito trabalho. Mas confesso que já não aguento tantas dores. A começar pela da alma, aquela que nos angustia, que nos deprime, que nos isola, que nos estressa; as dores da solidão, dores que mediação técnica nenhuma pode curar, pois necessitamos do calor afetuoso da presença das pessoas. Somos o animal social.
A tela do computador, com aquela fotografia de ícones da distância ao final de nossas atividades, me causa dores profundas, pois lembro com saudade daquelas pessoas da convivência coletiva presencial do nosso cotidiano universitário. O máximo que consigo para suprir a saudade é ter que se contentar com uma imagem e a voz que me chegam por meio da reprodutibilidade técnica. Mas como assinalava Walter Benjamin, para a arte e a cultura de um modo geral, a técnica tem o poder de retirar a aura dos bens culturais em favor da cópia massificadora dos mesmos. Fazendo com ele uma analogia, se a aura se esvai quando da substituição da presença das pessoas nos espetáculos teatrais e a técnica permite que os artistas cheguem as nossas casas por meio do rádio e do cinema, algo semelhante acontece com a nossa educação quando muitos intelectuais relativizam a defesa do encontro aurático na universidade em favor das possibilidades técnicas do home office.
Antes que o leitor me acuse de “dinossaurico”, gostaria de dizer que não sou contra o uso das tecnologias para fins educativos e políticos, desde que não esqueçamos duas condições fundamentais: que elas não podem substituir a realização presencial de assembleias, aulas, eventos acadêmicos, sindicais, partidários, etc; assim como também não podemos esquecer que a técnica não é neutra, mas política e ideológica. No caso atual, de tempos de crise total, as plataformas digitais aparecem para muitos como a saída para o desemprego. Contudo, como demonstrado nas pesquisas dos sociólogos Ricardo Antunes e Ruy Braga, a uberização do mundo do trabalhado tem se intensificado pelo grande capital a fim de extrair mais valor de uma fração cada dia mais precarizada do proletariado mundial. E nós docentes não estamos livres dessa sanha burguesa, pois em muitas universidades e faculdades pelo mundo a fora já impera a figura do “professor horista”, aquele que ganha por seu trabalho intermitente e sem quaisquer garantias de direitos trabalhistas. Minha dor nesse momento é aumentada porque acredito que essa realidade travestida de modernização no mundo do trabalho, nem começou, nem parece terminar com o corona vírus. Pelo contrário, os burgueses estão cada vez mais de olho na possibilidade de fazer da educação à distância uma realidade generalizada e lucrativa. O pior é que muitos professores e estudantes universitários, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, sancionam essa situação sem maiores resistências. Privatizados na sua consciência, olham para si como uma fração de classe média, procuram saídas individuais e se afastam de projetos coletivos, inclusive se retirando dos sindicatos e se afastando das assembleias da categoria. Esquecem apenas que, se a universidade pública, gratuita, presencial e de qualidade desparecer, eles também sucumbirão nos escombros com todo resto de tecnologia que ainda tiver debaixo do braço. 
Além das dores da alma, o semestre de 2020 tem causado muitas dores físicas a todos nós. Isolados em casa também deixamos de praticar alguma atividade física e ficamos mais sedentários do que nunca, o que implica em acometimento de doenças. Porém, com a mesa de trabalho repleta de atividades para cumprir. Recentemente participei de um seminário com carga horária de 20 horas, para o qual tinha que dedicar mais que o dobro para preparar a exposição. Sentado à frente de um computador, 4 horas todas as tardes, durante uma semana. Assim como os outros dois companheiros docentes com os quais dividi a atividades, terminamos muito cansados, exaustos, na verdade. Dores musculares, dores na coluna, fadiga, cansaço pela repetição dessa modalidade super desgastante que é fazer o papel de tutor da EAD. Adoecimento, na verdade, é o que nos causa o já sistema produtivista implantado nas universidades, sobretudo, nos programas de pós-graduação. Multiplique esse adoecimento docente, físico e psíquico, nesses tempos de pandemia. Problemas familiares com covid; no caso das mulheres, jornada tripla de trabalho em função de também desempenharem o trabalho remoto enquanto mãe, mais uma vez sentada à frente de uma tela para acompanhar seus filhos; pressão da burocracia universitária pela volta do semestre de forma à distância; um governo neoliberal e neofascista ameaçando os direitos que ainda restam; o recurso financeiro que temos que retirar do nosso salário para adquirir equipamentos que as universidades não oferecem. 
Tomara que escapemos desse imperativo do reinado do burocratismo doentio e que juntos possamos tomar a vacina produzida pela ciência e pela universidade pública para ficarmos imunizados aos vírus, incluindo nesses o vírus capitalista do trabalho uberizado e o vírus político encarnado naqueles que representam os interesses desse modo de produção. 
Estou ansioso para encontrar as pessoas na universidade, conversar, abraçar, beijar, debater, fazer política e produzir conhecimento histórico com qualidade pedagógica. A presença sempre gratificante e acalentadora das pessoas. Isso faz bem à saúde. 

quinta-feira, 25 de junho de 2020

EM TEMPOS DE PANDEMIA, MESTRADO AMEAÇADO DE FECHAR EM CAMPINA GRANDE!?

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires

Escrevo esse texto para que fique como documento para a posteridade. Nele, quero expressar uma posição política em relação à ameaça de fechamento do Mestrado em História da Universidade Federal de Campina Grande. Como membro permanente do referido programa de pós-graduação não me omitirei em tomar partido em uma conjuntura de crise societária/sanitária tão brutal como a que vivemos.
Nosso Mestrado foi criado em 2006 e já passou por várias avaliações na toda poderosa CAPES sem, contudo, ter conseguido sair do conceito 3 (três). Eu não fui da fundação, pois cheguei ao corpo docente da UFCG apenas em 2010 e, mesmo vinculado à Unidade de Educação do Campo/CDSA/UFCG, entrei para o quadro do PPGH como colaborador e depois membro permanente. Entre 2014/15, passei a fazer parte da Unidade Acadêmica de História por meio de redistribuição.
Durante esse tempo em que atuo no PPGH/UFCG não é a primeira vez que ouço falar que nosso mestrado pode fechar e que nós é que temos que impedir essa tragédia. A burocracia em vez de contestar o modelo draconiano e quantitativista da CAPES dos tempos da ditadura, opta por quase crucificar a nós docentes, colocando sobre nossas costas o peso da responsabilidade e o ônus da culpa caso não consigamos atingir uma nota 4 (quatro). Isso em termos ditos normais já é uma aberração e uma injustiça, pois vivemos com dedicação exclusiva fazendo atividades de ensino, pesquisa e extensão na graduação, especialização e mestrado. Sempre tivemos um bom número de orientandos, coordenamos grupos de pesquisa vinculados ao CNPC, publicamos com nosso próprio dinheiro livros e capítulos de livros, participamos de uma imensa quantidade de bancas examinadoras, fazemos pareceres para revistas científicas, coordenamos PIBIC, PIBID, PET, PROEXT, PROBEX, etc. Dizer, então, que a “culpa” do possível fechamento do mestrado é do corpo docente “improdutivo”, é desconsiderar essas inúmeras atividades nas quais estamos mergulhados o tempo todo.
Recentemente foi enviada a tal Plataforma Sucupira do PPGH/UFCG para ser avaliada pelos devoradores de números, apreciadores de qualis e defensores de Lattes. Entretanto, pela informação da atual coordenação do PPGH/UFCG relatada em reunião da Unidade Acadêmica, há uma ameaça de fechamento do nosso mestrado caso não “retornemos” às atividades de modo remoto. Segundo informa a coordenação, pelas conversas com vários coordenadores de PPGH pelo Brasil inteiro, a coordenação da área de História na CAPES e a PRPG, os mestrados que já tiraram três notas 3 não podem obter a mesma nota, pois seriam fechados. Quanto a isso, já sabemos, embora não seja culpa nossa. Contudo, informa a nossa coordenação que também seremos avaliados para além da Plataforma Sucupira já enviada e o retorno remoto das atividades é condição relevante e quase decisiva para que o programa não seja fechado.
Nesse caso, considero um agravante em relação à pressão que já se faz em tempos ditos “normais”, uma vez que agora se trata de uma chantagem burocrática em tempos difíceis de uma pandemia mundial. Mesmo assim, de acordo com um questionário aplicado pela coordenação de graduação em História da UFCG, a maioria absoluta dos docentes se encontra trabalhando remotamente em diversas atividades o que depõe contra qualquer tentativa de afirmações de que os docentes não estão produzindo conhecimento histórico. Cabe à coordenação do PPGH e a PRPG tornar ciente e fazerem relatórios para a toda poderosa CAPES afirmando que estamos trabalhando, mesmo que de forma precária. Cabe também a eles cobrarem bolsas de mestrado para a turma de 2020 que está sendo pressionada a cursar disciplinas por meios virtuais, mas sem as condições financeiras de arcarem com custos para o desempenho do curso.
A rigor, não sou contra fazermos uma seleção para o ano de 2021 na modalidade virtual, desta feita, sem a necessidade da prova escrita como primeira etapa do processo seletivo. Também sou favorável à realização de defesas de qualificações e do trabalho final de Dissertação, desde que com anuência do mestrando e parecer do orientador. No entanto, sou contrário ao retorno remoto das disciplinas para os mestrandos de 2020, posição igualmente defendida para o curso de graduação.
É verdade que hoje a conjuntura política com um governo ultraneoliberal e neofascista é mais dura para o enfrentamento junto à CAPES e ao MEC. Mas não custa lembrar que durante os “tempos de ouro” dos governos de conciliação de classes pouco se fez para alterar a forma de avaliação da CAPES contando, inclusive, com a conivência, omissão ou pouca disposição por parte de nossos pares na área de História que acompanham a universalização das regras de avaliação sem levar em consideração as diversidades regionais e as condições para publicações que se concentram nas grandes editoras situadas, sobretudo, no sul-sudeste. Chegamos até aqui com as hierarquias funcionando e cada um fazendo seu serviço para satisfazer a CAPES, essa deusa toda poderosa, inquestionável e dogmática. O pior: muitos professores e estudantes viveram e vivem sendo seus devotos.
Para finalizar, gostaria de dizer que tenho publicado capítulos de livros e organizado livros, coordenado o PET por quatro anos, orientado e ministrado aula a semana inteira e ainda tiro o tempo para a militância política. Para quem gosta, basta conferir o tal do meu curriculum lattes. Sendo assim, a depender de mim e de muitos colegas que trabalham bastante, o Mestrado em História jamais será fechado e a ele desejo muitos anos de vida. O que não aceito é chantagem e culpabilização pelo seu possível fechamento, tenho a consciência tranquila do dever cumprido. Acho que o alvo do ataque deve ser à burocracia que chancela as regras do produtivismo e não os professores e estudantes doentes e cansados de trabalhar.
 Espero mesmo que não fechem nosso mestrado, principalmente em um tempo em que se está abrindo e fechando covas para empurrar gente chão à dentro.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

PARA ROSA, COM CARINHO...




O tempo é a melhor expressão da vida, ele caleja nossas mãos, põe rugas na nossa face e muita experiência na nossa subjetividade. O tempo passa e, com ele, passamos juntos. Juntos com o tempo e, nele, juntos com os outros. Aprendemos a sonhar, a lutar, a ganhar e a perder. Ensinamos e aprendemos pelas estradas marcadas pela duração, “caminhando e cantando e seguindo a canção”; ora, com uma empostação vocal bastante afinada, ora, com rasgos de gritaria entortando a música a sair pelas gargantas revoltadas que cantam à História. O tempo também é um jardim de orquídeas, margaridas e rosas; jardim esse que precisamos regar com a água cristalina da vida e cuidar com o afeto que o artesão transfere da mente e do coração para as mãos cultas do ofício- (culto, no sentido etimológico de cultivar, de cuidar). O tempo, enfim, é a especificidade da História enquanto ciência e a matéria prima dos historiadores sobre o qual se narra. Mas as tessituras costuradas pelos filhos de Clio nem sempre seguem enredos progressistas e/ou revolucionários, já que alguns intelectuais costuram intrigas seguindo as “esquinas perigosas da História”, para lembrar o título sugestivo do livro de Valério Arcary.
Rosa Godoy expressa o que de melhor o tempo nos deu e o que de melhor o tempo lhe deu. Em 70 anos aqui conosco ela trabalhou bastante, deu aulas, orientou, escreveu, publicou e administrou a coisa pública com ética e reconhecimento pela comunidade acadêmica da UFPB quando da ocasião de ocupar uma pró-reitoria nessa instituição de ensino superior. Além disso, ou mesmo em função disso, pensou, respirou e praticou política o tempo todo. Se meteu em movimento sindical docente quando da fundação da nossa ADUFPB e foi uma militante orgânica junto aos movimentos sociais dos grupos e classes subalternas durante o período final da Ditadura Militar. Por isso mesmo, foi vigiada e fichada pelos órgãos da repressão daquele regime autocrático-burguês, conforme bela terminologia conceitual cara a Florestan Fernandes. Apesar de uma época difícil, na qual os marxistas já eram caçados, dentro e fora das universidades, Rosa fundou o Núcleo de Documentação em História Regional da UFPB que mais tarde faria nascer o Programa de Pós-Graduação em História que tem a mão de Rosa Godoy como uma das fundadoras.
Enfim, Rosa é o tempo do trabalho incansável que a tornou uma profissional querida pelo Brasil a fora. Saiu de baixo para desafiar o tempo institucional uspiano e mostrar que filha de classe trabalhadora do município de Jundiaí poderia trilhar o tempo, da graduação ao pós-doutoramento, na universidade que Vargas fez criar para formar as classes dominantes e integrar o Brasil nos quadros da chamada modernidade capitalista industrial. Ainda mais: a menina de Jundiaí um dia abraçou o corpo afetivo de Dona Leonor como que dissesse: “___ mãe, eu vou voar... No tempo... e no espaço”. Logo ela, que veio se doutorar estudando a espacialidade periférica do capitalismo desigual e combinado que pariu o progresso burguês na Região Sudeste vomitando restos de miséria sobre a regionalidade nordestina. E Rosa Godoy ainda aproveitou para responder a xenofobia às avessas da anti-paulistanidade de parte do Departamento de História da UFPB. Rosa deu um voo rasante na cidade de Cajazeiras para ministrar um curso de curta duração, mas bebeu a água paraibana e a cerveja sertaneja e, como uma bandeirante na contramarcha, rasgou a Paraíba inteira rumo ao litoral e veio residir, conviver e trabalhar na capital mais bela do mundo que fica, coincidentemente, na ponta mais oriental das Américas.
Rosa Godoy é aquela mulher que soube cultivar as relações interpessoais nesses 70 anos de vida e que, não por mera coincidência, veio comemorar sua maioridade junto ao G9 + e ao lado dos amigos e amigas que construiu na Paraíba. E nós que aqui estamos a festeja-la, direta ou indiretamente, sendo orientando de fato ou de direito, um dia passamos na sua residência no Bairro de Tambaú. Sábado, domingo ou feriado, não importava, lá estava Rosa sentada à mesa com um calhamaço de tese ou dissertação discutindo pagina a página com o orientando/amigo, fumando seu cigarro, tomando sua cerveja e discutindo o presente e o passado. E agindo politicamente no tempo presente, o tempo do historiador.
Mas Rosa não é apenas a profissional, a professora, a historiadora. É uma mulher corajosa, destemida, solidária, amiga. É a filha que soube acompanhar à mãe até a morte, mesmo à distância; é também a mãe genial da Lígia, a genitora que também desafiou a sociedade patriarcal, cristocêntrica e oligárquica paraibana e mostrou como o mundo deve ser plural e os modelos de famílias igualmente diversos. Sua filha hoje é a prova do quanto as duas juntas, ao lado da cuidadora e amiga Silvia, formaram um modelo perfeito de família.
Rosa é vencedora porque esteve sempre do lado certo da História. Chegou aos 70 com cabelos brancos e algumas rugas, é verdade, mas com uma jovialidade na alma de dar inveja a muitos. É uma menina! Uma flor no jardim desse mundo tão cheio de flores secas e murchas; uma rosa que à cada dia que o sol desponta no horizonte, fica mais viva, mais brilhante, e é por esse brilho irradiante que você, Rosa Godoy, faz o mundo ficar melhor.
Agora, aos 70, desejamos que você continue desafiando o tempo, enfrentando as intempéries, como sempre fez e que o tempo te reserve muito tempo de estadia nesse planeta maluco. Mas você faz diferença para nós!
Beijos dos amigos de Campina Grande! Feliz aniversário! Parabéns.

domingo, 31 de março de 2019

FOI GOLPE E FOI DITADURA SIM, SENHOR PRESIDENTE!



Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Escrevo esse texto, na qualidade de Historiador profissional e estudioso da História Republicana Brasileira. E não gostaria de começar dessa forma, fazendo uma espécie de auto-apresentação, mas a conjuntura política atual exige que assim o faça para afirmar meu lugar de pesquisador contra os vulgarizadores, banalizadores e irresponsáveis para com a manipulação do conhecimento histórico.  Os fake-news metidos a historiadores.
A começar do presidente da República, seus ministros e seguidores do “mito” da extrema-direita brasileira. Intelectuais orgânicos do sistema Capitalista, que se arvoram ao papel de historiadores sem, ao menos, ter cursado uma disciplina de metodologia da História. Se é verdade que o saber histórico não é monopólio dos historiadores profissionais, igualmente verdadeiro é defender que somos os mais qualificados para narrar sobre o tempo, uma vez que vivemos estudando para tecer a estrutura narrativa com base na profissionalização que o bom ofício requer.
Dito isso, gostaria de iniciar manifestando repúdio à decisão do presidente da República em ordenar que as Forças Armadas comemorassem o 31 de março de 1964 como “uma revolução que salvou o Brasil do Comunismo”. Igualmente repudiável, é um vídeo que circula nas redes sociais do dia de hoje agradecendo ao Exército Brasileiro por ter feito a tal “revolução” para “salvar” o Brasil da suposta “ditadura Comunista”.
Talvez fosse pedir de mais a turma de Bolsonaro uma leitura da magnífica obra de Paul Ricoeur: A Memória, a História, o Esquecimento. Lá eles encontrariam um filósofo defendendo a “justa memória”, a “memória feliz”, aquela que, em nome da ética, faz justiça às vítimas e não aos seus algozes da memória e da História oficiais. Os “heróis emoldurados” verdadeiros vampiros do sangue dos subalternos, tão criticados pelo samba enredo da Estação Primeira de mangueira no Carnaval de 2019.
Talvez fosse pedir bastante aos aprendizes de historiadores que conhecessem a historiografia brasileira sobre o Golpe de 1964 e a Ditadura Militar, a exemplo do clássico livro de René Dreifuss que prova, exaustivamente, baseado em pesquisa empírica nos arquivos do IPES e do IBAD que havia um bloco do capital multinacional-associado cujos intelectuais orgânicos atuaram no combate ao bloco reformista-nacionalista durante a luta de classes anterior a 1964. Portanto, a articulação em torno das classes dominantes e de parte do Exército, com apoio de fração da classe média tradicional e da Igreja Católica, tinha por objetivo derrubar o governo trabalhista de Jango, impedir a continuidade da Democracia Liberal e frear qualquer possibilidade de reformas que viessem na linha nacionalista e trabalhista. Portanto, foi um golpe de classe, da classe dominante contra as classes populares que vinham intensificando sua organização e práxis na defesa dos seus interesses econômicos, políticos e sociais e lutando contra a opressão Capitalista.
Assim como o golpe, a Ditadura Militar que, ao contrário do que diz alguns historiadores revisionistas, durou vinte e um ano, também foi um regime político compatível com a natureza classista da dominação burguesa, portanto, uma Ditadura que matou, censurou, exilou e prendeu a fim de defender os interesses da burguesia local articulada com sua sócia maior transnacional.
A Ditadura Militar censurou inúmeras peças de teatro, composições musicais, novelas e a imprensa de modo geral. Ela não sabe conviver com a crítica, a contradição e a divergência. A Ditadura fez muitos companheiros e companheiras deixarem o Brasil, pois não podiam amar o regime autocrático enrolado no patriotismo verde-amarelo e disfarçado no conceito de Pátria propagado no “Ame-o, ou deixe-o”. A Ditadura prendeu e torturou àqueles e àquelas que sonhavam com um mundo mais justo e a tortura é a pior face por que passa o ser humano. Ele se anula na sua humanidade, diante o pau-de-arara. Parece impotente diante da máquina da morte, operada por gente da qualidade de Carlos Brilhante Ustra cujo livro da autoria desse monstro hoje é recomendado pelo governo para ser utilizado nas escolas e quando o mesmo é instado ao panteão dos “heróis” brasileiros pelo mesmo governo de plantão e seus seguidores. A Ditadura matou crianças inocentes, exterminou índios, perseguiu homossexuais. Calou a resistência em nome da “Ordem e Progresso” e em favor da acumulação de capital burguesa. Intensificou a intervenção e desmantelamento dos sindicatos trabalhistas, prendeu e torturou camponeses e camponesas que lutavam por um pedaço de chão para plantar. Era esse o “crime” cometido, a luta para trabalhar e produzir para se alimentarem, preço que pagaram alto diante do monstro que os engoliam ainda vivos. A Ditadura trouxe o agronegócio e o agrotóxico, “modernizou” o campo através do sistema de crédito, da mecanização e da proletarização dos agricultores, modelo de agricultura centrada na grande propriedade que ainda hoje vive a exportar e pouco empregar e alimentar os brasileiros. A Ditadura e a tortura foram patrocinadas pelas grandes empresas nacionais e multinacionais, incluindo bancos e empresas de meios de comunicação de massa, sem que até hoje ninguém tenha respondido pelos crimes cometidos contra os direitos humanos. Por fim, a Ditadura foi um regime político corrupto e deixou o Brasil em 1985 com uma crise econômica gravíssima: a concentração de renda, a hiperinflação, o aumento considerável da dívida externa e a dependência externa cada vez maior em relação aos Estados Unidos. Qualquer semelhança com a conjuntura atual, não é mera coincidência.
Portanto, hoje, passados 55 anos do Golpe Militar, não é momento de comemorar, pois a comemoração de regimes autoritários dessa natureza viola princípios caros de civilidade e humanidade. É preciso rememorar criticamente, de preferência ouvindo os historiadores profissionais a fim de que lutemos no presente para que experiências dessa natureza não se repitam. Façamos justiça às vítimas do passado, enfrentar governo que namora com a Ditadura é fazer a redenção benjaminiana do passado ao presente, é denunciar os algozes e fazer justiça às vítimas. Lutar contra o fechamento do regime atualmente é dever de todos que conhecem, na prática ou nos bons livros de História, o que se passou naquelas décadas sombrias. Ter consciência histórica crítica nesse momento é fundamental para fazermos a grande política. Nessa seara, os bons historiadores deverão prestar um grande serviço ao país.

domingo, 24 de março de 2019

TIREM AS MÃOS DA UFCG, ELA É LAICA SIM!

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UAH/UFCG)

Escrevo esse artigo a fim de expressar minha opinião sobre a laicidade das nossas universidades públicas e, assim, responder aos vários internautas que me atacam nas redes sociais, alguns dos quais usando fake news.
Primeiramente, gostaria de falar da legalidade e legitimidade da nossa defesa em torno da universidade e do Estado laicos. Vamos à Constituição de 1988, Art. 5ª, parágrafo “VI- é inviolável liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício de cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. No Art. 207, a Carta Magna diz que “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Já o Estatuto da UFCG diz o seguinte no Capítulo II, Art. 10, parágrafo “III – a natureza pública, gratuita, democrática, laica e de qualidade socialmente referenciada, sendo de responsabilidade da União a garantia de recursos para a manutenção da Instituição”.
Desses dispositivos, podemos concluir que há embasamento legal para impedir a realização de proselitismo religioso por meio de verdadeiros cultos que vêm se desenvolvendo na UFCG. A Constituição, ao dizer que o Estado é laico, implica dizer que as políticas de Estado e de governo, bem como as suas instituições, não podem se orientar, administrar, ostentar ou se embasar em quaisquer princípios religiosos. Por outro lado, o Estado laico deve proteger e defender a liberdade de cultos, a diversidade religiosa e combater a intolerância religiosa, os preconceitos e invasões a espaços sagrados por seus praticantes. Entretanto, a garantia da liberdade de culto e da diversidade religiosa em um Estado Moderno, desde o Iluminismo, deve existir de tal maneira que os mesmos sejam realizados nos lugares religiosos existentes para religar o homem ao sobrenatural (religare = religião).
No caso das universidades públicas, nada impede que alun@s, professor@s e servidor@s técnico-administrativos tenham suas diversas formas de religiões, muito menos há problema algum que ostentem símbolos sagrados, mas o que é ilegal é a realização de práticas religiosas em um espaço destinado à produção de conhecimento científico. Nesse sentido, o Estatuto da UFCG é claro ao afirmar o caráter público, gratuito e LAICO da nossa instituição.
Alguns podem indagar: e a defesa da pluralidade de ideias, onde fica? Vamos lá. Quando o Estatuto, o Regimento, a Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional falam de pluralismo de ideias no âmbito da educação, é no tocante a diversas concepções teóricas e pedagógicas, mas na dimensão do conhecimento científico, produzido a partir de plurais fundamentações racionais passadas por regras e métodos empíricos da ciência. Nesse particular, não há espaço para fazer explicações de mundo no âmbito educacional laico tomando a metafísica teológica como determinante nas nossas pesquisas. Inclusive, as próprias religiões são objeto de estudos da ciência, ao menos desde a hermenêutica bíblica da virada do século XIX para o XX.
Nesse ponto residem outros esclarecimentos a fazer. Alguns poucos estudantes do curso de História da UFCG têm afirmado haver preconceito contra cristãos no interior do nosso curso. Outros internautas têm afirmado que meus discursos de críticas às religiões são preconceituosos. Ora, talvez seja o caso de separar o joio do trigo. Haveria preconceito e intolerância religiosa, caso eu desqualificasse rituais, práticas, e crenças das pessoas em sua dimensão subjetiva. No próprio PET-História, sob minha coordenação, temos cristãos, ateus, umbandistas, judeus e, ao que eu saiba ninguém foi vítima de violência simbólica naquele programa, tampouco no curso de História, no qual os professores são éticos o suficiente para respeitarem a alteridade. O que talvez as pessoas não entendam, inclusive estudantes de história e das ciências humanas, é que fazer a crítica às instituições religiosas enquanto objeto de estudo historiográfico, sociológico e antropológico, não implica preconceito e/ou intolerância. Estudantes da área de humanas certamente saberão que as religiões, quando estudadas pelo prisma do conceito de ideologia (Marxismo- Weberianismo) ou de dispositivo de poder disciplinar (Michel Foucault), não estão descoladas das estruturas socioeconômicas e políticas, e agem enquanto instrumento de dominação e resistência de classes ou enquanto discursos que criam efeitos de verdade sobre os sujeitos, disciplinando-os, classificando-os e hierarquizando-os.
No campo da História, são várias as matrizes teóricas que estudam o papel das religiões como instrumentos ideológicos de dominação de classes: o catolicismo, ideologia do Feudalismo; o luteranismo e as igrejas reformadas do século XVI foram a ideologia sustentáculo de uma ética burguesa do Capitalismo emergente; o Hinduísmo, legitimador ideológico da sociedade de castas indiana, e assim por diante. Mas as religiões e religiosidades também podem ser instrumentos ideológicos da resistência das classes populares, é o caso do milenarismo inglês do século XVII que, segundo Edward Thompson ajudou a conformar um projeto de formação da classe operaria; da Teologia da Libertação latino-americana, cujo clero era engajado nas causas dos pobres e oprimidos; ou ainda, os movimentos messiânicos de Canudos, Contestado e Caldeirão, cuja religiosidade era o substrato filosófico da luta contra o latifúndio e o coronelismo, portanto, padres junto dos pobres camponeses. Sendo assim, sem essa de confundir estudos científicos sobre religiões com preconceitos religiosos. Fazer o curso de História pressupõe, ao menos, que a História é feita por agenciar humano, cultural e não sobrenatural, sendo o próprio sagrado invenção humana, portanto, criatura e não criador.
Em resumo:
v  A Constituição assegura o dever de proteção da liberdade de cultos, mas que os mesmos sejam realizados nas igrejas, templos, sinagogas, aldeias, terreiros, mesquitas e não na universidade;
v  A Constituição respalda a autonomia da universidade, aliás, recentemente enfatizada longamente em sessão do STF, assim como a liberdade de cátedra do professor;
v  Autônoma, devemos cobrar que o reitor cumpra o Estatuto e impossibilite a realização de proselitismo religioso em qualquer espaço destinado ao ensino, pesquisa e extensão baseado na ciência e no pensamento racional crítico;
v  Não confundir crítica ideológica às instituições religiosas com preconceito aos seus crentes, pois avançamos o suficiente epistemologicamente para romper com o conhecimento no interior das universidades calcado em preceitos teocrático-medievais escolásticos;
v  Na UFCG as pessoas podem seguir a religião que quiser, mas não podemos fazer proselitismo, muito menos escrever nas provas que “Deus fez a História, a Geografia, a Matemática, etc”;
v  Não há preconceito contra cristãos no curso de História da UFCG, talvez alguns não aguentem o debate crítico da historiografia. Nesse caso, só resta dizer que não esperem por um ensino religioso de matriz cristocêntrica, pois os livros de História já saíram faz tempo da Idade Média;
v  Por fim, sabemos que a busca dos religiosos pelas Universidades se acentuou com o governo Bolsonaro e o MEC militarizado e cristianizado, cuja sacada por trás da ideia de “apenas rezar”, reside numa guerra de posição (Gramsci), uma disputa ideológica que visa matar o pensamento científico e, talvez, alguns cientistas.
As universidades públicas não “serão do senhor”, mas do povo brasileiro que tem sede de conhecimento para transformar a si mesmo e o mundo. Para melhor, é claro.