quinta-feira, 25 de junho de 2020

EM TEMPOS DE PANDEMIA, MESTRADO AMEAÇADO DE FECHAR EM CAMPINA GRANDE!?

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires

Escrevo esse texto para que fique como documento para a posteridade. Nele, quero expressar uma posição política em relação à ameaça de fechamento do Mestrado em História da Universidade Federal de Campina Grande. Como membro permanente do referido programa de pós-graduação não me omitirei em tomar partido em uma conjuntura de crise societária/sanitária tão brutal como a que vivemos.
Nosso Mestrado foi criado em 2006 e já passou por várias avaliações na toda poderosa CAPES sem, contudo, ter conseguido sair do conceito 3 (três). Eu não fui da fundação, pois cheguei ao corpo docente da UFCG apenas em 2010 e, mesmo vinculado à Unidade de Educação do Campo/CDSA/UFCG, entrei para o quadro do PPGH como colaborador e depois membro permanente. Entre 2014/15, passei a fazer parte da Unidade Acadêmica de História por meio de redistribuição.
Durante esse tempo em que atuo no PPGH/UFCG não é a primeira vez que ouço falar que nosso mestrado pode fechar e que nós é que temos que impedir essa tragédia. A burocracia em vez de contestar o modelo draconiano e quantitativista da CAPES dos tempos da ditadura, opta por quase crucificar a nós docentes, colocando sobre nossas costas o peso da responsabilidade e o ônus da culpa caso não consigamos atingir uma nota 4 (quatro). Isso em termos ditos normais já é uma aberração e uma injustiça, pois vivemos com dedicação exclusiva fazendo atividades de ensino, pesquisa e extensão na graduação, especialização e mestrado. Sempre tivemos um bom número de orientandos, coordenamos grupos de pesquisa vinculados ao CNPC, publicamos com nosso próprio dinheiro livros e capítulos de livros, participamos de uma imensa quantidade de bancas examinadoras, fazemos pareceres para revistas científicas, coordenamos PIBIC, PIBID, PET, PROEXT, PROBEX, etc. Dizer, então, que a “culpa” do possível fechamento do mestrado é do corpo docente “improdutivo”, é desconsiderar essas inúmeras atividades nas quais estamos mergulhados o tempo todo.
Recentemente foi enviada a tal Plataforma Sucupira do PPGH/UFCG para ser avaliada pelos devoradores de números, apreciadores de qualis e defensores de Lattes. Entretanto, pela informação da atual coordenação do PPGH/UFCG relatada em reunião da Unidade Acadêmica, há uma ameaça de fechamento do nosso mestrado caso não “retornemos” às atividades de modo remoto. Segundo informa a coordenação, pelas conversas com vários coordenadores de PPGH pelo Brasil inteiro, a coordenação da área de História na CAPES e a PRPG, os mestrados que já tiraram três notas 3 não podem obter a mesma nota, pois seriam fechados. Quanto a isso, já sabemos, embora não seja culpa nossa. Contudo, informa a nossa coordenação que também seremos avaliados para além da Plataforma Sucupira já enviada e o retorno remoto das atividades é condição relevante e quase decisiva para que o programa não seja fechado.
Nesse caso, considero um agravante em relação à pressão que já se faz em tempos ditos “normais”, uma vez que agora se trata de uma chantagem burocrática em tempos difíceis de uma pandemia mundial. Mesmo assim, de acordo com um questionário aplicado pela coordenação de graduação em História da UFCG, a maioria absoluta dos docentes se encontra trabalhando remotamente em diversas atividades o que depõe contra qualquer tentativa de afirmações de que os docentes não estão produzindo conhecimento histórico. Cabe à coordenação do PPGH e a PRPG tornar ciente e fazerem relatórios para a toda poderosa CAPES afirmando que estamos trabalhando, mesmo que de forma precária. Cabe também a eles cobrarem bolsas de mestrado para a turma de 2020 que está sendo pressionada a cursar disciplinas por meios virtuais, mas sem as condições financeiras de arcarem com custos para o desempenho do curso.
A rigor, não sou contra fazermos uma seleção para o ano de 2021 na modalidade virtual, desta feita, sem a necessidade da prova escrita como primeira etapa do processo seletivo. Também sou favorável à realização de defesas de qualificações e do trabalho final de Dissertação, desde que com anuência do mestrando e parecer do orientador. No entanto, sou contrário ao retorno remoto das disciplinas para os mestrandos de 2020, posição igualmente defendida para o curso de graduação.
É verdade que hoje a conjuntura política com um governo ultraneoliberal e neofascista é mais dura para o enfrentamento junto à CAPES e ao MEC. Mas não custa lembrar que durante os “tempos de ouro” dos governos de conciliação de classes pouco se fez para alterar a forma de avaliação da CAPES contando, inclusive, com a conivência, omissão ou pouca disposição por parte de nossos pares na área de História que acompanham a universalização das regras de avaliação sem levar em consideração as diversidades regionais e as condições para publicações que se concentram nas grandes editoras situadas, sobretudo, no sul-sudeste. Chegamos até aqui com as hierarquias funcionando e cada um fazendo seu serviço para satisfazer a CAPES, essa deusa toda poderosa, inquestionável e dogmática. O pior: muitos professores e estudantes viveram e vivem sendo seus devotos.
Para finalizar, gostaria de dizer que tenho publicado capítulos de livros e organizado livros, coordenado o PET por quatro anos, orientado e ministrado aula a semana inteira e ainda tiro o tempo para a militância política. Para quem gosta, basta conferir o tal do meu curriculum lattes. Sendo assim, a depender de mim e de muitos colegas que trabalham bastante, o Mestrado em História jamais será fechado e a ele desejo muitos anos de vida. O que não aceito é chantagem e culpabilização pelo seu possível fechamento, tenho a consciência tranquila do dever cumprido. Acho que o alvo do ataque deve ser à burocracia que chancela as regras do produtivismo e não os professores e estudantes doentes e cansados de trabalhar.
 Espero mesmo que não fechem nosso mestrado, principalmente em um tempo em que se está abrindo e fechando covas para empurrar gente chão à dentro.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

PARA ROSA, COM CARINHO...




O tempo é a melhor expressão da vida, ele caleja nossas mãos, põe rugas na nossa face e muita experiência na nossa subjetividade. O tempo passa e, com ele, passamos juntos. Juntos com o tempo e, nele, juntos com os outros. Aprendemos a sonhar, a lutar, a ganhar e a perder. Ensinamos e aprendemos pelas estradas marcadas pela duração, “caminhando e cantando e seguindo a canção”; ora, com uma empostação vocal bastante afinada, ora, com rasgos de gritaria entortando a música a sair pelas gargantas revoltadas que cantam à História. O tempo também é um jardim de orquídeas, margaridas e rosas; jardim esse que precisamos regar com a água cristalina da vida e cuidar com o afeto que o artesão transfere da mente e do coração para as mãos cultas do ofício- (culto, no sentido etimológico de cultivar, de cuidar). O tempo, enfim, é a especificidade da História enquanto ciência e a matéria prima dos historiadores sobre o qual se narra. Mas as tessituras costuradas pelos filhos de Clio nem sempre seguem enredos progressistas e/ou revolucionários, já que alguns intelectuais costuram intrigas seguindo as “esquinas perigosas da História”, para lembrar o título sugestivo do livro de Valério Arcary.
Rosa Godoy expressa o que de melhor o tempo nos deu e o que de melhor o tempo lhe deu. Em 70 anos aqui conosco ela trabalhou bastante, deu aulas, orientou, escreveu, publicou e administrou a coisa pública com ética e reconhecimento pela comunidade acadêmica da UFPB quando da ocasião de ocupar uma pró-reitoria nessa instituição de ensino superior. Além disso, ou mesmo em função disso, pensou, respirou e praticou política o tempo todo. Se meteu em movimento sindical docente quando da fundação da nossa ADUFPB e foi uma militante orgânica junto aos movimentos sociais dos grupos e classes subalternas durante o período final da Ditadura Militar. Por isso mesmo, foi vigiada e fichada pelos órgãos da repressão daquele regime autocrático-burguês, conforme bela terminologia conceitual cara a Florestan Fernandes. Apesar de uma época difícil, na qual os marxistas já eram caçados, dentro e fora das universidades, Rosa fundou o Núcleo de Documentação em História Regional da UFPB que mais tarde faria nascer o Programa de Pós-Graduação em História que tem a mão de Rosa Godoy como uma das fundadoras.
Enfim, Rosa é o tempo do trabalho incansável que a tornou uma profissional querida pelo Brasil a fora. Saiu de baixo para desafiar o tempo institucional uspiano e mostrar que filha de classe trabalhadora do município de Jundiaí poderia trilhar o tempo, da graduação ao pós-doutoramento, na universidade que Vargas fez criar para formar as classes dominantes e integrar o Brasil nos quadros da chamada modernidade capitalista industrial. Ainda mais: a menina de Jundiaí um dia abraçou o corpo afetivo de Dona Leonor como que dissesse: “___ mãe, eu vou voar... No tempo... e no espaço”. Logo ela, que veio se doutorar estudando a espacialidade periférica do capitalismo desigual e combinado que pariu o progresso burguês na Região Sudeste vomitando restos de miséria sobre a regionalidade nordestina. E Rosa Godoy ainda aproveitou para responder a xenofobia às avessas da anti-paulistanidade de parte do Departamento de História da UFPB. Rosa deu um voo rasante na cidade de Cajazeiras para ministrar um curso de curta duração, mas bebeu a água paraibana e a cerveja sertaneja e, como uma bandeirante na contramarcha, rasgou a Paraíba inteira rumo ao litoral e veio residir, conviver e trabalhar na capital mais bela do mundo que fica, coincidentemente, na ponta mais oriental das Américas.
Rosa Godoy é aquela mulher que soube cultivar as relações interpessoais nesses 70 anos de vida e que, não por mera coincidência, veio comemorar sua maioridade junto ao G9 + e ao lado dos amigos e amigas que construiu na Paraíba. E nós que aqui estamos a festeja-la, direta ou indiretamente, sendo orientando de fato ou de direito, um dia passamos na sua residência no Bairro de Tambaú. Sábado, domingo ou feriado, não importava, lá estava Rosa sentada à mesa com um calhamaço de tese ou dissertação discutindo pagina a página com o orientando/amigo, fumando seu cigarro, tomando sua cerveja e discutindo o presente e o passado. E agindo politicamente no tempo presente, o tempo do historiador.
Mas Rosa não é apenas a profissional, a professora, a historiadora. É uma mulher corajosa, destemida, solidária, amiga. É a filha que soube acompanhar à mãe até a morte, mesmo à distância; é também a mãe genial da Lígia, a genitora que também desafiou a sociedade patriarcal, cristocêntrica e oligárquica paraibana e mostrou como o mundo deve ser plural e os modelos de famílias igualmente diversos. Sua filha hoje é a prova do quanto as duas juntas, ao lado da cuidadora e amiga Silvia, formaram um modelo perfeito de família.
Rosa é vencedora porque esteve sempre do lado certo da História. Chegou aos 70 com cabelos brancos e algumas rugas, é verdade, mas com uma jovialidade na alma de dar inveja a muitos. É uma menina! Uma flor no jardim desse mundo tão cheio de flores secas e murchas; uma rosa que à cada dia que o sol desponta no horizonte, fica mais viva, mais brilhante, e é por esse brilho irradiante que você, Rosa Godoy, faz o mundo ficar melhor.
Agora, aos 70, desejamos que você continue desafiando o tempo, enfrentando as intempéries, como sempre fez e que o tempo te reserve muito tempo de estadia nesse planeta maluco. Mas você faz diferença para nós!
Beijos dos amigos de Campina Grande! Feliz aniversário! Parabéns.

domingo, 31 de março de 2019

FOI GOLPE E FOI DITADURA SIM, SENHOR PRESIDENTE!



Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Escrevo esse texto, na qualidade de Historiador profissional e estudioso da História Republicana Brasileira. E não gostaria de começar dessa forma, fazendo uma espécie de auto-apresentação, mas a conjuntura política atual exige que assim o faça para afirmar meu lugar de pesquisador contra os vulgarizadores, banalizadores e irresponsáveis para com a manipulação do conhecimento histórico.  Os fake-news metidos a historiadores.
A começar do presidente da República, seus ministros e seguidores do “mito” da extrema-direita brasileira. Intelectuais orgânicos do sistema Capitalista, que se arvoram ao papel de historiadores sem, ao menos, ter cursado uma disciplina de metodologia da História. Se é verdade que o saber histórico não é monopólio dos historiadores profissionais, igualmente verdadeiro é defender que somos os mais qualificados para narrar sobre o tempo, uma vez que vivemos estudando para tecer a estrutura narrativa com base na profissionalização que o bom ofício requer.
Dito isso, gostaria de iniciar manifestando repúdio à decisão do presidente da República em ordenar que as Forças Armadas comemorassem o 31 de março de 1964 como “uma revolução que salvou o Brasil do Comunismo”. Igualmente repudiável, é um vídeo que circula nas redes sociais do dia de hoje agradecendo ao Exército Brasileiro por ter feito a tal “revolução” para “salvar” o Brasil da suposta “ditadura Comunista”.
Talvez fosse pedir de mais a turma de Bolsonaro uma leitura da magnífica obra de Paul Ricoeur: A Memória, a História, o Esquecimento. Lá eles encontrariam um filósofo defendendo a “justa memória”, a “memória feliz”, aquela que, em nome da ética, faz justiça às vítimas e não aos seus algozes da memória e da História oficiais. Os “heróis emoldurados” verdadeiros vampiros do sangue dos subalternos, tão criticados pelo samba enredo da Estação Primeira de mangueira no Carnaval de 2019.
Talvez fosse pedir bastante aos aprendizes de historiadores que conhecessem a historiografia brasileira sobre o Golpe de 1964 e a Ditadura Militar, a exemplo do clássico livro de René Dreifuss que prova, exaustivamente, baseado em pesquisa empírica nos arquivos do IPES e do IBAD que havia um bloco do capital multinacional-associado cujos intelectuais orgânicos atuaram no combate ao bloco reformista-nacionalista durante a luta de classes anterior a 1964. Portanto, a articulação em torno das classes dominantes e de parte do Exército, com apoio de fração da classe média tradicional e da Igreja Católica, tinha por objetivo derrubar o governo trabalhista de Jango, impedir a continuidade da Democracia Liberal e frear qualquer possibilidade de reformas que viessem na linha nacionalista e trabalhista. Portanto, foi um golpe de classe, da classe dominante contra as classes populares que vinham intensificando sua organização e práxis na defesa dos seus interesses econômicos, políticos e sociais e lutando contra a opressão Capitalista.
Assim como o golpe, a Ditadura Militar que, ao contrário do que diz alguns historiadores revisionistas, durou vinte e um ano, também foi um regime político compatível com a natureza classista da dominação burguesa, portanto, uma Ditadura que matou, censurou, exilou e prendeu a fim de defender os interesses da burguesia local articulada com sua sócia maior transnacional.
A Ditadura Militar censurou inúmeras peças de teatro, composições musicais, novelas e a imprensa de modo geral. Ela não sabe conviver com a crítica, a contradição e a divergência. A Ditadura fez muitos companheiros e companheiras deixarem o Brasil, pois não podiam amar o regime autocrático enrolado no patriotismo verde-amarelo e disfarçado no conceito de Pátria propagado no “Ame-o, ou deixe-o”. A Ditadura prendeu e torturou àqueles e àquelas que sonhavam com um mundo mais justo e a tortura é a pior face por que passa o ser humano. Ele se anula na sua humanidade, diante o pau-de-arara. Parece impotente diante da máquina da morte, operada por gente da qualidade de Carlos Brilhante Ustra cujo livro da autoria desse monstro hoje é recomendado pelo governo para ser utilizado nas escolas e quando o mesmo é instado ao panteão dos “heróis” brasileiros pelo mesmo governo de plantão e seus seguidores. A Ditadura matou crianças inocentes, exterminou índios, perseguiu homossexuais. Calou a resistência em nome da “Ordem e Progresso” e em favor da acumulação de capital burguesa. Intensificou a intervenção e desmantelamento dos sindicatos trabalhistas, prendeu e torturou camponeses e camponesas que lutavam por um pedaço de chão para plantar. Era esse o “crime” cometido, a luta para trabalhar e produzir para se alimentarem, preço que pagaram alto diante do monstro que os engoliam ainda vivos. A Ditadura trouxe o agronegócio e o agrotóxico, “modernizou” o campo através do sistema de crédito, da mecanização e da proletarização dos agricultores, modelo de agricultura centrada na grande propriedade que ainda hoje vive a exportar e pouco empregar e alimentar os brasileiros. A Ditadura e a tortura foram patrocinadas pelas grandes empresas nacionais e multinacionais, incluindo bancos e empresas de meios de comunicação de massa, sem que até hoje ninguém tenha respondido pelos crimes cometidos contra os direitos humanos. Por fim, a Ditadura foi um regime político corrupto e deixou o Brasil em 1985 com uma crise econômica gravíssima: a concentração de renda, a hiperinflação, o aumento considerável da dívida externa e a dependência externa cada vez maior em relação aos Estados Unidos. Qualquer semelhança com a conjuntura atual, não é mera coincidência.
Portanto, hoje, passados 55 anos do Golpe Militar, não é momento de comemorar, pois a comemoração de regimes autoritários dessa natureza viola princípios caros de civilidade e humanidade. É preciso rememorar criticamente, de preferência ouvindo os historiadores profissionais a fim de que lutemos no presente para que experiências dessa natureza não se repitam. Façamos justiça às vítimas do passado, enfrentar governo que namora com a Ditadura é fazer a redenção benjaminiana do passado ao presente, é denunciar os algozes e fazer justiça às vítimas. Lutar contra o fechamento do regime atualmente é dever de todos que conhecem, na prática ou nos bons livros de História, o que se passou naquelas décadas sombrias. Ter consciência histórica crítica nesse momento é fundamental para fazermos a grande política. Nessa seara, os bons historiadores deverão prestar um grande serviço ao país.

domingo, 24 de março de 2019

TIREM AS MÃOS DA UFCG, ELA É LAICA SIM!

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UAH/UFCG)

Escrevo esse artigo a fim de expressar minha opinião sobre a laicidade das nossas universidades públicas e, assim, responder aos vários internautas que me atacam nas redes sociais, alguns dos quais usando fake news.
Primeiramente, gostaria de falar da legalidade e legitimidade da nossa defesa em torno da universidade e do Estado laicos. Vamos à Constituição de 1988, Art. 5ª, parágrafo “VI- é inviolável liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício de cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. No Art. 207, a Carta Magna diz que “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Já o Estatuto da UFCG diz o seguinte no Capítulo II, Art. 10, parágrafo “III – a natureza pública, gratuita, democrática, laica e de qualidade socialmente referenciada, sendo de responsabilidade da União a garantia de recursos para a manutenção da Instituição”.
Desses dispositivos, podemos concluir que há embasamento legal para impedir a realização de proselitismo religioso por meio de verdadeiros cultos que vêm se desenvolvendo na UFCG. A Constituição, ao dizer que o Estado é laico, implica dizer que as políticas de Estado e de governo, bem como as suas instituições, não podem se orientar, administrar, ostentar ou se embasar em quaisquer princípios religiosos. Por outro lado, o Estado laico deve proteger e defender a liberdade de cultos, a diversidade religiosa e combater a intolerância religiosa, os preconceitos e invasões a espaços sagrados por seus praticantes. Entretanto, a garantia da liberdade de culto e da diversidade religiosa em um Estado Moderno, desde o Iluminismo, deve existir de tal maneira que os mesmos sejam realizados nos lugares religiosos existentes para religar o homem ao sobrenatural (religare = religião).
No caso das universidades públicas, nada impede que alun@s, professor@s e servidor@s técnico-administrativos tenham suas diversas formas de religiões, muito menos há problema algum que ostentem símbolos sagrados, mas o que é ilegal é a realização de práticas religiosas em um espaço destinado à produção de conhecimento científico. Nesse sentido, o Estatuto da UFCG é claro ao afirmar o caráter público, gratuito e LAICO da nossa instituição.
Alguns podem indagar: e a defesa da pluralidade de ideias, onde fica? Vamos lá. Quando o Estatuto, o Regimento, a Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional falam de pluralismo de ideias no âmbito da educação, é no tocante a diversas concepções teóricas e pedagógicas, mas na dimensão do conhecimento científico, produzido a partir de plurais fundamentações racionais passadas por regras e métodos empíricos da ciência. Nesse particular, não há espaço para fazer explicações de mundo no âmbito educacional laico tomando a metafísica teológica como determinante nas nossas pesquisas. Inclusive, as próprias religiões são objeto de estudos da ciência, ao menos desde a hermenêutica bíblica da virada do século XIX para o XX.
Nesse ponto residem outros esclarecimentos a fazer. Alguns poucos estudantes do curso de História da UFCG têm afirmado haver preconceito contra cristãos no interior do nosso curso. Outros internautas têm afirmado que meus discursos de críticas às religiões são preconceituosos. Ora, talvez seja o caso de separar o joio do trigo. Haveria preconceito e intolerância religiosa, caso eu desqualificasse rituais, práticas, e crenças das pessoas em sua dimensão subjetiva. No próprio PET-História, sob minha coordenação, temos cristãos, ateus, umbandistas, judeus e, ao que eu saiba ninguém foi vítima de violência simbólica naquele programa, tampouco no curso de História, no qual os professores são éticos o suficiente para respeitarem a alteridade. O que talvez as pessoas não entendam, inclusive estudantes de história e das ciências humanas, é que fazer a crítica às instituições religiosas enquanto objeto de estudo historiográfico, sociológico e antropológico, não implica preconceito e/ou intolerância. Estudantes da área de humanas certamente saberão que as religiões, quando estudadas pelo prisma do conceito de ideologia (Marxismo- Weberianismo) ou de dispositivo de poder disciplinar (Michel Foucault), não estão descoladas das estruturas socioeconômicas e políticas, e agem enquanto instrumento de dominação e resistência de classes ou enquanto discursos que criam efeitos de verdade sobre os sujeitos, disciplinando-os, classificando-os e hierarquizando-os.
No campo da História, são várias as matrizes teóricas que estudam o papel das religiões como instrumentos ideológicos de dominação de classes: o catolicismo, ideologia do Feudalismo; o luteranismo e as igrejas reformadas do século XVI foram a ideologia sustentáculo de uma ética burguesa do Capitalismo emergente; o Hinduísmo, legitimador ideológico da sociedade de castas indiana, e assim por diante. Mas as religiões e religiosidades também podem ser instrumentos ideológicos da resistência das classes populares, é o caso do milenarismo inglês do século XVII que, segundo Edward Thompson ajudou a conformar um projeto de formação da classe operaria; da Teologia da Libertação latino-americana, cujo clero era engajado nas causas dos pobres e oprimidos; ou ainda, os movimentos messiânicos de Canudos, Contestado e Caldeirão, cuja religiosidade era o substrato filosófico da luta contra o latifúndio e o coronelismo, portanto, padres junto dos pobres camponeses. Sendo assim, sem essa de confundir estudos científicos sobre religiões com preconceitos religiosos. Fazer o curso de História pressupõe, ao menos, que a História é feita por agenciar humano, cultural e não sobrenatural, sendo o próprio sagrado invenção humana, portanto, criatura e não criador.
Em resumo:
v  A Constituição assegura o dever de proteção da liberdade de cultos, mas que os mesmos sejam realizados nas igrejas, templos, sinagogas, aldeias, terreiros, mesquitas e não na universidade;
v  A Constituição respalda a autonomia da universidade, aliás, recentemente enfatizada longamente em sessão do STF, assim como a liberdade de cátedra do professor;
v  Autônoma, devemos cobrar que o reitor cumpra o Estatuto e impossibilite a realização de proselitismo religioso em qualquer espaço destinado ao ensino, pesquisa e extensão baseado na ciência e no pensamento racional crítico;
v  Não confundir crítica ideológica às instituições religiosas com preconceito aos seus crentes, pois avançamos o suficiente epistemologicamente para romper com o conhecimento no interior das universidades calcado em preceitos teocrático-medievais escolásticos;
v  Na UFCG as pessoas podem seguir a religião que quiser, mas não podemos fazer proselitismo, muito menos escrever nas provas que “Deus fez a História, a Geografia, a Matemática, etc”;
v  Não há preconceito contra cristãos no curso de História da UFCG, talvez alguns não aguentem o debate crítico da historiografia. Nesse caso, só resta dizer que não esperem por um ensino religioso de matriz cristocêntrica, pois os livros de História já saíram faz tempo da Idade Média;
v  Por fim, sabemos que a busca dos religiosos pelas Universidades se acentuou com o governo Bolsonaro e o MEC militarizado e cristianizado, cuja sacada por trás da ideia de “apenas rezar”, reside numa guerra de posição (Gramsci), uma disputa ideológica que visa matar o pensamento científico e, talvez, alguns cientistas.
As universidades públicas não “serão do senhor”, mas do povo brasileiro que tem sede de conhecimento para transformar a si mesmo e o mundo. Para melhor, é claro.




quarta-feira, 30 de maio de 2018

FUI À PRAÇA DA BANDEIRA À REBOQUE DE UM CAMINHÃO... E NÃO ME ARREPENDI

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)


Como é fácil ficar em casa, trancafiado em gabinetes confortáveis, lendo a conjuntura a partir de vídeos, textos e reportagens jornalísticas. Ou fazendo juízo de valor apressado e generalizante de um amplo e complexo movimento que sacudiu o país e afetou a economia, a sociedade e a política brasileiras por nove dias.
Quando o movimento começou, estava na organização do Seminário sobre os 200 anos do nascimento do grande Karl Marx, realizado na UFCG. Na oportunidade já tentávamos entender a natureza ideológica do movimento de caminhoneiros, sua pauta política, a forma de organização e negociação, a suposta heterogeneidade do mesmo e sua inserção na conjuntura do golpe de 2016 e da politica de preços de combustíveis aplicada pela PETROBRAS. Em um evento sobre Marx, nada melhor do que perguntar qual o papel da esquerda em tomar partido diante desse movimento que colocou o país em crise ainda maior?
O seminário terminou e os movimentos sociais, populares e sindicais ainda tentavam fazer uma melhor leitura da conjuntura para fazer uma boa intervenção política na realidade histórica do presente. As redes sociais pulverizavam uma gama de informações de que se tratava de um movimento conservador, apoiado pela extrema direita, ostentando faixas pedindo intervenção militar. Para algumas leituras, apoiá-los significaria por mais lenha na fogueira do golpe e apressar a chegada da República da Espada antecipando as urnas de outubro. Para outros, o movimento era apoiado por setores do agronegócio, dos postos de combustíveis e das grandes transportadoras, portanto, trabalhadores “sendo manipulados pelos seus patrões”, sem independência classista, o que não justificaria a aproximação de nós que nos autodenominamos de esquerda com esse tipo de “movimento burguês” lutando pelo fim de alguns impostos e por subsídios para o óleo diesel.
Na contramão dessas leituras mais generalizantes, algumas eu diria até sectárias, algumas entidades de movimentos sociais, sindicais e populares de Campina Grande decidiram atuar junto aos caminhoneiros nas estradas onde estavam os bloqueios. E na segunda feira, 27 de maio, fizeram um ato de solidariedade aos mesmos na histórica Praça da Bandeira com ampla participação, não obstante a chuva que caía. Os caminhoneiros falaram. Os intelectuais acadêmicos e organicamente vinculados a partidos, sindicatos e movimentos sociais escutaram e aprenderam com a voz da experiência de trabalhadores autônomos que movimentam cargas por essas estradas do Brasil em precárias condições de trabalho, vivendo à mercê de empresários que os contratam em condições extremamente desvantajosas. Como nos ensina o historiador Edward Thompson, precisamos ouvir “os de baixo”, suas experiências de lutas, suas expectativas, suas leituras de mundo.
Quero com isso dizer que, o movimento dos caminhoneiros é heterogêneo e mais complexo que pensamos. Uma boa parte das cargas transportadas no país é feita por esses autônomos, cujos interesses não correspondem necessariamente na mesma direção do que negociou a fração burguesa com o governo golpista. Por isso continuaram nas estradas e, não à toa, o movimento se fortaleceu com o anúncio da greve dos petroleiros. Nessa linha, entendeu setores da esquerda que deveria sair da analise de conjuntura e atuar junto ao movimento, dialogar com os sujeitos históricos que estavam parando o Brasil. Entendeu-se que o mais interessante era disputar o movimento com a extrema direita que estava colocando faixas nos caminhões pedindo a intervenção militar, disputar ideologicamente os próprios caminhoneiros que tivesse um entendimento que a solução seria uma saída militar, fazer a filosofia da práxis, o encontro entre o pensamento elaborado pelos especialistas e o senso comum, fazer guerra de posição, para andar com os cadernos de Antônio Gramsci debaixo de braço e pôr suas lições em pratica. Ou é melhor deixar os bolsonaristas de verde amarelo ganhar o movimento e ficarmos de braços cruzados esperando atuar apenas em uma luta “autenticamente revolucionária”? Voltando ao historiador Edward Thompson, a classe não e uma coisa ou uma estrutura, ela se faz na história e faz história e seu fazer-se é na experiência da luta que resulta na construção da consciência de classe. Parece que alguns intelectuais gostariam de militar apenas em um movimento que encontrasse a classe pronta, feita, acabada, com projeto “autêntico” e dali chegariam as vanguardas para apertar o botão do relógio e começar a revolução socialista. Ora, se temos algum caminhoneiro de direita ele não pode aprender com a experiência de nove dias de lutas e adquirir nova consciência? A julgar pela forma como a greve acabou, com o braço armado do Estado, com os militares metendo o cassete para cima deles, provavelmente aprenderam que os militares não estão do seu lado.
Essa história ainda está aberta. Porque em plena crise, o governo aumenta o preço da gasolina. A questão é maior do que pensamos. É a política de preços do tucano Pedro Parente, do entreguismo e da privatização da nossa metade estatal Petrobras. E o pré sal.
É a soberania nacional, estúpido! Enquanto você fica na fila do posto por mais de doze horas para comprar gasolina!
Eu não me arrependo de ter apoiado



sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

MINHA EXPERIÊNCIA NA DIRETORIA DA ADUFCG: de volta para a luta na base

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Não cabe em qualquer curriculum lattes esse tipo de experiência política. Nem poderia, pois ela não pontua para o crescimento da pós-graduação, não tem bolsa de produtividade científica, nem premia os egos individuais das vestais acadêmicas que se envaidecem com os títulos entronizadores da casta encastelada e conformada de doutores. Entretanto, assumir a identidade de historiador sindicalista, cabe no curriculum vida, pois dá sentido à práxis pela qual alguns de nós ainda falamos, uma vez que procuramos articular interpretação teórica e intervenção política como faces de uma mesma moeda.
Aprendi lendo vários autores, aliás, de matrizes teóricas bastante diferentes, desde um Nietzsche, passando por Marx, Engels, Gramsci, Benjamin até os fundadores da Escola dos Annales como Marc Bloch e Lucien Fevbre, que o esforço de produção de narrativa do passado que não sirva à vida no presente e para o futuro não passa de mero exercício de erudição de divertimento dos historiadores. Aliás, penso até que se a História existisse enquanto campo disciplinar apenas para divertir os filhos de clio, seria absolutamente injusto os salários que a sociedade paga para sustentar tantos meninos grandões brincando de contar histórias por pura satisfação individual.
Por isso, aceitei a função de diretor secretário da ADUFCG durante o biênio 2015-2017, embora já fosse militante na base durante a greve de 2012. Na base ou na diretoria, acredito na instituição SINDICATO como instrumento importante da luta de classe, de gênero, étnico-racial e de combate a todas as formas de opressões. Principalmente um sindicato como o ANDES-SN, com mais de 80.000 professores universitários sindicalizados voluntariamente, abrindo mão, por uma questão ideológica, do imposto sindical; um sindicato classista e combativo, independente de qualquer governo ou reitoria de plantão e cujas decisões são realizadas em assembleias de base e não pelas cúpulas de diretorias.
Nesses dois anos à frente da Diretoria/secretaria da ADUFCG, ao lado de valoros@s companheir@s da Diretoria, da base e da Comissão de Mobilização, tive a oportunidade de unfrentar uma das mais difíceis conjunturas históricas dos últimos tempos. Aprendi muito com o entusiasmo e a garra da juventude dos estudantes e professores jovens que conosco militaram; aprendi bastante com a experiência dos companheir@s históricos que não mediram esforços na hora de nos mostrar seu acúmulo de experiência de lutas de outros tempos. Juntos, procuramos ir às bases: as assembleias de unidades acadêmicas e aos campi fora de sede, pois entendemos que o sindicato deve se aproximar dos sindicalizad@s para dialogar com a categoria. Fizemos vários círculos de debates procurando estudar e dialogar sobre os temas desafiadores que a conjuntura pós 2015 foi colocando a cada dia para a classe trabalhadora. Enfrentamos o debate sobre o golpe na perspectiva da diversidade, uma vez, que não havendo consenso nem entre a diretoria, nem entre a base, abrimos um informativo para que fossem expressas as mais diversas interpretações sobre o processo do impeachment/golpe, priorizando a diversidade de leituras ideológicas no interior de uma categoria heterogênea.
Sofremos, e a mim, particularmente, foi bastante desafiador, com a condução da Assembleia de novembro de 2016 quando da possibilidade de deflagração da greve nas universidades, uma vez que estudantes e professores vieram para inviabilizar a sua realização, descambando, posteriormente para um movimento fascistizante que tomou conta das redes sociais ovacionando Jair Bolsonaro, com resposta do próprio deputado se solidarizando aos professores que votaram contra a greve e com os estudantes seus seguidores. Essa Assembleia teve desdobramentos posteriores com processos contra professores e um crescimento da onda fascistizante no interior da UFCG, algo que continuo combatendo no interior da Unidade Acadêmica de História.
Aprendi muito durante os dois Congressos do ANDES e durante o CONAD, mas, sobretudo, nos atos de ruas, algo que gosto muito de fazer. Principalmente as marchas à Brasília vivenciando a repressão da Polícia e a história greve geral de 28 de abril com o piquete da garagem da empresa de ônibus da Cabral. Aprendi também como às vezes não é fácil se construir a unidade da classe trabalhadora, suas dificuldades no processo de construção de alianças, as diferenças ideológicas que nos ensinam que na história da luta de classes a vitória não é previamente identificada, nem as alianças são sólidas, mas construídas na experiência e, às vezes, ela nos leva a caminhos não tão promissores como foi na tão esperada greve geral do dia 30 de junho, que não veio. O que veio foi a contrarreforma trabalhista, diante da fragmentação das instituições representativas e que disputam a hegemonia da classe trabalhadora.
Poderia terminar essa gestão pessimista ao extremo. Lutamos contra a PEC que congelou o orçamento por 20 anos e PERDEMOS; lutamos para derrotar a Lei da Terceirização irrestrita e também PERDEMOS; lutamos para derrotar a contrarreforma trabalhista e também PERDEMOS; estamos às portas de também perder a Contrarreforma da Previdência; nossos salários, progressões e promoções foram congelados; lutamos por uma universidade pública gratuita laica e de qualidade, estamos perdendo para as multinacionais e para o fundamentalismo do MBL e do Escola sem Partido. Realmente, a correlação de forças é desigual e as classes dominantes não deram o golpe a toa, foi justamente para tocar todo essa agenda o mais rápido possível. E conseguiram, e estão conseguindo. Mas como dizia Antônio Gramsci, é preciso ser pessimista na análise para ser otimista na vontade. Nesse sentido, saio da diretoria com a missão do dever cumprido, de quem fez história no chão da luta de classe, junto à tant@s companheir@s, enfrentando o capitalismo, defendendo um projeto de universidade, de sociedade e de Brasil que acredito. Junto a vocês, procurei atuar na conjuntura, mesmo que desfavorável a nós, pois concordando com Gramsci, “Odeio os indiferentes (...) acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes”. É verdade que nem sempre saímos vencedores na luta, como Gramsci, Benjamin e Marc Bloch que foram mortos pelo fascismo. Mas tombaram na luta com coerência política de grande envergadura, articulada com suas concepções de História. Não é porque perdemos tantas conquistas sociais históricas em tão pouco tempo nesse Brasil de retrocessos seculares que devemos abandonar o barco, nem cair num ceticismo radical, não devemos abandonar os instrumentos clássicos e fundamentais da luta de classe. Talvez seja hora de continuar lutando e, ao mesmo tempo, catando cacos sem esquecer que não é o fim da História, pois ela é dialética.  Nem tudo está perdido, pois como nos ensinou, mais uma vez o grande Antônio Gramsci: “Meu estado de espírito sintetiza estes dois sentimentos e os supera: sou pessimista com a inteligência, mas otimista com a vontade. Em cada circunstância, penso na hipótese pior, para pôr em movimento todas as reservas de vontade e ser capaz de abater o obstáculo”.


domingo, 19 de novembro de 2017

EDUCAÇÃO PATRIMONIAL A CONTRAPELO

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (PET-
História/UFCG)

Falar de patrimônio remete, imediatamente, à associação a “coisa velha” pertencente às elites brancas descendentes de portugueses colonizadores, cristãs, heterossexuais e ocidentalizantes, erguido na base material de pedra e cal. Pior ainda, são lembrados como sujeitos construtores dessa memória/patrimônio, apenas os homens brancos livres heterossexuais pertencentes as classes dominantes; os chamados “grandes vultos”, sujeitos individualizados e heroicizados nas suas ações, desde padres, políticos, militares, juízes, portanto, homens de comando do Aparelho de Estado e das Igrejas Cristãs hegemônicas no Brasil. A explicação para essa concepção de memória e patrimônio no Brasil, como bem sabemos, advém do Estado Novo, quando se criou o Serviço de Proteção ao Patrimônio Artístico Nacional, no contexto de um Estado de feição nacionalista/autoritário, cuja legitimidade também foi buscada hegemonicamente no campo simbólico da memória. Nesse sentido, a seara foi aberta para os intelectuais orgânicos dos arquitetos que começaram a preparar o tombamento de casas grandes, igrejas e sobrados coloniais e imperiais, esquecendo as senzalas, os terreiros, os quilombos e cortiços dos sujeitos de baixo na estrutura econômica e social dos períodos em questão. Para embasar minha crítica, nada mais adequado do que citar o clássico poema de Bertold Brecht, Perguntas de um Trabalhador que Lê:

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedras?
E a Babilônia várias vezes destruída -
quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
tinha somente palácios para seus habitantes? Mesmo na lendária Atlântida,
os que se afogavam gritavam por seus escravos
na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou quando sua Armada
naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.

Escrito na década de 1930, o dramaturgo marxista alemão criticava a exclusão dos verdadeiros sujeitos da história, da memória e do patrimônio. Daqueles trabalhadores que, coletivamente, ergueram palácios, templos, pirâmides, muralhas; que foram lutar nas guerras e sequer foram marcados com honrarias, arcos do triunfo ou estátuas nas ruas; que construíram a civilização e dela não puderam desfrutar, pois o belo patrimônio arquitetônico que levantaram com muito suor e força física não lhes pertenciam e sequer nele puderam entrar após sua construção. Portanto, nos acostumamos a olhar o patrimônio pelo prisma da beleza estética, falsamente atribuída a quem não pegou uma pedra para começar qualquer alicerce. Se seguirmos as lições de uma história e memória a contrapelo, como sugeridas na poesia de Brecht e teorizadas no clássico texto de Walter Benjamin, faríamos um exercício de educação patrimonial a partir do olhar do horror e não da sua monumentalidade. Numa concepção benjaminiana de cultura

(...) todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura.

Reforçando o que já foi dito, cumpre mais uma vez destacar que os sujeitos que ergueram o patrimônio cultural na história da humanidade não se tratam de “grandes gênios” individualizados, mas a essa “corveia anônima” de trabalhadores, muitas vezes escravizados, que são relegados ao plano do esquecimento seletivo da memória, algo do tipo que o filósofo Paul Ricoeur classifica como memória ideológica.
Ainda fundamentado em Benjamin, convém destacar que muito do que contemplamos do patrimônio pelo olho encantado da beleza e diante do qual paramos para tirar uma fotografia, esconde o suor, a exaustão, o sangue e a morte de muitos que participaram para sua construção. Por isso, não custa repetir que os bens culturais estão manchados de sangue e esse sangue tem cor, tem classe, tem gênero, tem religião, tem cultura, no sentido antropológico.
Feita essa argumentação conceitual, gostaria mais de levantar questões para o debate sobre Itabaiana, do que mesmo trazer respostas prontas e acabadas. Até porque, não tenho pesquisas para embasar empiricamente a teoria que defendo para uma concepção de educação patrimonial a contrapelo.
Já estive aqui outro dia e fizemos uma visita pela cidade conhecendo o que nos foi apresentado como os principais lugares de memória itabaianense a ser tombado pelo IPHAEP como patrimônio cultural. Parece-me que os maiores destaques foram feitos sobre a memória de Sivuca, o coreto da praça central, o lugar da Batalha da Confederação Equador, a casa do Major e a ponte sobre a qual passava o trem. Na oportunidade, foi citada a existência uma parte do cemitério destinada apenas ao sepultamento de trabalhadores, a existência de cabarés e de sindicatos rurais e urbanos. Também falamos bastante sobre os documentos da igreja e dos cartórios e da necessidade da construção de um arquivo público municipal.
Disso tudo, quero destacar que, se realmente se quer fazer uma educação patrimonial democrática, inclusiva, é imprescindível começar pelo exercício do diálogo com a comunidade, envolvendo associações, sindicatos, igrejas e, evidentemente, as escolas. Sobre estas, sugerimos a inclusão da história local no currículo do ensino fundamental das escolas municipais e a produção de um livro didático na linha da memória histórica de Itabaiana.
Contudo, a linha teórica e política dessa educação não deve seguir as pegadas do positivismo, pois não deve se propor ao engrandecimento de políticos, religiosos, militares, fazendeiros, comerciantes, ou grandes vultos da cultura local. Há que se perguntar sobre o patrimônio intangível que pode está por aí, os saberes, crenças e práticas da cultura popular que devem sair do anonimato para as páginas dos riscos e traços mnemônicos. Há que se olhar para o coreto fazendo perguntas a contrapelo: que foram os trabalhadores que de fato o construiu? A quem ele serviu? Que políticos a ele subiram para verbalizar discursos diferentes de projetos políticos efetivos quando chegaram ao poder. Por que não olhar para a casa do major, perguntando sobre quem de fato construiu aquela mansão naquelas alturas? E a senzala que está ao lado, não é um bem cultural manchado de sangue e opressão? E a ponte, tão vislumbrada imediatamente e que prontamente respondemos “foi construída pelos ingleses”? Por que não educamos no sentido de perguntar quantos operários trabalharam mais de 10 horas diárias para levantar essa estrutura de metal sobre o rio? Os proprietários da Great Western cavaram o alicerce, colocaram vigas, carregaram aço nas costas? Por que os operários dessa empresa fizeram várias greves no inicio do século XX? E o trem que por ela passava apitando o progresso, carregava o que? O algodão que era levado para Manchester e Liverpol para alimentar o capitalismo industrial europeu não era catado pelas sofridas mãos de meeiros, moradores, foreiros e sitiantes para alimentar a sanha de coronéis locais? E a feira de mangaio, magistralmente, composta por Sivuca, que patrimônio seria essa feira? Apenas os mangaios? E os mangaieiros? Não são os trabalhadores que dão vida a feira, que a movimenta econômica, politica e culturalmente? Por que não pensar a feira como esse espaço dos de baixo, principalmente hoje quando ela se encontra tão desvalorizada em razão do surgimento das redes de supermercados e shopping centers? E os sindicatos e sindicalistas, tão importantes no processo de luta de classe, porque não constar na memória? E o cemitério dos trabalhadores, por que não rememorar o trabalho e os trabalhadores pelo ângulo da morte, muitas das vezes seu caminho encontrado no terreno da luta de classes? E as prostitutas com seus cabarés?
São essas as questões que considero importante fazermos para um inicio de conversa a contrapelo. Para um exercício de educação patrimonial numa linha diferente da contemplação de meros estilos arquitetônicos ou de uma memória oficial. O engajamento com o passado só tem sentido a partir do engajamento das lutas do presente, no campo material e simbólico.

Palestra proferida durante o I Seminário Educação Patrimonial do Vale do Paraíba, na cidade de Itabaiana, em 16 de novembro de 2017.