quarta-feira, 31 de março de 2021

A PESQUISA EM HISTÓRIA E OS DESAFIOS DO TEMPO PRESENTE

 

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

 

Do alto do Monte Hélicon, a anunciação advinda da trombeta da Musa Clio sobre o tempo presente no Brasil é bastante desafiadora para seus filhos historiadores do lado de cá do Atlântico. Com o livro de Tucídides na outra mão e a eloquência capaz de inspirar as ciências e as relações políticas entre os homens, talvez seja o caso de começar esse texto recorrendo ao nosso mito maior a fim de tentar estabelecer alguns desafios e impasses colocados aos professores/pesquisadores de História em tempos sombrios.

O Brasil já foi representado de diversas formas, mas é a aquarela, talvez uma das mais canônicas imagens de sua identidade nacional, por meio dos arranjos sambistas de Ary Barroso que musicalizou a brasilidade se apropriando de pinceis, tintas e cores harmoniosas e miscigenadas, tão ao gosto do sociólogo pernambucano e do governo federal varguista. Pois bem, mesmo não entrando no debate sobre a ideologia da suposta democracia racial, gostaria de tentar imitar o compositor, mas fazendo um texto de historiador, de maneira que, assim como ele, tento enquadrar o Brasil atual numa aquarela.

Por alguma analogia, pode-se dizer que os tempos que nos separam – Ari Barroso de nós - mesmo reconhecendo as suas especificidades históricas, estavam/estão carregados por uma onda fascistizante que tenta pintar uma representação única de Brasil: uma nação monoliticamente cristã, branca, heteronormativa, anticomunista, antidemocrática, elitista, cujo modelo de família tida como “superior” é a patriarcal. As tintas com as quais quero narrar o que estamos vivendo, procura imitar, na imaginação, o clássico Guernica, de Picasso; o Brasil do horror, das contradições históricas profundas, das desarmonias, da democracia nunca resolvida e substantivada. Tudo de ponta cabeça. Sangue de Marieles, chicotadas dos latifundiários gaúchos nos sem terra, tiros na caravana e prisão política do ex-presidente Lula, intervenção militar nas favelas do Rio de Janeiro, violência física e simbólica contra mulheres, negros, LGBT, indígenas, quilombolas e lideranças de esquerdas. Intolerância religiosa e racismo. Ódio de classe, nojo de pobre. Na minha aquarela usei dois galões de tintas verde e amarelo para pintar o Golpe de 2016, hegemonizado por frações do capital financeiro, industrial, comercial e agrário, mas orquestrado pelos patos de classe média, do “Movimento Brasil Livre”, do “Vem pra Rua” e outros, ideologizado pela grande mídia reacionário-burguesa e pelo Judiciário soba toga do juiz de Curitiba que se acha maior que o próprio Deus. O golpe fez o Brasil regredir e, por isso, construiu sua ponte para o passado. A roda da História girou para trás e se encontrou com outros tempos nefastos. A privatização do que ainda resta da PETROBRAS e a entrega do pré-sal às multinacionais; a contrarreforma trabalhista e o encontro com o século XIX quando a legislação de proteção ao trabalhador era pauta de luta de classe e greves históricas; a EC-95 que congelou nosso orçamento por vinte anos, de modo que, visivelmente, desmontam-se investimentos públicos e os mercantilizam na lógica do Consenso de Washington; a terceirização irrestrita e a precarização do mundo do trabalho acaba qualquer segurança jurídica e a estabilidade do trabalhador; a contrarreforma da previdência que na verdade é o fim da aposentadoria pública para favorecer fundos de pensões e o capital financeiro, rasgando o capítulo da Seguridade Social da Constituição Cidadã de 1988.

Piorando o quadro, há uma verdadeira guerra de cores. Uma juventude com camisa da seleção brasileira resolveu aparecer na cena para enfrentar tudo quanto fosse vermelho que aparecesse à sua frente. Na aquarela brasileira do meu tempo o que não falta é espaço para desenhar e pintar a monstruosidade nostálgica daquele passado de barbárie que pensávamos descansar no repouso eterno das catacumbas. Eis que em tempos de crise orgânica, de descrença nas instituições democráticas, passa-se a ocorrer a revolução passiva do cemitério. Saem das tumbas do passado, arrancados pelas mãos de gerações do presente, desde monarquistas e integralistas até defensores da volta da Ditadura Militar. Tudo, ainda, em nome do combate à corrupção e ao comunismo, relembrando as Marchas de 1964 em nome de Deus e da Família. 

Pinto esses cadáveres abraçados com alguns ícones do presente, um abraço fraterno de gerações promotoras da catástrofe que paira sob os que jazem sob as rodas do cortejo triunfante da História. Que os venham receber seus defuntos prediletos, Jair Bolsonaro, Magno Malta, Kin Kataguiri, Eduardo Cunha, Silas Malafaia e toda bancada fundamentalista do Congresso Nacional e os ideólogos do “Movimento Escola Sem Partido” exorcizando Carlos Brilhante Ustra e todos os ditadores, torturadores e fascistas que passaram reinando na História desse país.

Um pouco mais de dois anos de governo Bolsonaro o que vimos foi a intensificação da autocracia burguesa e do flerte constante com a ideologia neofascista. Ameaças às liberdades e às instituições da Democracia burguesa foram realizadas à luz do dia, preferencialmente ao sol dos domingos e com a participação do chefe de Estado alimentando uma horda fascistizante. A militarização da política, a busca de apoio em setores da policia militar e milícias constituem hoje sérias ameaças de um golpe de Estado de estilo bonapartista. Resta saber se o presidente tem forças sociais e políticas para tal, o que ao meu modo de ver não tem, mas preocupa sua vontade que não vem de hoje de lançar o Brasil em uma guerra civil, alimentar o caos, para chamar a espada como talismã, conforme bela metáfora da historiadora Emília Viotti da Costa. Ademais, a política genocida e negacionista do governo já nos levaram mais de 300 mil pessoas, a maioria constituída por velhos que, aos olhos do governo da necropolítica ajuda ainda mais a reduzir o tal déficit na previdência social. Inflação crescente, desemprego às alturas, precarização do mundo trabalho, falta de vacina, falta de auxílio emergencial, volta do Brasil ao mapa da fome, retirada dos direitos sociais que ainda restam, privatizações, reforma administrativa que acaba com os serviços e servidores públicos, queimadas na Amazônia com a boiada passando, corte nos orçamento da união para a saúde e educação publicas. Tudo isso, sob as bênçãos de um Deus cúmplice, forte cabo eleitoral das igrejas neopentecostais.

Diante desse quadro que conjuga crise econômica internacional do capitalismo com crise política e avanço da onda fascistizante, cabe perguntar o que estão fazendo e o que podem fazer os filhos da musa da História em seu métier enquanto pesquisadores. Responder à questão requer definir uma concepção de História, da possibilidade da função social desse campo disciplinar e a relação entre a pesquisa acadêmica e a vida em sociedade. Por isso mesmo, gostaria de esboçar algumas considerações a respeito dessas premissas à luz de alguns autores com os quais mantenho uma interlocução teórico-metodológica e política.

Uma escrita da História que não sirva à vida e que não nos ajude a viver melhor não passa de elucubrações para mero orgasmo individual do intelectual. Diante do exposto, cabe direcionar o texto no sentido de tentar esboçar uma resposta que o garoto de Marc Bloch já perguntava nos anos 1940: “papai, então me explica, para que serve a História?”. Eu acrescentaria para nosso tempo: afinal, para que escrever e ensinar História em tempos de avanços da extrema direita, da crise do capitalismo e da retirada da obrigatoriedade da disciplina de História no Ensino médio?

Vale a pena repetir as lições do mestre em sua Apologia da História:

 

Sobre o livro que se vai ler, gostaria de poder dizer que é minha resposta. Pois não imagino, elogio mais belo do que saber falar, no mesmo tom, aos doutos e aos escolares. Mas simplicidade tão apurada é privilégio de alguns raros eleitos. Pelos menos conservarei aqui de bom grado essa pergunta como epígrafe, pergunta de uma criança cuja sede de saber eu talvez não tenha, naquele momento, conseguido satisfazer muito bem. Alguns, provavelmente, julgarão sua formulação ingênua. Parece-me, ao contrário, mais que pertinente. O problema que ela coloca, com a incisiva objetividade dessa idade implacável, não é nada menos do que o da legitimidade da história. (BLOCH, 2001, p. 41)

 

Não poderiam soar tão atual as palavras do grande mestre dos Annales. Escritas nos anos 1940, já se tornaram clássicas, pois envelheceram muito bem e estão à altura da indagação do menino. Aliás, que moleque sapeca! Colocou todos nós na roda para a conversa e desafiou o reinado de Clio a dar explicações convincentes a quem, certamente, espera respostas práticas e funcionais para uma ciência humana cuja matéria prima é retirada da poeira do tempo passado.

Para nós, historiadores brasileiros, atualmente mergulhados no turbilhão de contrarreformas e retrocessos em todas as instâncias, incluindo a já citada contrarreforma do Ensino Médio, que retira a obrigatoriedade da disciplina de História naquele nível de ensino, cabe-nos seguir as lições de Marc Bloch e, fortalecendo e chamando ao combate a nossa cinquentenária ANPUH, brigar em defesa da legitimidade do conhecimento histórico. Aliás, fica um alerta aos professores universitários que se encastelam na nobreza da pesquisa e esquecem ou negligenciam, conscientemente, o ensino básico como se fosse algo “menor”, esquecendo que não devemos/podemos falar apenas para doutos, mas também para os escolares, conforme posição elogiosa defendida por Marc Bloch. Nossa juventude carece de História para a formação de consciência histórica. E nós, historiadores, precisamos continuar a luta da ANPUH para alargar o campo de nossa atuação, para além dos bancos universitários e escolares. Tenho acompanhado bastante, nas redes sociais, respostas aos discursos fascistizantes daqueles que pedem a volta da ditadura na linha afirmativa de quem diz mais ou menos: “eu não defendo isso, eu estudei História”. Entretanto, se por um lado é correto que nem todos aqueles que estudam História formam uma consciência histórica crítica de mundo, por outro, não podemos abrir mão dessa função social e política de constituição de sentido nessa linha, fazendo com que a História, enquanto ciência, não tome a memória apenas como objeto de estudo, mas ela própria assuma essa condição de memória histórica que traga as rememorações temporais passadas pelas regras e métodos da operação historiográfica. Portanto, se o saber que produzimos deve servir aos interesses das gerações do presente, ele deve ser realizado por profissionais e cumprir uma função política que tenha em si a dimensão da emancipação humana e não da exploração do homem pelo homem. Por isso, devolvo a palavra a Marc Bloch para dizer que, se fosse julgada como incapaz de prestar outros serviços à humanidade, restaria, em favor da História, sua defesa em nome do nosso entretenimento. Contudo, mais adiante, ele questiona se todo nosso esforço e atração para o nosso ofício de historiador se justificaria apenas em função de ser um amável passatempo e responde categoricamente nas seguintes palavras que faço questão de citar:

Com toda certeza, num mundo que acaba de abordar a química do átomo e mal começa a sondar o segredo dos espaços estelares, em nosso pobre mundo que, justamente orgulhoso de sua ciência, não consegue todavia criar para si um pouco de felicidade, as longas minúcias da erudição histórica, muito capazes de devorar uma vida inteira, mereceriam ser condenadas como um desperdício de forças absurdo a ponto de ser criminoso, se se devesse apenas servir para dissimular com um pouco de verdade uma de nossas distrações. Ou será preciso desaconselhar a prática da história a todos os espíritos capazes de serem melhor utilizados em outro lugar, ou é como conhecimento que a história terá de provar sua consciência limpa. (BLOCH, 2001, p. 44)

 

Nesse ponto, o historiador francês coloca a questão: “o que, precisamente, torna legítimo um esforço intelectual?”. Para ele, a ciência História seria incompleta se não nos ajudasse a viver melhor, agir e compreender são inseparáveis no nosso métier.

Um primeiro impasse que gostaria de destacar em relação à pesquisa historiográfica, principalmente na historiografia paraibana que conheço um pouco melhor, se trata do já mencionado distanciamento entre a escrita e a práxis, ou seja, muitos historiadores hiperdimensionam a pesquisa separada do ensino e, principalmente, da extensão universitária. Sendo assim, põem a mão na luva do sistema produtivista da CAPES vivendo apenas de contar números de artigos publicados, qualis de revistas e participação em congressos a fim de alimentar seu curriculum lattes e reverter em capital cultural. Pior ainda é que muitas vezes tomam-se os indígenas, quilombolas, LGBT, mulheres, trabalhadores, as instituições escolares, etc, como objeto de estudo de Teses e Dissertações, que não passam de calhamaços encalhados em prateleira de bibliotecas, mas rendem progressão e ascensão funcionais para os pesquisadores, sem nenhum retorno político para os sujeitos do presente que foram narrados pela pena do historiador de gabinete. Isso, sim, é uma atitude bastante antiética.

Esse muro universitário que isola os intelectuais em guetos competitivos e individualistas, tão ao gosto da ideologia neoliberal, afastando-os do mundo lá fora, de seus problemas e contradições, para mim é um grande problema, pois separa a pesquisa do ensino e extensão e, assim, o exercício de interpretação do gesto político da ação. Aliás, essa preocupação já estava no horizonte teórico de Antônio Gramsci, ao criticar, no Primeiro Caderno do Cárcere, todas as correntes filosóficas imanentes anteriores à filosofia da práxis justamente “por não terem sabido criar uma unidade ideológica entre o baixo e o alto, entre os ´simples` e os intelectuais”. (GRAMSCI, 2015, p. 99) Para o marxista italiano, a organicidade do pensamento e a solidez cultural apenas poderiam ocorrer “se entre os intelectuais e os simples se verificasse a mesma unidade que deve existir entre teoria e prática, isto é, se os intelectuais tivessem sido organicamente os intelectuais daquelas massas, ou seja, se tivessem elaborado e tornado coerentes os princípios e problemas que aquelas massas colocavam com a sua atividade prática, constituindo assim um bloco cultural e social”. (GRAMSCI, 2015, p. 100) Dessa maneira, ele anota no seu caderno de prisão que apenas através desse contato é que uma filosofia se torna histórica, depurando-se de “elementos intelectualistas de natureza individual e se transformando em ´vida`”. (GRAMSCI, 2015, p. 100) Cabe perguntar para os historiadores do presente: estamos mais preocupados em tornar o conhecimento histórico crítico e socializá-lo para as classes e grupos subalternos em suas guerras de movimento e posição? Ou em escrever uma Tese de Doutorado com 700 páginas para mera satisfação individual dos intelectuais, da CAPES e de seus pares acadêmicos?

Ligada a essa questão, destacaria um segundo impasse que considero igualmente problemático, este de natureza teórico-metodológica, mas também político-ideológica. Trata-se da hegemonia do culturalismo e do pós-estruturalismo nas pesquisas e no ensino de História nas universidades, feito à custa do funeral da teoria marxista. Desde os anos 1990, muitos historiadores vêm jogando fora a água com o bebê juntos e muitos estudantes de graduação saem repetindo barbaridades a respeito do marxismo sem ao menos ter lido a orelha de um livro de Marx. E ainda vem a santa ignorância do “Movimento Brasil Livre” e do “Escola Sem Partido” dizer que nas nossas universidades reina a “doutrinação ideológica” de base marxista!!!! Se assim o fosse, talvez não teríamos, muito pelo contrário, termos que conviver com estudantes fascistas em cursos de História nas nossas salas de aula, eleitores e cabo eleitorais de Jair Bolsonaro.

Eis que como a história processo é dinâmica e aberta, a crise atual demonstra que a teoria do materialismo histórico é a mais adequada para se entender as contradições sistêmicas, o processo de globalização, a etapa do capitalismo financeiro e neoliberal, o desmonte dos direitos dos trabalhadores e a luta de classes em escala global. Por isso mesmo, o velho barbudo alemão fez sua festa de 200 anos com uma jovialidade de dar inveja a qualquer historiador pós-moderno. Karl Marx anda esbanjando saúde, lançando livros e sendo um dos autores mais lidos pelo mundo a fora para se entender a crise econômica do capitalismo contemporâneo.

Nesse particular, defendo que devemos começar a ensinar nossos estudantes de graduação a ler os textos de Marx, Engels e do marxismo e não de comentadores detratores de suas obras. Ler, sobretudo, para que possamos formar cidadão críticos, engajados com os grupos subalternos e suas causas, pois, conforme bela definição do filósofo Paul Ricoeur (2007, p. 506), em passagem bastante benjaminiana que é que “a história, dizíamos então, encarrega-se dos mortos de antigamente de que somos herdeiros. A operação histórica por inteira pode então ser considerada como um ato de sepultamento”. Ao se referir à morte, Ricoeur afirma que no campo da História não se trata de “um lugar, um cemitério, simples depósito de ossadas, mas um ato renovado de sepultamento. Essa sepultura escriturária prolonga no plano da História o trabalho de memória e o trabalho de luto”. Nesse sentido, ele se aproxima da teoria da história à contrapelo de Walter Benjamin, ao afirmar que “o trabalho de luto separa definitivamente o passado do presente e abre espaço ao futuro. O trabalho de memória teria alcançado sua meta se a reconstrução do passado conseguisse suscitar um tipo de ressurreição do passado (...)” E formula uma interpelação muito válida a todos nós, com a qual estou inteiramente de acordo: “Não é a ambição de todo historiador alcançar, atrás da máscara da morte, o rosto dos que no passado, existiram, agiram e sofreram, e fizeram promessas que deixaram de cumprir”? (RICOEUR, 2007, p. 506).

Um terceiro problema que gostaria de destacar, talvez resultado de questões já apontadas, é o distanciamento dos historiadores em relação às lutas de ruas, incluindo aí o esvaziamento das suas próprias assembleias sindicais. O governo Temer implantou a pauta golpista do grande capital em menos de dois anos, diante de uma ausência marcante de nossa categoria a fazer a resistência concreta com os dois pés colocados sobre o chão da História. É óbvio que esse problema não é apenas dos historiadores, mas quando convocados por centrais sindicais e movimentos sociais para mobilizações/paralisações e greve geral, poucos de nós aparecemos. E acompanhando esse movimento, nossos estudantes também se ausentam de fazer política e deixam de vivenciar a práxis do movimento estudantil para também viver correndo atrás de publicar artigos para alimentar a máquina feroz e avassaladora do lattes. No geral, o que temos visto com maior frequência é a revolução do facebook, muita gente indignada a pedir o “Fora Temer” e a fazer oposição a toda pauta golpista, mas em uma situação bastante confortável diante de uma tela de computador no seu escritório de trabalho. Esquecemos que as redes sociais são um meio, e não um fim, embora muito importantes em um país que não democratizou os meios de comunicação, mas certamente não será de casa pela via da manifestação virtual que vamos mudar a História. Se assim o fosse, Renan Calheiros não teria concluído o mandado na presidência do senado federal, dada a quantidade de caixas com milhões de assinaturas de abaixo assinado virtual que correram pelas redes sociais e chegaram à mesa do senado. É mais que necessário que as esquerdas nesse país retomem o trabalho de base e que os historiadores que se identificam com uma concepção de História à contrapelo procurem seguir essa mesma direção, pois estamos perdendo as ruas para o fascismo verde amarelo que marcha, mais uma vez, na História do Brasil, à luz dos evangelhos e da defesa da família, da ordem burguesa ultra neoliberal e da sacrossanta propriedade privada. Disputar cada praça, cada rua, cada movimento de bairro, cada escola, cada movimento que desponte do horizonte do inesperado, como no caso da greve dos caminhoneiros; disputar hegemonia, fazer guerra de posição, eis alguns desafios para os historiadores que tenham preocupação com a emancipação humana e com o combate a todas as formas de dominação, exploração e opressão. E nós, senhores e senhoras profissionais das narrativas do tempo histórico, temos o imperativo ético de fazer o trabalho de consciência histórica articulando as categorias de espaço de experiência e horizonte de expectativa.

Baseado no historiador alemão Reinhart Koseleck, o filósofo francês Paul Ricoeur (2010) é quem nos chama a atenção sobre a universalidade meta-histórica dessas duas categorias históricas. Primeiro, porque em todos os tempos os homens pensaram sua existência em termos históricos, na sua dupla acepção (vivida e narrada); segundo, em função da variabilidade de que as duas categorias assumem conforme as épocas, por isso mesmo, tornam possível uma história conceitual das variações de seu conteúdo; em terceiro lugar, e para o objetivo desse texto, o mais importante, a ambição universal do par categorial meta-histórico é muito importante pelas suas implicações éticas e políticas permanentes.

Tal implicação requer como tarefa aos historiadores impedir que a tensão entre as duas categorias da temporalidade, experiência e expectativa, se torne cisma. Para isso, Ricoeur nos coloca a par de dois imperativos: “resistir à sedução de expectativas puramente utópicas; elas nada mais podem senão desencorajar a ação; pois, por falta de enraizamento na experiência em curso, são incapazes de formular um caminho praticável dirigido para os ideais que elas situam em ´outro lugar`”. (RICOEUR, 2007, p. 367). É preciso aproximar o horizonte de expectativa do tempo presente. Por outro lado, é preciso resistir ao encolhimento do espaço de experiência:

Para tanto, é preciso lutar contra a tendência de só considerar o passado sob o ângulo do acabado, do imutável, do findo. É preciso reabrir o passado, reavivar nele potencialidades irrealizadas, impedidas, massacradas até. Em suma, contra o adágio que diz que o futuro é aberto e contingente e o passado univocamente fechado e necessário, temos de tornar nossas expectativas mais determinadas e nossa experiência mais indeterminada. Ora, essas são duas faces de uma mesma tarefa: pois somente expectativas determinadas podem ter sobre o passado o efeito retroativo de revela-lo como tradição viva. É por isso que nossa meditação crítica sobre o futuro pede o complemento de uma meditação semelhante sobre o passado. (RICOEUR, 2007, p. 368)

 

É preciso “ser afetado pelo passado”. Primeiramente, para que no nosso horizonte de expectativas possamos abrir o espaço de experiência, abrindo no passado “possibilidades esquecidas, potencialidades abortadas, tentativas reprimidas (uma das funções da história é, quanto a isto, reconduzir aos momentos do passado em que o porvir ainda não estava decidido, em que o passado era ele mesmo um espeço de experiência aberto para um horizonte de expectativa)”. (RICOEUR, 2007, p.388) Por outro lado, esse potencial liberado do “ser afetado pelo passado”, atribuindo-lhe tal sentido, pode contribuir para dar “carne e sangue” às nossas expectativas em uma história por fazer no presente-futuro.

Portanto, é no tempo presente que se pode ampliar ou encolher o espaço da experiência do passado. O presente deixa de ser uma categoria do ver para ser o tempo da iniciativa, portanto da ação e do sofrer, do “eu posso” raiz “eu sou” sujeito atuante que Ricoeur vai buscar em Merleau-Ponty. Como o tempo da iniciativa é o tempo da promessa, mas, sobretudo do seu cumprimento, “o de manter a palavra é fazer com que a iniciativa tenha seguimento, que a iniciativa inaugure verdadeiramente um novo curso das coisas, em suma, que o presente não seja apenas uma incidência, mas o começo de uma continuação”. (RICOEUR, 2007, p. 396) Por meio do “eu posso”, sugerimos a iniciativa do nosso poder; por meio do eu faço, demonstraremos a força da nossa ação; por meio da intervenção, inscrevemos nossos atos no curso das coisas, fazendo coincidir o presente vivo com um instante qualquer; por meio da promessa mantida, darmos ao presente a força de preservar, de durar e, portanto, deste último aspecto resulta propriamente a significação ética que anuncia o caráter mais especificamente político do presente histórico.

O presente é o tempo situado entre um passado que já não é e um futuro que ainda não é. É o tempo do “agora” solidário entre o futuro próximo e o passado que acabou de acabar. Ele supostamente pode inaugurar um tempo novo, um novo começo, mas apoiado no chamado “reino dos contemporâneos” a intercalar “entre o dos predecessores e dos sucessores”.

Voltando ao Brasil do presente, creio que precisamos romper com o presentismo, que não vem de hoje, como se não tivéssemos mais horizontes de expectativas nem espaço de experiências, pois futuro e passado pareciam condenados pelo culto ao progresso e o fetichismo ao atual modelo de sociedade pós-queda do Muro de Berlim. Tal posição teve reflexo na pesquisa historiográfica que deixou de tratar temas importantes do passado para o presente futuro, restando um profundo mergulho no culturalismo e em outras abordagens teóricas que, indiretamente, reforçam certo conformismo com o tempo presente descolado de seus dois vizinhos fundamentais da dialética do tempo histórico.

Creio que é muito significativo passar por cima da teoria conservadora do “fim da História”. É preciso criar horizontes de possibilidades de futuro à luz da promessa ética e política da dívida com as gerações do passado e seus projetos de emancipação impedidos, mas agindo no chão da História e não apenas escrevendo em gabinete de universidade.

REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS

BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. Ensaios Sobre Literatura e História da Cultura. Obras Escolhidas. Vol. 1. São Paulo, Brasiliense, 1994.

BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício de historiador Rio de Janeiro. Ed.  Zahar/2001.

GRAMSCI, Antônio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001- 2006, 6v.

RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa III. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

A REVOLTA DA VACINA: ONTEM E HOJE

 


José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Em 1904, o Rio de Janeiro, então capital da República brasileira foi palco de uma das grandes revoltas populares do inicio do século XX. O governo federal era Rodrigues Alves e o prefeito do Rio era Pereira Passos. Ambos estavam afinados com o projeto de modernização soprado pelos ventos da Paris de Haussmann e sustentado por três eixos centrais: a reforma urbana, o melhoramento do porto e o sanitarismo contra as doenças epidêmicas.

Geralmente se explica a Revolta da Vacina apenas como uma recusa da população em não aceitar a pistola imunológica comandada pelo médico Oswaldo Cruz sobre o seu corpo e, menos ainda, de forma obrigatória. Esse tipo de explicação, além de eivada de certo preconceito- (“povo ignorante” X “razão médica”), ainda é insuficiente para entender as causas da rebelião popular se não colocar o problema em um escopo estrutural bem mais amplo.

É verdade que houve resistência a tomar a vacina em 1904, até porque há que se considerar que os grupos e classes subalternos tinham razões em desconfiar dos governos, como também de uma campanha de vacinação na qual os médicos compareciam às casas das pessoas acompanhados da polícia. Isso mesmo: campanha de vacinação militarizada, regada muito mais a coação do que a uma campanha de convencimento da população.

Entretanto, o povo pobre da capital da República estava resistindo a um amplo projeto de modernização capitalista autoritário implementado à luz do eurocentrismo parisiense. Casebres, vielas, cortiços, vieram abaixo para ceder lugar a uma larga avenida, ruas com novo tipo de calçamento, prédios luxuosos e vitrines. Uma série de restrições passou a compor o código de postura municipal alterando, profundamente, os costumes populares e todo um modo de vida por ele orientado havia séculos. Em nome da ideologia da “civilização” e do “progresso”, agentes municipais e corpo de guarda reprimiam os populares.

A nova cara da capital republicana era enfeitada com os signos da modernidade burguesa. Devia, a partir de então, ser a cidade para o capital financeiro internacional, uma cidade cosmopolita, em vez de uma velha cidade colonial.  O avesso desse “progresso” só podia recair sobre a classe trabalhadora. A ideia higienista de combate às doenças epidêmicas incluía também a “limpeza” humana das ruas, expulsando mendigos, prostitutas, “vagabundos” e pedintes. Além disso, o povo pobre perdeu suas casas e foi afastado do centro para as periferias, dando inicio ao processo de favelização.

Esse projeto autoritário geraria suas contradições e explodiria em algum momento. Na verdade, antes de 1904, já havia uma tradição de motins populares no Rio de Janeiro como forma de resistência ao projeto do grande capital por parte dos “de baixo”. Em 1901, por exemplo, depredaram bondes contra o aumento do preço das tarifas e as péssimas qualidades nos transportes públicos; em 1902, combateram o monopólio dos marchantes sobre o comércio da carne verde. Portanto, como bem assinalou o historiador Nicolau Sevecenko, a Revolta da Vacina foi uma manifestação popular de resistência ao processo autoritário da transformação do Rio de janeiro em capital da República burguesa e cosmopolita. Aquele povo pobre, explorado e oprimido, olhava para a concretização da modernização burguesa como o símbolo do poder opressivo do Estado burguês. Por isso, não podemos concordar que as razões da revolta se restringiam apenas a questão da vacina obrigatória.

O preço da resistência foi cobrado com dose de repressão. O movimento era heterogêneo e desdobrado em duas rebeliões imbrincadas: o motim popular e a rebelião militar. Após o fracasso da tentativa de derrubar o governo do presidente Rodrigues Alves, este, convocou o Exército e a Marinha para reprimir as manifestações. Quando 300 alunos da escola Militar da Praia Vermelha marcharam em direção ao Palácio do Catete para depor o presidente, defrontaram-se com forças fieis ao governo e a tentativa de golpe fracassou. A partir daí, navios se encaminharam com deportados em direção ao Acre. A polícia e os bombeiros já vinham atuando contra as barricadas populares nas ruas cariocas e a cavalaria já avançava contra o povo pobre que resistia ao projeto de modernização burguesa. As forças repressivas estavam para garantir a “ordem social” e a propriedade privada e a ideologia já funcionava procurando inculcar os valores da modernidade como símbolos da “civilização” e do “progresso”, por oposição o modo de vida e a cultura popular, tida como representação do “atraso” e da “incivilizade”.

Estamos a 117 anos de distância da Revolta da Vacina. O contexto é outro completamente diferente. Vivemos uma crise global do sistema capitalista em suas várias dimensões e, por outro lado, o avanço do neofascismo e do neoliberalismo como saída do capital para enfrentar a crise em curso. Muito antes da Covid-19, o desemprego, a precarização do mundo do trabalho, a informalidade, o ajuste fiscal, a retirada de direitos sociais historicamente conquistados pela classe trabalhadora, já vinham contaminando muitas pessoas com o vírus assassino do capitalismo.

No caso do Brasil, além da crise e seu ônus mortífero sobre a classe trabalhadora, tivemos que entrar o ano de 2019 com um governo que flerta com a ideologia neofascista e que alimenta e é alimentado por um movimento de sustentação na sociedade que chamamos de bolsonarismo. Para piorar a situação, o ano de 2020 nos trouxe a Covid-19 que, por baixo, já deve ter matado cerca de quase trezentas mil pessoas.

Nessa conjuntura, o governo brasileiro preferiu o negacionismo. Chamou de “gripezinha”, falou que “não era coveiro”, perguntou “e daí?”, aglomerou, trocou três vezes de ministro para colocar um fantoche militar, brigou com a OMS e os com os epidemiologistas, receitou cloroquina, politizou a vacina e orientou a sua não obrigatoriedade. Ficou claro, para o governo, que a economia capitalista não podia parar e, assim, defendeu o lucro acima da vida. Para os pobres, o governo reservou um mísero valor de auxílio emergencial de trezentos reais, indo a seiscentos após muita pressão dos partidos de esquerda no Congresso Nacional. Mesmo assim, ao apagar das luzes de 2020, com a pandemia em alta, o governo preferiu cortar o auxílio e jogar a maioria da população ao Deus dará.

E chegamos ao ano novo com o mundo todo começando a vacinar as pessoas e o Brasil sem política nacional de vacinação. Foi preciso judicializar o caso no Supremo Tribunal Federal para que o Ministério da Saúde o apresentasse, mesmo assim, sendo entregue sem data para o inicio da vacinação. Depois de muita pressão, agora o governo aparece em rede nacional para afirmar que a vacinação ocorreria no “dia D e na hora H”.

Por meio da pesquisa, da ciência e da universidade pública, temos vacinas desenvolvidas em tempo recorde. Graças aos servidores públicos que muitos o tomam como “parasita”, temos vacina. Graças aos investimentos em instituições como o Instituto Butantã e a Fiocruz, temos vacina. O que falta é um governo que coordene uma política de distribuição dessas vacinas e priorize a vida das pessoas. Um governo que não negue a ciência e que valorize os serviços públicos a exemplo do SUS.

Ao que tudo indica, no Brasil será preciso uma nova Revolta da Vacina, desta feita contra o governo, mas em defesa da sua obrigatoriedade.


terça-feira, 17 de novembro de 2020

“LUGAR DE FALA” E INTELECTUAL BRANCO

 





José Luciano de Queiroz Aires

Me chamo José Luciano de Queiroz Aires, professor de História do Brasil pela UFCG, militante da Resistência/PSOL e do ANDES-SN, tutor do PET História, trabalhador, branco, nascido e vivido por mais de 27 anos no campo, portanto, filho de agricultor/mangaero e professora primária/dona de casa. Nunca fui muito apegado à roça, sofria de asma e meus pais diziam que “eu tinha nascido para estudar”. Frequentei a vida toda o ensino público e gratuito, do primário ao doutorado e meus pais fizeram de tudo para que eu conseguisse fazer um curso superior. Vim para Campina Grande fazer a Escola Normal em 1989 e depois o curso de História em 1994 morando na casa dos outros. Chorava horrores, porque queria mesmo o aconchego do lar familiar que ficava há 130 Km de distância, no sítio Campo Grande. Com muita luta consegui me formar em História, quando, aos 18 anos, já era professor da rede estadual de ensino. Fiz mestrado e doutorado sem bolsa e trabalhando na universidade, fazendo da migalha de professor substituto um verdadeiro milagre que custeasse os estudos e a reprodução da minha força de trabalho. Hoje coordeno projeto de extensão na Comunidade Quilombola do Grilo e faço parceria política com o Movimento Negro de Campina Grande.

Não pretendia escrever um parágrafo tão carregado na primeira pessoa do singular, mas fui provocado por um professor universitário negro a escrever esse texto. Na última semana recebi um convite da Escola Nossa Senhora de Lurdes, da cidade paraibana de Cajazeiras para proferir uma palestra para estudantes do Ensino Médio cujo título era “A CONDIÇÃO NEGRA NO BRASIL ONTEM E HOJE”. Ao postar o card do evento no meu instagran- (a imagem que abre esse texto)-, um professor universitário negro comentou o seguinte: “lugar de fala meu querido, chama alguém negro para falar”. Após essa intervenção, voltei ao livro de Djamila Ribeiro, ao qual já havia lido antes do brilhante texto de Sílvio Almeida escrito para a mesma coleção.

Embora tenha uma série de divergências teórica e política com Ribeiro, às quais não cabem aqui serem apontadas, penso que o livro dela não caminha nessa direção que virou senso comum, a de que apenas pessoas negras possam falar, pesquisar e estudar a questão racial. “Lugar de fala”, segundo ela, não é um conceito para se aplicar a uma análise individual, mas aos grupos historicamente excluídos e marginalizados pelo o lugar que ocupa na sociedade que distribui privilégios para uns e exclusão para outros. Tampouco parece a autora pretender “proibir” que intelectuais de grupos sociais brancos possam falar sobre raça e racismo. Nesse sentido, o professor que exigiu minha retirada da palestra em nome do conceito de “lugar de fala”, ou não leu, ou não compreendeu muito bem o livro da Djamila Ribeiro.

Iniciei o texto numa concepção individual justamente para mostrar o equívoco do professor ao tratar da questão. Mas se fosse o caso de entender o assunto de forma individual, advogaria minha legitimidade na exposição da palestra, pois apesar de ser branco e nunca ter sofrido racismo, sou um professor de História do Brasil que estuda e ministra aulas sobre todos os temas, inclusive raça e racismo e sou intelectual orgânico sensível às causas do povo negro brasileiro e do combate ao racismo. E até o dia em que for bem recebido pelo Movimento Negro e pelas Comunidades Quilombolas, este intelectual branco estará fora de seu gabinete universitário e marchará ombro a ombro com homens e mulheres negras que tanto sofrem discriminação nesse país que pretende transmitir a ideologia da democracia racial como sua identidade nacional.

Agora pretendo transformar o singular em plural, o individuo em grupos e classes sociais. Somos homens e mulheres brancos pobres, a maioria absoluta do povo da região do meu Cariri Paraibano viveu e vive excluída, marginalizada, explorada e oprimida. São agricultores, donas de casas, meeiros, moradores, vaqueiros, sem terra, explorados pelos herdeiros de uma estrutura colonial agroexportadora e escravagista do império da casa grande. Muitos da minha geração sequer conseguiram assinar o nome, outros foram no limite da conclusão do Ensino Médio, pouquíssimos concluíram um curso superior e menos ainda conseguiram se tornarem mestre ou doutor. Tantos e tantos tiveram que migrar para o sul do país em busca de emprego. A maioria de nós, homens e mulheres brancos da classe trabalhadora foi privada de qualquer privilégio na estrutura social pelo seu condicionamento classista. Ou seja, ser branco não significa automaticamente privilégio e poder, pois o lugar que ocupa na estrutura capitalista de produção é de pobreza, desigualdade e exploração social. A historiadora Maria Silvia de Carvalho Franco já percebia isso para o século XIX quando estudou os homens brancos livres pobres na ordem escravocrata. Contudo, quando essa classe trabalhadora tem gênero e raça não branca, o peso estrutural da opressão e exploração é muito maior do que em relação aos trabalhadores brancos, pois se apresentam sobre suas costas o peso de mais duas estruturas além do capitalismo: o patriarcado e o racismo.

Precisamos cada vez mais complexificar as análises e fugir de binarismo e maniqueísmo do tipo HOMEM x MULHER, HETEROSSEXUAL x LGBTQA+, BRANCOS x NEGROS, BURGUESIA x PROLETARIADO. Até porque, na realidade concreta da estrutura social, temos a classe com gênero (burguesia, classe média e proletariado- homens, mulheres e LGBTQIA+); o gênero com classe (homens, mulheres e LGBTQIA+- burgueses, proletários e de classe média); a classe com raça (burguesia, proletariado e classe média- não brancos); a classe com raça e gênero (burguesia, proletariado e classe média branca e não branca, heterossexual e LGBTQIA+, homens e mulheres). Isso implica dizer não existem grupos homogêneos por simples oposição a outros igualmente constituídos como se fossem sujeitos universais em identidades generalizantes. Cada combinação entre classe, raça e gênero permite adentrar a complexidade do tecido social sem cair na superficialidade, na fragmentação e na guetificação. Se por um lado é verdade que a situação estrutural pesa muito mais sobre as mulheres negras da classe trabalhadora, explorando-as e oprimindo-as, por outro lado, também são alçados à condição de subalternos os homens negros da classe trabalhadora e os homens e mulheres brancas da classe trabalhadora. Na hierarquia dos privilégios, contudo, os homens negros pobres estão em posição de exploração de classe e opressão de raça, mas não gênero; já as mulheres brancas trabalhadoras sofrem exploração de classe e opressão de gênero, sem a opressão racial; enquanto os homens brancos trabalhadores sofrem exploração de classe, mas não podem sentir as opressões de gênero e de raça. No geral, esse conjunto complexo constitui um grande grupo subalterno e é composto pela a maioria da população do planeta explorada e oprimida, guardadas as devidas gradações hierarquizadoras.

Sendo assim, sairíamos todos ganhando politicamente se soubéssemos juntar os 99% do planeta em uma pauta revolucionária anticapitalista, antipatriarcado, antirracista, ecossocialista e laica. Até porque, como afirma Silvio Almeida, o racismo é uma estrutura e não se resume a comportamentos individuais ou funcionamentos institucionais, porque indivíduos e instituições reproduzem o racismo que organiza, distribui privilégios e opressões aos grupos com base no critério racial. Na concepção do autor citado, “além de medidas que coíbam o racismo individual e institucionalmente, torna-se imperativo refletir sobre mudanças profundas nas relações sociais, políticas e econômicas”. (ALMEIDA, 2019, p. 50) Temos que transformar as estruturas e isso requer unidade na diversidade, lutas conjuntas sem perder as pautas específicas e movimento de rua, radical e multitudinal.

Evidentemente que as falas negras em uma sociedade racista e herdeira do legado da escravidão são alijadas de posições hegemônicas em exercício como a produção intelectual, justamente pelo condicionamento estrutural/sistêmico, o “lugar de fala”, na terminologia usada Djamila Ribeiro. E vejo com muita alegria que intelectuais negros sejam alçados cada vez mais à condição de escrever grandes livros, fazer grandes pesquisas e falar muito para toda a sociedade. Aliás, já temos bons nomes no Brasil, como Abdias do Nascimento, Solano Trindade, Clovis Moura, Luís Gama, Carolina Maria de Jesus, embora ainda seja um número pequeno, porém, em crescimento. Isso não dispensa a fala de grandes intelectuais brancos de esquerda como Florestan Fernandes e Roger Bastide que produziram obras clássicas sobre a questão de raça/classe para o Brasil Capitalista. Ou de um Alberto Banal, intelectual branco, europeu que coordena um trabalho importantíssimo no processo de titulação das terras quilombolas paraibanas.

Conforme aponta Sílvio Almeida (2019, p. 110), “o racismo não se resume a um problema de representatividade, mas é uma questão de poder real. O fato de uma pessoa negra estar na liderança, não significa que esteja no poder, e muito menos que a população negra esteja no poder”. Primeiro, porque uma pessoa negra “empoderada” pode não significar um representante que verbalize as demandas por igualdade racial em relação ao seu grupo de pertença; segundo, porque, mesmo havendo certo compromisso entre as pessoas negras em espaço de poder para com seu grupo racial, isso não significa que elas terão poder necessário para transformar as estruturas políticas e econômicas que se servem do racismo para promover e reproduzir as desigualdades. Nesse particular, acredito que a teoria marxista e o movimento negro ganham, reciprocamente, se dialogar na perspectiva estrutural e materialista, no plano teórico e político. O primeiro, incorporando com força a questão racial na sua teoria e prática política e o segundo, se abrindo para a leitura racial em chaves do materialismo histórico e dialético e emparedando a luta antirracista com a anticapitalista e a luta de raças marchando nas mesmas ruas com a luta de classes.

 Isso implica que ativistas brancos proletários, não sejam jogados fora da luta antirracista, pois o gueto e a fragmentação servem ao sistema. Desde que brancos ou não brancos, falem, gritem, lutem para derrubar o capitalismo, o patriarcado e o racismo. Eu estou nessa linha. E pretendo continuar falando sobre a questão racial, apesar dos equívocos de quem quer me fazer calar.

 


terça-feira, 13 de outubro de 2020

PATRIARCADO E CAPITALISMO: SOBRE O CASO DE MISOGINIA NA UFCG


 

José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Quem falou que homem não pode se meter no tema do feminismo? Pois bem, sou homem, professor de História da UFCG e pretendo me manifestar sobre a postura misógina do colega do curso de Engenharia Elétrica realizada em paginas de redes sociais. Não creio que haja necessidade de reproduzir aqui o conteúdo por ele apresentado, inclusive por já ter viralizado nas próprias redes e ser do conhecimento da ampla maioria das pessoas.

Antes de mais nada, é preciso ampliar a escala de análise no tempo e no espaço, pois esse não é um caso isolado, nem descolado de uma estrutura macroscópica. O patriarcado precede o capitalismo, mas a situação da maioria das mulheres piorou, consideravelmente, com o surgimento do Modo Capitalista de Produção. Nas sociedades pré-capitalistas a divisão do trabalho se circunscrevia ao âmbito de uma economia doméstica na qual as mulheres possuíam um papel importante juntamente com os homens e a economia girava em torno da casa. O capitalismo separou a economia doméstica da economia de mercado, a casa se distanciou da fábrica e as mulheres trabalhadoras passaram a sofrer a exploração econômica e social no chão fabril, sem se libertarem das funções tidas como “femininas”, da “rainha do lar” e “boa mãe de família”. Nesse sentido, há uma enorme diferença entre as condições de ser homem ou ser mulher na sociedade capitalista, pois à (maioria absoluta) delas coube, até hoje, a função da reprodução social no âmbito do lar, trabalho esse, desqualificado e não remunerado. Mais importante para o mundo da produção e circulação de mercadorias.

Junto a essa base material da estrutura capitalista, de suas relações sociais e da sua divisão do trabalho, a burguesia do século XIX encravou um processo ideológico que definia subjetivamente uma concepção de família patriarcal e heterossexual. Ancorada e justificada na ciência moderna, o homem foi classificado como um “ser racional”, “viril” e “forte”, portanto, “naturalmente” determinado para a vida pública, para o mundo lá fora; por outro lado, a mulher foi classificada como um “ser emotivo”, “sexo frágil”, portanto, “por sua essência e natureza” determinada à vida privada. Ser mãe, esposa e dona de casa eram as atribuições que “combinariam” com o gênero feminino. Não custa lembrar que essa ideologia se transforma em força material quando essas representações são essencializadas, naturalizadas e postas em prática. A função da ideologia em Marx é justamente essa.

Por essas é que entendemos o quão estrutural é a questão. O caso do professor misógino da Engenharia Elétrica da UFCG reproduz essa ideologia da família burguesa vitoriana do século XIX. Em geral os próprios cursos de engenharia nas universidades, além de outros, revelam um racismo e um machismo institucionais quando me parece haver uma exclusão de homens negros e de mulheres nos seus corpos docentes. E não me venham aqui falar em meritocracia!

As instituições também não são ilhas incomunicáveis com a terra. Na verdade, elas reproduzem no seu interior as estruturas societárias mais amplas, a exemplo do capitalismo, do patriarcado e do racismo. E pouco fazem para combater essas vigas poderosas que teimam em continuar apesar das lutas sociais e de algumas conquistas de direitos por elas trazidos.

O que nos espanta é um professor universitário botar seu corpo no século XXI e sua cabeça no XIX e achar que os homens trabalhadores executam as mais “nobres” e “pesadas profissões”, enquanto as mulheres trabalhadoras “reclamam da vida” por ter que lavar a louça, trocar a fralda do bebê e fazer o almoço todos os dias. Quando sabemos que muitas mulheres trabalhadoras, durante os mais de três séculos de capitalismo, são exploradas pelos patrões, fazem as máquinas gerar riqueza para eles e ainda não se libertaram da opressão patriarcal, da tripla jornada e da violência doméstica. A propósito, é por achar que o corpo da mulher é propriedade privada do homem, por não aceitar uma traição ou o fim de uma relação que muitos casos de feminicídio se arrastam em estatísticas alarmantes e ainda omissas, apesar da lei Maria da Penha.

Se essas mulheres trabalhadoras forem racializadas, a exploração econômica e o machismo serão reforçados pelo peso do racismo estrutural. Hoje podemos ver muitas delas trabalhando nas funções mais precarizadas do mundo do trabalho, ainda tratadas como escravas, recebendo salários menores do que os dos homens. Essa divisão é propositiva do capitalismo, dividir a maioria das classes e grupos subalternos.

O que fazer? Do meu ponto de vista, continuar combatendo em três frentes, mas no mesmo campo de luta. A emancipação das mulheres, também deve caminhar nas mesmas ruas antirracistas e anticapitalistas, pois, embora devamos fazer notas de repúdios, abrir processos em comissão de ética, lutar por uma lei no parlamento, etc, creio que são paliativos e que, embora importantes, não resolverão o problema que, como formulado por Ângela Davis, é de gênero, raça e classe.  Talvez, uma tarefa número zero fosse derrotar o bolsonarismo, movimento que possibilitou os neofascistas saírem do armário e acreditar que tudo podem dizer e fazer. Mesmo que esse tudo saia da mão de um docente universitário que deve se orgulhar de seus projetos no ramo da engenharia mas resiste em lavar sua própria cueca.

 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

THAMMY MIRANDA, A NATURA E A ESQUERDA





Prof. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Temos acompanhado pelas redes sociais a polêmica em torno da escolha da Empresa Natura pela imagem do homem trans, Thammy Miranda, para a campanha publicitária do Dia dos Pais. O que as forças de esquerda poderiam e deveriam dizer sobre a temática?

Em primeiro lugar, um intelectual marxista fiel aos ensinamentos dos pais do materialismo histórico e do feminismo socialista russo da primeira onda, tem por dever político e teórico, articular luta de classes com luta de gênero e outras lutas, pois a emancipação dos 99% da humanidade deverá ser realizada com a complexidade da análise teórica e a unificação das classes e grupos subalternos na mesma frente de combate. Temos que lutar contra o capitalismo, mas também contra o racismo, o patriarcado e a lgbtfobia. Portanto, os partidos políticos e movimentos sociais e populares mistos, devem sair na defesa de Thammy Miranda, pois isso significa o combate à transfobia.

Por outro lado, não me parece adequado à esquerda sair na defesa da Empresa Natura, pois o nosso engajamento deve ser com os trabalhadores e trabalhadoras desta e de todas as empresas capitalistas. Cabe ressaltar que os empresários vivem de extração de mais valor e superexploração da força de trabalho, muita dela, realizada por mulheres, por negros e negras, por imigrantes e refugiados. Trabalho sem direitos substantivos, já que as contrarreformas trabalhista e da previdência se encarregaram de aprofundar o trabalho intermitente, sem a garantia da aposentadoria futura e da proteção jurídica de uma legislação do trabalho no presente.

Hoje mesmo eu li postagens no facebook nas quais as pessoas, na melhor das intenções, digo isso porque saíram em defesa dos e das pessoas trans, defenderem o não boicote ou o “não cancelamento” à Natura. Alguns até fizeram campanha incentivando o consumo de seus produtos no dia dos pais. Embora tenha entendido perfeitamente as justificativas das pessoas que saíram em defesa de Thammy, creio que defender a empresa capitalista que explora homens e mulheres, não é nossa tarefa. Até porque, não há nenhum engajamento político das empresas e dos empresários na pauta das opressões se não fosse o lucro obtido em um mercado segmentado que tem mercadoria para oferecer às mais diversas identidades sociais. Nesse caso, LGBT são tratadas, ideologicamente, no capitalismo, como meras consumidoras. Na outra ponta, dificilmente pessoas trans, lésbicas ou gays assumidos, serão contratados no mercado quando tiver que concorrer com homens e mulheres heterossexuais na hora da entrevista.

Outra crítica que algumas pessoas fizeram a Thammy Miranda foi realizada no sentido de ele ter, supostamente, votado em Bolsonaro. Nesse ponto, acredito que a melhor saída não seria atacá-lo com discursos transfóbicos, mas problematizarmos as razões que levaram massas de explorados e oprimidos a optarem por um projeto político que é a sua própria destruição. A esquerda, nesse momento de crise profunda no planeta, deverá ter a sabedoria de trabalhar no sentido de reverter esse quadro no qual massas populares aderiram à extrema direita.
Como historiador socialista e marxista, deixo aqui meu repúdio a toda forma de preconceito. Thammy Miranda é mais do que um indivíduo, é a personificação das pessoas trans que derramam sangue nas ruas do Brasil. A essas, nós de esquerda temos que ficar juntos, sobretudo, nos tempos neofascistas que vivemos. Meu repúdio igualmente ao sistema capitalista, materializado, nesse caso, na Empresa Natura, exploradora do Dia dos Pais, data hegemonicamente patriarcal e heterossexual, agora também alargada para outras tipologias de famílias, como forma de “inclusão” pelo consumo e não pela emancipação política. Não será defendendo esse tipo de inclusão mercadológica e publicitária que iremos acabar com o machismo, o racismo e a lgbtfobia no Brasil e no mundo. O capitalismo devora gente, tritura trabalho e vomita mercadoria alienada a ser consumida. O cheiro desse tipo de perfume fede bastante em muitos corpos.

sábado, 25 de julho de 2020

AS DORES DA EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA


José Luciano de Queiroz Aires
Historiador UFCG

Um semestre já se foi de tanto trabalho docente à distância. Seminários, lives, reuniões administrativas, orientações, escrita de artigos e muita leitura. Talvez essa tenha sido, até aqui, a realidade de todos nós professores. Ou seja: muito trabalho. Mas confesso que já não aguento tantas dores. A começar pela da alma, aquela que nos angustia, que nos deprime, que nos isola, que nos estressa; as dores da solidão, dores que mediação técnica nenhuma pode curar, pois necessitamos do calor afetuoso da presença das pessoas. Somos o animal social.
A tela do computador, com aquela fotografia de ícones da distância ao final de nossas atividades, me causa dores profundas, pois lembro com saudade daquelas pessoas da convivência coletiva presencial do nosso cotidiano universitário. O máximo que consigo para suprir a saudade é ter que se contentar com uma imagem e a voz que me chegam por meio da reprodutibilidade técnica. Mas como assinalava Walter Benjamin, para a arte e a cultura de um modo geral, a técnica tem o poder de retirar a aura dos bens culturais em favor da cópia massificadora dos mesmos. Fazendo com ele uma analogia, se a aura se esvai quando da substituição da presença das pessoas nos espetáculos teatrais e a técnica permite que os artistas cheguem as nossas casas por meio do rádio e do cinema, algo semelhante acontece com a nossa educação quando muitos intelectuais relativizam a defesa do encontro aurático na universidade em favor das possibilidades técnicas do home office.
Antes que o leitor me acuse de “dinossaurico”, gostaria de dizer que não sou contra o uso das tecnologias para fins educativos e políticos, desde que não esqueçamos duas condições fundamentais: que elas não podem substituir a realização presencial de assembleias, aulas, eventos acadêmicos, sindicais, partidários, etc; assim como também não podemos esquecer que a técnica não é neutra, mas política e ideológica. No caso atual, de tempos de crise total, as plataformas digitais aparecem para muitos como a saída para o desemprego. Contudo, como demonstrado nas pesquisas dos sociólogos Ricardo Antunes e Ruy Braga, a uberização do mundo do trabalhado tem se intensificado pelo grande capital a fim de extrair mais valor de uma fração cada dia mais precarizada do proletariado mundial. E nós docentes não estamos livres dessa sanha burguesa, pois em muitas universidades e faculdades pelo mundo a fora já impera a figura do “professor horista”, aquele que ganha por seu trabalho intermitente e sem quaisquer garantias de direitos trabalhistas. Minha dor nesse momento é aumentada porque acredito que essa realidade travestida de modernização no mundo do trabalho, nem começou, nem parece terminar com o corona vírus. Pelo contrário, os burgueses estão cada vez mais de olho na possibilidade de fazer da educação à distância uma realidade generalizada e lucrativa. O pior é que muitos professores e estudantes universitários, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, sancionam essa situação sem maiores resistências. Privatizados na sua consciência, olham para si como uma fração de classe média, procuram saídas individuais e se afastam de projetos coletivos, inclusive se retirando dos sindicatos e se afastando das assembleias da categoria. Esquecem apenas que, se a universidade pública, gratuita, presencial e de qualidade desparecer, eles também sucumbirão nos escombros com todo resto de tecnologia que ainda tiver debaixo do braço. 
Além das dores da alma, o semestre de 2020 tem causado muitas dores físicas a todos nós. Isolados em casa também deixamos de praticar alguma atividade física e ficamos mais sedentários do que nunca, o que implica em acometimento de doenças. Porém, com a mesa de trabalho repleta de atividades para cumprir. Recentemente participei de um seminário com carga horária de 20 horas, para o qual tinha que dedicar mais que o dobro para preparar a exposição. Sentado à frente de um computador, 4 horas todas as tardes, durante uma semana. Assim como os outros dois companheiros docentes com os quais dividi a atividades, terminamos muito cansados, exaustos, na verdade. Dores musculares, dores na coluna, fadiga, cansaço pela repetição dessa modalidade super desgastante que é fazer o papel de tutor da EAD. Adoecimento, na verdade, é o que nos causa o já sistema produtivista implantado nas universidades, sobretudo, nos programas de pós-graduação. Multiplique esse adoecimento docente, físico e psíquico, nesses tempos de pandemia. Problemas familiares com covid; no caso das mulheres, jornada tripla de trabalho em função de também desempenharem o trabalho remoto enquanto mãe, mais uma vez sentada à frente de uma tela para acompanhar seus filhos; pressão da burocracia universitária pela volta do semestre de forma à distância; um governo neoliberal e neofascista ameaçando os direitos que ainda restam; o recurso financeiro que temos que retirar do nosso salário para adquirir equipamentos que as universidades não oferecem. 
Tomara que escapemos desse imperativo do reinado do burocratismo doentio e que juntos possamos tomar a vacina produzida pela ciência e pela universidade pública para ficarmos imunizados aos vírus, incluindo nesses o vírus capitalista do trabalho uberizado e o vírus político encarnado naqueles que representam os interesses desse modo de produção. 
Estou ansioso para encontrar as pessoas na universidade, conversar, abraçar, beijar, debater, fazer política e produzir conhecimento histórico com qualidade pedagógica. A presença sempre gratificante e acalentadora das pessoas. Isso faz bem à saúde. 

quinta-feira, 25 de junho de 2020

EM TEMPOS DE PANDEMIA, MESTRADO AMEAÇADO DE FECHAR EM CAMPINA GRANDE!?

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires

Escrevo esse texto para que fique como documento para a posteridade. Nele, quero expressar uma posição política em relação à ameaça de fechamento do Mestrado em História da Universidade Federal de Campina Grande. Como membro permanente do referido programa de pós-graduação não me omitirei em tomar partido em uma conjuntura de crise societária/sanitária tão brutal como a que vivemos.
Nosso Mestrado foi criado em 2006 e já passou por várias avaliações na toda poderosa CAPES sem, contudo, ter conseguido sair do conceito 3 (três). Eu não fui da fundação, pois cheguei ao corpo docente da UFCG apenas em 2010 e, mesmo vinculado à Unidade de Educação do Campo/CDSA/UFCG, entrei para o quadro do PPGH como colaborador e depois membro permanente. Entre 2014/15, passei a fazer parte da Unidade Acadêmica de História por meio de redistribuição.
Durante esse tempo em que atuo no PPGH/UFCG não é a primeira vez que ouço falar que nosso mestrado pode fechar e que nós é que temos que impedir essa tragédia. A burocracia em vez de contestar o modelo draconiano e quantitativista da CAPES dos tempos da ditadura, opta por quase crucificar a nós docentes, colocando sobre nossas costas o peso da responsabilidade e o ônus da culpa caso não consigamos atingir uma nota 4 (quatro). Isso em termos ditos normais já é uma aberração e uma injustiça, pois vivemos com dedicação exclusiva fazendo atividades de ensino, pesquisa e extensão na graduação, especialização e mestrado. Sempre tivemos um bom número de orientandos, coordenamos grupos de pesquisa vinculados ao CNPC, publicamos com nosso próprio dinheiro livros e capítulos de livros, participamos de uma imensa quantidade de bancas examinadoras, fazemos pareceres para revistas científicas, coordenamos PIBIC, PIBID, PET, PROEXT, PROBEX, etc. Dizer, então, que a “culpa” do possível fechamento do mestrado é do corpo docente “improdutivo”, é desconsiderar essas inúmeras atividades nas quais estamos mergulhados o tempo todo.
Recentemente foi enviada a tal Plataforma Sucupira do PPGH/UFCG para ser avaliada pelos devoradores de números, apreciadores de qualis e defensores de Lattes. Entretanto, pela informação da atual coordenação do PPGH/UFCG relatada em reunião da Unidade Acadêmica, há uma ameaça de fechamento do nosso mestrado caso não “retornemos” às atividades de modo remoto. Segundo informa a coordenação, pelas conversas com vários coordenadores de PPGH pelo Brasil inteiro, a coordenação da área de História na CAPES e a PRPG, os mestrados que já tiraram três notas 3 não podem obter a mesma nota, pois seriam fechados. Quanto a isso, já sabemos, embora não seja culpa nossa. Contudo, informa a nossa coordenação que também seremos avaliados para além da Plataforma Sucupira já enviada e o retorno remoto das atividades é condição relevante e quase decisiva para que o programa não seja fechado.
Nesse caso, considero um agravante em relação à pressão que já se faz em tempos ditos “normais”, uma vez que agora se trata de uma chantagem burocrática em tempos difíceis de uma pandemia mundial. Mesmo assim, de acordo com um questionário aplicado pela coordenação de graduação em História da UFCG, a maioria absoluta dos docentes se encontra trabalhando remotamente em diversas atividades o que depõe contra qualquer tentativa de afirmações de que os docentes não estão produzindo conhecimento histórico. Cabe à coordenação do PPGH e a PRPG tornar ciente e fazerem relatórios para a toda poderosa CAPES afirmando que estamos trabalhando, mesmo que de forma precária. Cabe também a eles cobrarem bolsas de mestrado para a turma de 2020 que está sendo pressionada a cursar disciplinas por meios virtuais, mas sem as condições financeiras de arcarem com custos para o desempenho do curso.
A rigor, não sou contra fazermos uma seleção para o ano de 2021 na modalidade virtual, desta feita, sem a necessidade da prova escrita como primeira etapa do processo seletivo. Também sou favorável à realização de defesas de qualificações e do trabalho final de Dissertação, desde que com anuência do mestrando e parecer do orientador. No entanto, sou contrário ao retorno remoto das disciplinas para os mestrandos de 2020, posição igualmente defendida para o curso de graduação.
É verdade que hoje a conjuntura política com um governo ultraneoliberal e neofascista é mais dura para o enfrentamento junto à CAPES e ao MEC. Mas não custa lembrar que durante os “tempos de ouro” dos governos de conciliação de classes pouco se fez para alterar a forma de avaliação da CAPES contando, inclusive, com a conivência, omissão ou pouca disposição por parte de nossos pares na área de História que acompanham a universalização das regras de avaliação sem levar em consideração as diversidades regionais e as condições para publicações que se concentram nas grandes editoras situadas, sobretudo, no sul-sudeste. Chegamos até aqui com as hierarquias funcionando e cada um fazendo seu serviço para satisfazer a CAPES, essa deusa toda poderosa, inquestionável e dogmática. O pior: muitos professores e estudantes viveram e vivem sendo seus devotos.
Para finalizar, gostaria de dizer que tenho publicado capítulos de livros e organizado livros, coordenado o PET por quatro anos, orientado e ministrado aula a semana inteira e ainda tiro o tempo para a militância política. Para quem gosta, basta conferir o tal do meu curriculum lattes. Sendo assim, a depender de mim e de muitos colegas que trabalham bastante, o Mestrado em História jamais será fechado e a ele desejo muitos anos de vida. O que não aceito é chantagem e culpabilização pelo seu possível fechamento, tenho a consciência tranquila do dever cumprido. Acho que o alvo do ataque deve ser à burocracia que chancela as regras do produtivismo e não os professores e estudantes doentes e cansados de trabalhar.
 Espero mesmo que não fechem nosso mestrado, principalmente em um tempo em que se está abrindo e fechando covas para empurrar gente chão à dentro.