quinta-feira, 15 de setembro de 2016

GURJÃO: DOS PRIMÓRDIOS À CIDADE

Eliete de Queiroz Gurjão (Professora Aposentada- UFPB e UEPB)

1 TERRAS DOS CARIRIS OCUPADAS POR FAZENDAS DE GADO
           
            O município de Gurjão situa-se no Estado da Paraíba, na microrregião do Cariri Oriental que se insere na mesorregião da Borborema.
            A denominação cariri tem sua origem nos nativos desta área. Os portugueses, inicialmente, denominavam de tapuias todos os primitivos habitantes do interior. Os tapuias ocupavam esta imensa área e segundo  estudos mais recentes estavam divididos em duas nações: cariris e tarairiús. A primeira, a nação cariri, habitava a microrregião que leva seu nome, enquanto os tarairiús ocupavam outras áreas do interior. Viviam ambas em perfeita integração com a natureza e de acordo com seu estágio cultural (paleolítico superior) até o século XVII, quando os sertanistas iniciaram a invasão de suas terras e sua captura, submetendo-os à escravidão ou à catequese, com o auxílio das ordens religiosas.
            O impulso para a conquista e ocupação das terras do interior do Nordeste foi gerado pela  expansão do mercado açucareiro. Em meados do século XVII a economia açucareira atingiu seu apogeu; havia necessidade crescente de ampliar a produção para atender a demanda do comércio.  Neste sentido, as melhores terras do litoral precisavam serem exclusivas para o cultivo da cana e de sua lavoura de subsistência, não havendo mais espaço para a expansão da pecuária. Daí porque, o rei de Portugal decretou a proibição de criar gado até vinte léguas do litoral. Ao mesmo tempo, estimulou a doação de sesmarias (lotes de terra) no interior com a finalidade de estabelecer fazendas de gado. No início , as sesmarias eram doadas àqueles que haviam combatido e expulsado os nativos, "limpando o terreno" , conforme se expressavam nessa época. Em consequência, ocorreram as entradas, expedições organizadas para conquista das terras dos nativos e sua submissão ou escravização, inclusive com base no princípio da guerra justa, ou seja, índio que resistisse era justo ser escravizado. Os índios que se rendiam eram reunidos e catequisados nas aldeias, ou missões, associando, assim, o empenho dos religiosos ao dos colonizadores.
            A partir da segunda metade do século XVII, seguindo o curso do rio São Francisco e de seus afluentes, foi iniciada a conquista e ocupação das terras do interior do Nordeste por sertanistas provenientes da Bahia e do litoral de Pernambuco. Submetidos os nativos e instaladas as missões, seguiam-se requerimentos para concessões de terras para criação de gado. As fazendas de gado foram, por conseguinte, os embriões do povoamento de todo o interior, centralizando as atividades produtivas e gestando uma economia fundamentalmente rural. Seus aglomerados populacionais constituíam prolongamento do campo, tendo como atividade principal a feira de gado e mantimentos. Os centros politico-administrativos eram as vilas que funcionavam como sedes de município, comarca e diocese.
             Em 1669 foi doada uma sesmaria no Cariri para instalação de fazenda de gado que originou a  Vila Real de São João, cujo crescimento deu-lhe posição de destaque entre os centros urbanos do interior. Seu território compreendia vários distritos, entre os quais Timbaúba.

2  DE TIMBAÚBA À GURJÃO

           
            Segundo Irinêo Joffily, (s/d ) o território de São João do Cariri era habitado pela tribo sucurú, pertencente à nação cariri. Considerando que Timbaúba  ocupava a mesma região, deduz-se que os sucurús também ocupavam seu território.
            No contexto da primeira metade do século XVIII, em 1733, ocorreu a doação da sesmaria  e instalação da fazenda de gado que constituiu o núcleo original de Timbaúba. Posteriormente, outras fazendas de gado foram criadas e nelas funcionavam os "arranchos" conforme depoimento do Sr. Abdias Olinto, antigo morador que presenciou os últimos anos do século XIX.
            O Sr. Abdias descreveu os "arranchos" como currais, cujo objetivo era o aluguel para o abrigo dos rebanhos conduzidos pelos boiadeiros para as feiras de gado de Campina Grande e Pocinhos. Os boiadeiros muitas vezes viajavam durante seis meses, provenientes do sertão paraibano e até do Piauí. No "comércio" (mercado) alojavam-se os "tangerinos", responsáveis por "tanger", ou seja, direcionar o rebanho durante a caminhada. Os "arrieiros" chegavam antes, conduzindo grandes tachos e ingredientes afim de preparar as refeições dos boiadeiros. O informante acrescentou, ainda, que era comum a utilização de liteiras puxadas por animais para transportar os homens que adoeciam durante a caminhada.
            A produção da pecuária local destinava-se apenas ao consumo interno, assim como a agricultura de subsistência que era limitada pelas constantes estiagens. No século XIX o algodão, sobretudoo arbóreo, já despontava, adaptando-se ao clima e resistindo às secas muito contribuiu para o desenvolvimento posterior do município. Em 1914, transportado no lombo de animais, o algodão produzido em Timbaúba já era vendido para o mercado de Campina Grande,.
            A mão de obra escrava muito utilizada no litoral, também o foi  no cariri. Próximo à abolição o município de São João, incluindo Timbaúba, destacava-se entre os maiores escravocratas, conforme comprova Celso Mariz (1939, p. 37)  " Em 1885 tínhamos (o Estado) ainda 9.207 escravos homens e 10.571 mulheres. Possuíam escravos em maior número os municípios de São João do Cariri, Capital, Mamanguape, Itabaiana [...] "
            Na segunda metade do século XIX a Paraíba foi vítima de duas epidemias de Cólera, a primeira em 1856 e a segunda em 1862. Segundo José Leal (1965, p. 264 ) a primeira teve início em São João:
                                  
A invasão da província pelo Cólera-Morbus verificou-se através da fronteira de Pernambuco, manifestando-se a princípio em São João do Cariri e em Taquara [...] Nessa primeira investida do Cólera- Morbus morreram 25.390 pessoas, sendo esta a contribuição de várias áreas: Cariri 1703; Capital e zona litorânea 5.741[...] "

            A segunda epidemia marcou definitivamente a história de Timbaúba. Seus habitantes, apavorados com o avanço da epidemia e sem contar com assistência médica recorriam à providência Divina e aos santos. São Sebastião, por ser conhecido como defensor contra a peste, fome e guerra, foi o mais invocado, inclusive através de promessas.
            Nove anos após esta epidemia, em 1871, um grupo de proprietários de terras de Timbaúba, entre os quais o coronel Antônio José Gurjão, fez a doação do patrimônio para a construção de uma capela em homenagem a São Sebastião, conforme declara em documento lavrado em cartório: " Escritura de doação para patrimônio da Capela do Senhor São Sebastião que se tem de erigir em Timbaúba deste Termo [...] " (folha 1 da Escritura de Doação, 1871).
            Foi construída a capela de São Sebastião, santo eleito padroeiro do povoado. Até hoje ele permanece padroeiro e a tradição é mantida, inclusive, com ritual e comemoração, através de procissão e festa anual em homenagem ao santo, em 20 de janeiro.
            Em 1890 apesar de já se constituir como povoado, Timbaúba ainda era um povoado muito pequeno e mal aparelhado, conforme o descreve um antigo habitante local, Raulino Maracajá,  em cujo  Diário (1958, p. 43) afirma:

                           Timbaúba do Gurjão
                                Antigamente era uma fazenda.
                                Era assim conhecida por ter residido ali o cel. Antonio José de Farias                                       Gurjão, grande fazendeiro e proprietário...
                        No ano de 1890 mais ou menos, foi quando vim a conhecer                                                             Timbaúba, já era povoação.
                               Existia umas 10 a 12 casas, uma casa velha de tijolo em preto sem                                           ladrilho a qual servia de comércio ou mercado.
                                A capela muito grande e mal edificada.
                                Uma bodega mal sortida, talvez as mercadorias não chegassem a                                             importância de 300 mil reis[...]

            A primeira rua do povoado situou-se em frente à capela. Atualmente é uma das principais artérias da cidade e recebe a denominação de Luis Queiroz, antigo mestre do município. Somente em 1921 o povoado foi elevada à condição de distrito, conservando o nome de Timbaúba e subordinado ao município de São João do Cariri. Em 1924 foi implantado o cartório, submetido à comarca de São João.
            Em 1943 recebeu a denominação de Gurjão. Sua elevação à categoria de município só ocorreu em 02 de janeiro de 1962 ( Dec. no. 2.447), incorporando o distrito de Santo André.
             A deficiência dos meios de transporte e comunicação muito contribuiu  para retardar o desenvolvimento de Gurjão. Até mesmo quando ferrovias já ligavam várias cidades paraibanas no início do século XX e mais adiante, quando o sistema rodoviário já ligava o interior ao litoral do Estado, Gurjão permaneceu isolado.
            Situado na área mais seca da Paraíba, o município de Gurjão, no decorrer de sua história, vem enfrentando muitos períodos de estiagens. Além disto, a agricultura local é prejudicada pelas condições de um solo muito pedregoso  e alta salinidade.
            O problema das secas, a falta de assistência governamental, o isolamento resultante da carência de meios de transportes e comunicações, em conjunto, constituíram motivos para o ritmo lento do desenvolvimento local. Acrescente-se a tudo isto a emigração de grande parte de sua mão de obra, atraída pelas melhores condições de trabalho no Rio de Janeiro e São Paulo. Tratou-se do êxodo Nordeste-Sudeste, acentuado  durante a segunda metade do século passado e aprofundado a partir dos anos sessenta com a construção de Brasília e a consequente expansão da fronteira para o Centro-Oeste.
            Enfim, Gurjão sobreviveu em meio às dificuldades seculares acima apontadas e no século atual caminha de forma mais acelerada, o que vem repercutindo favoravelmente no desenvolvimento urbano da sede do município.
                                               
REFERÊNCIAS

Bibliográficas

ALMEIDA, Horácio de. História da Paraíba. João Pessoa: Ed. Universitária, UFPB,1978.
GURJÃO, Eliete de Queiroz. (org). Estudando a história da Paraíba. Campina Grande:: Ed.Cultura Nordestina, 1999.
HERCKMANS, Elias. Descrição geral da capitania da Paraíba. João Pessoa:
A UNIÃO Ed., 1982.

JOFFILY, Irinêo. Notas sobre a Paraíba. Brasília:  Ed. Thesaurus, s/d.

LEAL, José. Itinerário da história. João Pessoa: 1965.

TAVARES, João de Lyra. Apontamentos para a história territorial da
Parahyba. Mossoro: Coleção Mossoroense, 1982.

MARIZ, Celso. Evolução econômica da Paraíba. João Pessoa: A União
Editora, 1939.

 Documentais

Escritura de doação para patrimônio da capela do Senhor São Sebastião. Comarca de São João, 1871. Arquivo do Cartório de São João do Cariri.

MARACAJÁ, Raulino. "O Meu Diário", Gurjão: 1958.

sábado, 7 de maio de 2016

AREIA: POR UMA MEMÓRIA E PATRIMÔNIO A CONTRAPELO



Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Areia. Cidade patrimônio histórico nacional tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), no ano de 2006. Terra do romancista e político, José Américo de Almeida e dos pintores Aurélio de Figueiredo e de seu irmão, Pedro Américo. Cidade rota turística dos “Caminhos do Frio”, da Cachaça Triunfo, do famoso Teatro Minerva (1859) e da, igualmente, famosa, Escola de Agronomia (1936).
São esses os mais expressivos símbolos da identidade local areiense, pois são eles os referenciais simbólicos que a identifica para muitos. Porém, conforme nos mostra Stuart Hall, as identidades são construções históricas, múltiplas, móveis e contraditórias. Em sendo assim, as identidades locais também são inventadas no tempo e pela ação, seletiva, dos homens e mulheres. Nesse processo histórico, as identidades são modeladas a partir do que o historiador Eric Hobsbawm denomina de tradição inventada, um conceito que permite a desnaturalização e a concepção a-histórica do conceito de tradição.
Amparado nessa fundamentação teórica, podemos dizer que a memória e o patrimônio selecionados para serem lembrados como parte da tradição e da identidade local da cidade de Areia, é bastante seletivo, porque feito pelas e para as elites dirigentes canavieiras que, juntamente ao controle do poder político e econômico também não abrem mão do poder simbólico dos lugares de memórias de feição oficialesca.
Por outro lado, se há uma memória oficial das classes dominantes, realçada na pedra e cal do tombamento do IPHAN, outras narrativas e tantos outros narradores foram jogados para o mundo subterrâneo da memória, para os porões do silêncio e do esquecimento dos quais nos fala o filósofo Paul Ricoeur. Como encontrar outros símbolos para rememorar o município de Areia? Procurando, não no tombamento do IPHAN, mas no tombamento da vida para a morte, nos excluídos da História e nos esquecidos nas covas anônimas e na poeira escaldante dos cemitérios. Quantos índios e negros escravizados foram utilizados para construir esse patrimônio elitista, cristocêntico, branco e europeizante? Quantos trabalhadores e trabalhadoras de engenhos e usinas suaram o corpo e arderam nas chagas do chicote e do tronco para fazer com lágrimas salgadas as doçuras que saem da cana de açúcar para os bolsos dos senhores e usineiros? Quantos braços não foram engolidos pela prensa que também devora energia de gente na mesma proporção com que faz moer a cana? Quem construiu o Teatro, a Igreja, o casario colonial, a casa grande? Certamente, não foram as elites agrárias, mas a “corveia anônima de oprimidos” da qual nos fala Walter Benjamin.
O conceito de História e de cultura em Benjamim nos ensina a escovar o tempo a contrapelo, indo no sentido contrário a temporalidade linear do “progresso” e buscando nos escombros do passado as vítimas e seus projetos impedidos e derrotados. A cultura é definida por ele a partir do horror e não da monumentalidade, pois “nunca houve um monumento da cultura que também não fosse um monumento da barbárie”. (BENJAMIN, 1994, p. 225). Os bens culturais sobre os quais posamos para tirar fotografia ou que são vendidos pela indústria do turismo geralmente estão manchados de sangue e de suor, pois foram erguidos pelo braço indígena ou do africano escravizado que, além de plantarem, cortarem e moerem cana, também ergueram igrejas, sobrados, teatros, engenhos, e que sequer são lembrados por esse trabalho, como se fossem desprovidos de saber.
Areia é parte do Nordeste açucareiro escravocrata dos tempos da colônia e do Império. Areia também se insere no processo de modernização da economia açucareira a partir da implantação de usinas na primeira metade do século XX. Usinas das gigantes chaminés, do saber técnico-científico, das esteiras para puxar a cana, das moendas novas e dos mecânicos, das modernas balanças e da relação com sistema de crédito, são as mesmas usinas da fome de terra, do retirante, do pagamento em vale e do barracão, do fim do roçado e da poluição do rio. O “progresso” tem um outro lado que expressa a exploração, a desigualdade social e a concentração de renda. O “progresso” tem uma conotação de classe social e se confunde com o avanço do Capitalismo cujo modo de produção objetiva o lucro a qualquer custo, sobretudo, retirando da força de trabalho a acumulação do capital. E no caso da modernização da economia açucareira do inicio do século XX, cabe ainda ressaltar que ela sequer fora acompanhada das modernas relações sociais de produção, pois não foi a mão de obra assalariada que se configurou, mas o pagamento em vales a serem trocados no barracão, o cambão, o arrendamento, o foro, relações sociais questionadas nos anos 1950 pelas Ligas Camponesas.
As usinas engoliram engenhos, terra e gente. E muitos trabalhadores e trabalhadoras do passado foram triturados por elas, moídos como cana, sem poder fazer muita coisa. Nós do presente, podemos pagar essa dívida ética com as gerações que nos antecederam no tempo acertando as contas com o atual agronegócio, pois como nos ensina Benjamin, apenas a geração atual pode redimir os sonhos e projetos derrotados do passado no presente-futuro.



segunda-feira, 28 de março de 2016

CONTRA O GOLPE E POR UMA DEMOCRACIA COM INCLUSÃO SOCIAL

Gostaria de iniciar demarcando meu lugar ideológico. Sou um historiador marxista e, portanto, crítico mordaz do capitalismo, ao mesmo tempo em que defendo projetos alternativos ao exclusivismo do Deus do mercado. Digo isso, para reafirmar minhas críticas ao atual governo federal e aos demais governos estaduais e municipais que vêm fazendo ajuste fiscal sobre os ombros da classe trabalhadora: com retirada de direitos, repressão e criminalização dos movimentos sociais, a exemplo da Lei antiterrorista sancionada por Dilma em plena crise política e, paradoxalmente, no momento em que o governo mais precisa dos movimentos sociais. E tudo isso para salvar a fatia de mais de 46 % do orçamento da União para pagar juros da dívida pública e alimentar a ganância concentracionista dos grandes banqueiros. E continuarei fazendo críticas propondo sempre uma saída à esquerda.
Entretanto, um dos horizontes concreto de possibilidade história na curta duração, pode ser uma saída ainda mais à direita, talvez e, lastimavelmente, conduzida por uma direita fascista já operante cotidianamente nas ruas e nos tribunais. Daí por que se faz necessário uma reflexão sobre esse momento a fim de que saibamos agarrar a oportunidade no instante do seu relampejar, para usar uma metáfora do grande Walter Benjamin.
Não precisamos ir muito longe para concluir que existe uma tentativa de golpe em marcha no Brasil. Sua operacionalização é conduzida por um bloco histórico formado pelas classes dominantes brasileiras e pelo o capital multinacional, apoiados na grande mídia e no aparato judiciário e representados por políticos conservadores e neoliberais. Para mim, não se pode pensar a tentativa de golpe apenas de forma endógena, pois a raiz está no histórico imperialismo estadunidense. O roteiro é, mais ou menos, o seguinte: o governo Dilma rompeu com a ALCA e fortaleceu uma política internacional e econômica com a América Latina. Integrou o Brasil ao BRICS sugerindo uma alternativa monetário/financeira em relação à política do FMI e do Banco Mundial que vigora desde o apagar das chamas derradeiras da Segunda Guerra Mundial; adesão essa que fez sair da boca de um Agente Britânico de Inteligência o seguinte comentário recente (19 de março de 2016): "o Brasil é o primeiro do quinteto BRICS a quebrar em tantas frentes ao mesmo tempo, enquanto a Rússia e África do Sul estão ambos em profunda crise e sendo que a China está perdendo US$ 100 bilhões de reservas em moeda externa ao mês. Só a Índia está conseguindo navegar. O conceito BRICS tornou-se sem sentido (...) o impulso do impeachment da senhora Rousseff parece não ter freios". Ele acrescenta que “os mercados estão esperando que o atual vice-presidente Michel Temer assuma e agarre as rédeas da austeridade e de reforma à frente de um governo pró-mercado".
Por fim, em vez do regime de concessão, o governo Dilma optou pelo regime de partilha em relação ao pré-sal, deixando de fora empresas estadunidenses como a Esso, a Shell (da qual a esposa do juiz Sérgio Moro é advogada) e a Chevron. Em seguida, Dilma e a PETROBRAS passaram a ser espionados pelos Estados Unidos, fazendo com que a presidente chegasse a cancelar uma visita ao país e ao encontro que teria com o presidente Barack Obama. É nesse bojo que apareceu a operação lava jato. Ela é filha do pré-sal. A lava jato deve ser compreendida na sua articulação com a escala global do jogo político do capitalismo globalizado. Mas os agentes externos têm suas articulações internas, como o caso da Rede Globo e do PSDB. É preciso criar e repetir um discurso de que a PETROBRAS é um poço de corrupção, que ela está com problemas financeiros dados os desvios, que não tem condições de ser a única operadora do pré-sal. Tem sido assim no capitalismo neoliberal: é preciso criar e consolidar a ideia de que as empresas públicas são expressões de sucateamento, para justificar sua privatização. O Deus do mercado é que dá as cartas. E a ideologia aparece quase como um mundo inelutável e inevitável, como se a empresa pública deva ser riscada do mapa e extinta da terra tal qual foram os dinossauros.
Não é de hoje que as multinacionais estadunidenses arregalam seus olhos para o nosso subsolo petrolífero. Assim fora no inicio dos anos 1950, quando os nacionalistas conquistaram do presidente Vargas a criação da PETROBRÁS como uma empresa 100 % estatal e nacional, contrariando as forças imperialistas que ajudaram Getúlio dar um tiro no próprio peito. A conquista de 1953 foi se desfazendo durante o governo FHC com a quebra de monopólio da PETROBRAS e, com continuidade dos governos Lula e Dilma, com a venda de ativos da empresa na Bolsa de Valores, contribuindo para sua desnacionalização e privatização. Mas a ambição da burguesia internacional não tem limites, daí se explica o fato de que ela quer nosso pré-sal e o restinho que nos sobrou da PETROBRAS.
Por outro lado, as várias frações da burguesia brasileira romperam com o governo Dilma e sua política de conciliação de classe, cujo símbolo mais representativo, no momento, é a campanha realizada pela FIESP a favor da manutenção de militantes em favor do impeachment em frente a sua sede na Avenida Paulista. A imagem que me vem à mente na atual conjuntura é aquela dos filhos rebeldes que começam a se revoltarem contra os pais e abandonarem o lar no qual se hospedou e se alimentou durante um bom tempo. Pois bem, a grande mídia, a bancada evangélica e fundamentalista, a bancada ruralista, a burguesia industrial, todas elas estão saindo acenando com um “tchauzinho” para o governo Dilma e correndo atrás de um governo Temer/Aécio/Cunha/Renan, do qual podem tirar ainda mais proveito no sentido de acumulação de capital. O filho quer um novo pai, muito mais mão aberta; um paizão, daqueles que não medem esforços para abrir os bolsos em proveito do filho resmungão que quanto mais tem, mais quer ter, e ser. A propósito, gostaria de citar um trecho do Jornal Esquerda Diário, com o qual concordo:

“O poder de Moro vem de que apesar do governo Dilma se esforçar em agradar aos interesses do grande capital, apesar de oferecer a lei que amplia as privatizações [Lei PLS 555], de promover cortes na educação e em toda a área social, de alimentar como pôde à direita neoliberal e repressiva e prometer ir além nos ataques trabalhistas que já vem fazendo, isso tudo ainda é pouco para o imperialismo na sua crise atual (...) Não é acidental que haja atos contra Dilma nas portas da Fiesp: o grande capital necessita de um governo mais colado na Fiesp, mais “ajustador” que Dilma, sem relação com os sindicatos. Os mesmos sindicatos que o lulo-petismo aparelhou e trata de manipular – via burocracia da CUT – para não se mobilizarem contra os ataques do governo petista contra o mundo do trabalho e cortes sociais de todo tipo. A esquerda do “fica Dilma” tem razão em combater e denunciar o impeachment como golpe, ou as ações do “Lava a Jato” como seletivas e, neste caso, golpistas, mas está estrategicamente equivocada ao não se mobilizar contra os ajustes da Dilma(...). Em nome da democracia em abstrato, preserva um governo que marcha a passos largos em medidas antinacionais , antidemocráticas e antitrabalhistas ao mesmo tempo em que, por essa via, abre caminho para a direita, aduba o terreno para o “partido do judiciário” pró-imperialista. Por isso os juízes escolhem qual o corrupto querem escutar, qual político levam “coercitivamente”, qual político é escrachado publicamente, qual esquema de corrupção vão por na pauta [merendão, trensalão do Alckmin, Furnas de Aécio por exemplo, não entram] e assim por diante. Eles funcionam como partido político: o mesmo juiz que marchou nas ruas com a direita pela manhã, mais tarde vai e solta uma “ordem” judicial contra a posse do Lula ministro. O juizado é um partido de classe, nem polícia nem juiz está ao lado da classe trabalhadora. O que o nada neutro Moro representa de fato é um partido que procura impor não o “fora todos”, mas o “fora este governo” e que “venha outro que acelere” a direitização da Dilma. (...) A cruzada do juiz Moro, e a seletividade dos seus ataques, obedece a interesses econômicos antinacionais e nada éticos. Daí o destaque midiático, daí tanta musculação”. (Esquerda Diário, 19 mar. 2016)
Sobre o papel de uma considerável fração da classe média brasileira, tendo a concordar com Marilena Chauí: “é uma multidão com ódio e sem proposta”, é racista, fascista e homofóbica, sem falar no incomensurável preconceito de classe social. Como se fala muito nas redes sociais, se trata de uma classe média que não aceita a abolição, não quer ver índios, negros, domésticas e camponeses nas universidades, aeroportos, e outros lugares, tradicionalmente, ocupados por uma elite. Essa fração da classe média, em 1964, andava pelas ruas desfiando um rosário e entoando o discurso ideológico “Deus, Pátria e Família”. Agora, trocaram o rosário pelas panelas, vivem a batê-las das sacadas de glamourosos apartamentos na zona nobre das cidades e comendo filé mignon em frente a FIESP, embora permaneça o discurso de extrema direita “Deus, Pátria e Família”. Não sabe essa classe média que o projeto do impeachment é um projeto do grande capital para sair da crise econômica e que ela também será prejudicada caso esse projeto seja vencedor. Na boca voraz e faminta da burguesia entra todo alimento da economia e não sobrará muito para a classe média, muito menos ainda para a classe trabalhadora.
Para concluir, gostaria de conclamar os companheiros e companheiras que se juntam nesse ato em defesa da Democracia, para que continuemos firmes na luta por uma Democracia participativa e com inclusão social e que, façamos a crítica ao governo Dilma no que concerne as suas políticas econômica, fiscal, trabalhista, educacional, agrária, que vem desmontando o serviço público; abrindo caminho avassalador para as privatizações e terceirizações; que veta a auditoria da dívida pública; que não taxa as grandes fortunas; que não titula terras indígenas, quilombolas e de acampados; que retira recursos das universidades públicas para jogar para o capital multinacional privado via FIES; que sinaliza com uma reforma previdenciária que aumenta ainda mais a idade da aposentadoria; que faz acordo com os tucanos para entregar o pré-sal; portanto, não basta lutar pela sustentação do governo, mas os movimentos vermelhos de esquerdas que garantiram sua vitória no segundo turno e que podem ser a única possibilidade de aniquilar o impeachment devem, também, disputar o governo com o empresariado, os latifundiários e os banqueiros. O governo nos deve muito esse apoio de ruas e de urnas, pois ainda somos fieis em tempos sombrios e o governo parece trabalhar com essa nossa fidelidade, contra nós. A luta de classe deve ser permanente, com ou sem o golpe, sob o risco de apenas manter a presidente, ou trocar de presidente, e só.




domingo, 28 de fevereiro de 2016

ESTUDANTES NEGROS E POBRES FAZEM GREVE DE FOME NA UFPB

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Ontem, dia 27 de fevereiro de 2016, fui à UFPB prestar solidariedade aos estudantes que fazem greve de fome protestando contra as condições de permanência e assistência estudantil.

Duas cenas me chamaram a atenção. Primeiro, foi ver quatro estudantes pobres, negros, três deles de outros estados, acorrentados, fazendo uma greve de fome que já durava mais de 100 horas. Na saída, vi outra cena completamente distinta. Um campo de futebol no interior da UFPB no qual vários estudantes batiam uma bola e, certamente, depois tomariam um banho, iam para as suas casas e, talvez, à noite dar uma volta na orla de Tambaú, beber um Whisky e petiscar um prato caríssimo. Já os acorrentados grevistas, necessitam de um Restaurante Universitário de qualidade e de uma boa Residência Universitária, pois não basta o acesso à universidade pública, mas políticas de permanência e assistência aos estudantes. O mais revoltante é ouvir de certas bocas de frações de classe média reacionária que as quotas raciais e sociais é “um privilégio”. Dizem isso porque, como assinala Marilena Chauí, a classe média sonha em ser burguesia e nutre um preconceito para com negros, pobres, camponeses, indígenas, quilombolas.

Essa primeira imagem, que me veio à retina, é o retrato da tragédia das universidades públicas brasileiras. Por mais que tenha havido uma expansão e uma inclusão, a mesma se deu de forma precarizada e os sinais evidentes podem ser notados nos cortes orçamentários, nas obras inacabadas e na triste realidade na qual se encontram, sobretudo, estudantes pobres, filhos de classe trabalhadora, ameaçados de saírem pelas mesmas portas que entraram. Já a segunda imagem fez meus olhos ficarem verdes e brancos, era a cor do gramado do campo de futebol e da elite branca para a qual se construiu as primeiras universidades brasileiras no inicio do século XIX, contratando com a cena dos lutadores guerreiros que acampam na frente da reitoria.

Esse fato da UFPB é um micro exemplo de um processo macroscópico que acontece dentro das universidades públicas. Alguns estudantes e docentes resistem mais do que outros, mas o desmonte do serviço público, o avanço da terceirização, os cortes no PIBID e em outros programas destinados a estudantes são visíveis a todos que queiram olhar a realidade com um pouco de racionalidade e sem paixonite aguda. Por outro lado, os ônibus de estudantes que vêm do interior, ao pararem em frente às universidade públicas deixam nelas, quatro ou cinco estudantes, pois a maioria tem como destino as grandes empresas de faculdades privadas com dinheiro repassado pelo governo federal por meio do FIES. Desse modo, podemos dizer que o governo federal cumpre os compromissos com os organismos internacionais e com os empresários da educação, ao passo que os reitores se transformam em meros coadjuvantes desse processo de precarização de nossas universidades. A própria ANDIFES, associação dos reitores, salvas as raríssimas exceções no seu interior, não enfrenta o governo, não faz resistência ao MEC e MPOG no sentido de reverter os cortes e ampliar as verbas para a educação pública, gratuita e de qualidade. Escondem o jogo, tapam buracos e procuram cumprir o que manda o governo: “façam muito com pouco, sejam criativos”. Portanto, o buraco é bem em cima, mas também aqui embaixo.

Desse modo, temos uma universidade pública dualista: estudantes de classe média têm uma certa facilidade para estudar, comprar livros, fazer curso de línguas, pegar um carro para ir para casa e ainda sobra tempo para bater uma pelada. A outra universidade é pobre, é negra, é indígena, é sem terra. Esta precisa de auxílio moradia para todos, de um restaurante universitário de qualidade, de creche para deixar seus filhos enquanto estudam, de grana para comprar o passe para pegar o transporte público ou pagar aluguel, caso seja necessário morar fora da universidade.

A primeira universidade fala de meritocracia, a segunda fala de cidadania. A segunda é que sempre foi excluída do acesso ao ensino superior, enquanto a primeira sempre foi privilegiada, depois de pagar um caro cursinho. Por isso, que se dane a tal da meritocracia e que as universidades públicas se encham cada vez mais de povo. Mas, para isso, não basta a entrada, e sim, as condições de permanência.

Meu total e irrestrito aos estudantes da UFPB!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!




segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

FUI CENSURADO E EXPULSO DO GRUPO UFCG


Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)


Um grupo de extrema direita acaba de me expulsar de um grupo no facebook intitulado Universidade Federal de Campina Grande. E por que censurado, calado, expulso? Vamos ao fio da meada.
Tudo começou durante a greve docente nas universidades federais quando eu comecei postar notícias, imagens e informações do nosso movimento. Como eles eram contra a greve e contra o nosso sindicato (ADUFCG/ANDES), aproveitaram para desqualificar alguns docentes e o próprio sindicato, destilando ódio e fraseologias de ataques pessoais do mais baixo nível. Na época, a Assembleia da Categoria Docente, aprovou uma moção de repúdio aos ataques vindo de um pequeno grupo de estudantes e até professores.
Acabada a greve, continuei postando várias matérias que julgo necessárias para a leitura e conhecimento a fim de que possam propiciar o debate. A cada postagem, não era apenas o conteúdo que era atacado, mas a minha própria pessoa. Isso é o de menos, já que não me incomoda esse tipo de atitude que considero de baixa qualidade. Aliás, nunca respondi nenhuma das agressões, justamente por não concordar com a metodologia de atacar a honra pessoal de alguém, quando não se concorda com as ideias que ele defende.
Mas, a greve era apenas a ponta do iceberg. Um pequeno grupo, num coletivo de mais de 22 mil pessoas, demonstrou intolerância exacerbada contra qualquer texto compartilhado que tivesse a cor vermelha das ideologias de esquerda. Os mais atacados foram:
1)      Marx, Engels e o Marxismo= aliás, não foi a obra deles, objeto de questionamento, até porque ler Marx é coisa para gente grande e não para quem repete jargão do tipo “Marx não trabalhava e era sustentado por Engels”;
2)      Jean Willis= repudiado inclusive por ter tirado uma fotografia comigo;
3)      O MST= desqualificado enquanto um movimento de trabalhadores e representado pelo viés negativo do estereótipo do banditismo;
4)      Cuba= Não se aguentava ler que a ilha de Fidel tem uma das melhores medicina do mundo, erradicou o analfabetismo e a mortalidade infantil e zerou a transmissão do vírus do HIV de mãe para o filho recém-nascido; contra isso repetia-se o jargão de que “Fidel e Guevara assassinaram homossexuais”;
5)      Universidade pública gratuita e com inclusão social. Defendia-se a tal da meritocracia e, em alguns casos, a privatização;
Sabemos que esse grupo não é fato isolado. É parte de onda crescente de fundamentalismo e comportamento fascista que se apresenta nos domingos nas ruas brasileiras vestidos de verde-amarelo. De uma fracção de classe média batedora de panela que odeia pobre, preto, índio e camponês. Que não precisa de restaurante universitário, nem transporte público. Não é a toa que esse grupo do facebook UFCG sempre rebatia minhas postagens elevando ao pedestal de ícone da política brasileira, ninguém mais do que Jair Bolsonaro. Isso mesmo, o símbolo mor dessa juventude. Resta dizer que Bolsonaro é mais do que ele mesmo, é parte de uma bancada fundamentalista, racista, machista, homofóbica, intolerante religiosamente e partidária da volta da ditadura. Pior ainda é saber que tem estudante de História que segue esse tipo de ideologia.
Durante o período em que estive no grupo UFCG não agredi a honra pessoal de ninguém, nem respondi, agressivamente, comentários que me agrediram. Comportei-me de acordo com as regras do grupo, compartilhando textos que não ofendiam a ética nem a moral dos membros do mesmo. Sinto muito mais pelo gesto da censura, da exclusão e do cerceamento à liberdade de expressão, pois entendo essa tomada de decisão como um gesto que fere as regras da nossa já capenga Democracia. Aliás, um gesto muito em moda no Brasil atual, antidemocrático. Perde a Democracia. Ou não?

Campina Grande, 11 de Janeiro de 2016.

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

MAIS UM CAPÍTULO DA TRAGÉDIA DE SUMÉ

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Antes de mais nada, gostaria de dizer da minha indignação com o assassinato do garoto Everton e do inocente Batista e que seja feita justiça, punindo todos os envolvidos de acordo com a legislação vigente. Estou iniciando esse texto, fazendo essa justificativa, porque circula pelas redes sociais comentários do tipo que eu estaria mais preocupado em defender as religiões de matriz afro-ameríndias do que mesmo com a morte brutal do garoto. O que não é verdade, pois, indiscutivelmente, toda uma região está de luto e há uma revolta coletiva com o assassinato do garoto e, sobretudo, pela forma fria, calculada e selvagem como se deu. Quando escrevi o primeiro texto, esbocei uma preocupação política que circula no entorno do lamentável fato. E volto a escrever para reforçar minha preocupação.
Estive em Sumé e Serra Branca entre ontem e hoje. O assunto não é outro senão esse. A revolta das pessoas é perfeitamente compreensível, contudo, ouvi de várias bocas a reprodução discursiva das notícias que circulam nas mídias televisiva, radiofônica e digital. Após a conclusão da investigação policial na qual alguém que se denomina e é denominado “pai de santo” confessa os detalhes do macabro ritual, tem se acentuado o discurso que relaciona o ocorrido em Sumé com as religiões de matriz afro-ameríndias. Defendo que devemos repudiar e punir o sacrifício de Everton sem cair na generalização, no desconhecimento e no preconceito para com os umbandistas, candomblecistas e juremeiros do Brasil, de modo geral e do Cariri, de modo específico.
Acompanhado de mais dois professores do CDSA-UFCG, fui conversar com os pais e mães de santo que entrevistamos para o projeto que coordeno junto ao Ministério da Cultura. Fomos prestar solidariedade e formalizar apoio e parceria entre a universidade e os terreiros. Um deles nos contou que no trabalho tem ouvido vários tipos de preconceitos, coisa do tipo “isso é coisa de macumbeiro”. O preconceito é uma construção histórica e cultural, principalmente em uma região colonizada juntamente com a ideologia da Igreja Católica, mas o conhecimento histórico, antropológico e sociológico deve desconstruir determinados estereótipos identitários.
Os terreiros de Pai Inacinho, Madame Jô, Sandra e Antonio Graxuá (Sumé) e de Pai Washington, Pai Lima e Pai Dinei (Monteiro), até onde pude perceber são de tradição umbandista cultuando os orixás (na tradição afro) e os mestres, boiadeiros e caboclos (na tradição da jurema). Na Umbanda ocorrem sacrifícios de animais e oferendas como bebidas, cigarro, flores, perfumes, comidas de santo (acarajé, arroz, farofa, abóbora, frutas, etc). Os rituais mais realizados são as festas aos orixás e a entrega de oferendas no mar (caso de Yemanjá), no rio (caso de Oxum) ou na pedreira (caso de Xangô). No ritual da jurema, o toque envolve o uso do cachimbo e bebidas, pois os mestres, boiadeiros, preto-velhos e índios vêm ao terreiro para beber e dançar. Nos trabalhos realizados a pedido de consulentes e filhos da casa, os casos mais procurados são relacionados ao amor e são feitos com maçã, mel, fitas coloridas, bonecos de pano, champanhe e cigarro ofertados a exu e pomba gira. Portanto, desconheço a existência de práticas de sacrifícios humanos em rituais de Umbanda e Candomblé. Se alguém o faz, acredito que não são práticas condizentes com a tradição afro-ameríndia que conhecemos, cultuamos e respeitamos.
Outro ponto importante a ser destacado se refere ao fato do processo de iniciação e feitura de um pai e mãe de santo. Para ser considerado Babalorixá (pai de santo) ou ialorixá (mãe de santo), o iniciado faz oferendas aos seus orixás de cabeça e passam alguns dias trancados no quarto do santo (peiji, camarinha) tendo contato apenas com a mãe da casa. Em alguns terreiros são raspados e catulados. No dia da saída do quarto ocorre uma festa na qual uma mãe, um pai e uma madrinha de santo lhe entrega um anel de búzios (espécie de anel de formatura), uma faca (mão de faca=significa que agora ele ou ela já podem cortar para o orixá) e o presidente da Federação de Cultos Afros entrega um diploma. A partir daquele momento, aquela pessoa que estava em obrigação no quarto do santo se torna babalorixá ou ialorixá e, apenas, a partir de todo esse processo de ritualização da feitura do santo, essa pessoa pode abrir um terreiro e pode ser considerado pai ou mãe de santo. O terreiro tem que ser vinculado à Federação e esta expede um documento permitindo a abertura da casa.
Essa é a forma de tradição religiosa que defendemos contra o preconceito e a intolerância religiosa. E essa tradição não tem nada a ver com charlatões nem sacrifícios humanos. Entretanto, o que está ocorrendo no Cariri é a imediata vinculação do ritual nefasto sobre o sangue de Everton com as boas tradições umbandistas e candomblecistas. Isso não ajuda muito, pois consciente ou inconscientemente, reforça o preconceito religioso e ainda incorre num erro grosseiro de generalização por desconhecimento.

Espero que o caso seja inteiramente elucidado e punido pela policia e pela justiça, mas que não cometamos violência simbólica para com os terreiros do Cariri Paraibano que já sofrem pela invisibilidade e demonização. Não esqueçamos que pelo Brasil a fora terreiros têm sido invadidos e o povo do santo também tem sido violentado fisicamente. Espero e apelo, ainda, que a mídia que tem dado tanto destaque ao fato abra espaço para que o conhecimento possa explicar as religiões afro-ameríndias por um prisma da desconstrução de equívocos e estereótipos e que os diretores de escolas e gestores municipais cumpram as Leis 10.639 e 11.645 que obrigam a inclusão da História da África e da cultura afro-brasileira e indígenas nos currículos escolares. A falta de conhecimento leva à cegueira, às generalizações e visões de mundo preconceituosas. Espero e conclamo, ainda, que após as conclusões das investigações, as Federações de Cultos Afros no estado da Paraíba possam se pronunciar sobre o ocorrido em Sumé e apoiar os terreiros caririzeiros.