terça-feira, 13 de outubro de 2015

CRIANÇA MORTA EM RITUAL DE “MAGIA NEGRA” NA CIDADE DE SUMÉ?

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG)

Acabo de assistir no JPB- 2ª edição, que o delegado João Joaldo Ferreira, titular da Delegacia Seccional de Monteiro, trabalha com a hipótese de que o assassinato do garoto, na cidade de Sumé, fora realizado por razões de rituais de “magia negra”. Imediatamente, parei com o que estava fazendo, para publicar minha opinião sobre o assunto. E o faço por várias preocupações políticas e éticas que o tema demanda.
Nem quero aqui entrar no debate semântico que implica a denominação de um rito da Umbanda ou do Candomblé como sendo de “magia negra”, como se do outro lado pudesse haver uma magia “menos mal”, embranquecida e revestida pela adjetivação menos racista. O que me preocupa, nesse momento, é que o delegado e a mídia deveriam ser mais cautelosos quando ainda se trabalha com hipótese de um crime, pois a veiculação de uma matéria desse porte em uma sociedade cristocêntrica e preconceituosa para com as religiões de matriz afro-ameríndias, certamente reforçará o estigma da demonização construído historicamente sobre elas. O pior é que muitos jornalistas e delegados sequer leram ou tem um conhecimento razoável sobre a Umbanda e o Candomblé e, assim, sem o rigor do conhecimento científico não podem, senão, cair no sensacionalismo que o assunto pode promover.
A palavra de um delegado de polícia ou de um jornalista tem um poder de autoridade no dizer, tem poder de credibilidade para muitos, pois são apresentadas como “imparciais” e “verdadeiras”, quando na verdade se tratam de visões de mundo subjetivas e interessadas. Não é de se espantar que, a essa altura, muitos telespectadores já estejam comentando que uma criança foi sacrificada em ritual de “magia negra” na cidade de Sumé, pois os consumidores da mídia nem sempre são ativos, trapaceiros e resistentes. Assim, informações desse tipo, num contexto de avanço da extrema direita fascista no Brasil, ajudam a reforçar esse projeto de Brasil intolerante para com o povo do santo.
Gostaria de dizer que há 15 anos conheço vários terreiros na Paraíba, inclusive estou concluindo um trabalho de pesquisa, financiado pelo Ministério da Cultura, intitulado O SEMIÁRIDO PARAIBANO TAMBÉM É AFRO-BRASIELIRO: A PRODUÇÃO DE MEMÓRIAS DOS TERREIROS DA REGIÃO. Durante esse projeto, entrevistamos vários babalorixás e ialorixás nos municípios de Cajazeiras, Sousa, Monteiro e Sumé e nunca vi, nem ouvi nada referente a sacrifícios de crianças em rituais de Umbanda e Candomblé. Portanto, se algum terreiro ou alguma pessoa que se identifique como pai de santo ou mãe de santo sacrificou essa criança encontrada nas matas do município de Sumé, essa pessoa precisa ser presa e responder por homicídio conforme reza a legislação vigente, mas, para isso, o delegado e o JPB precisam dar uma resposta à sociedade sem generalizações e com responsabilidade e conhecimento político das religiões de matriz afro-ameríndias.
Gostaria de conclamar o Pai Washington, o Pai Lima e o Pai Dinei, (todos de Monteiro) e Madame Jô, Sandra, Pai Inacinho e Antonio Graxuá, (todos de Sumé) a acompanharem os resultados do inquérito policial e das informações midiáticas a fim de que estes representantes de terreiros na região do Cariri não possam ser responsabilizados por, supostamente, serem associados a comandar uma religião que sacrifica crianças.
Repito: vamos esperar o resultado das investigações policiais, mas desde já, caso se confirme a hipótese do delegado, que fique bastante claro que esse tipo de sacrifício não faz parte da Umbanda, da Jurema e do Candomblé cujos terreiros são filiados a uma Associação de Cultos Afros. Cuidado com o que a mídia diz, pois eles adoram matérias desse tipo para fazer sensacionalismo. Caso a hipótese do delegado não se confirme, a equipe do JPB deveria ser acionada para desconstruir a matéria estereotipada de hoje. A grande mídia brasileira é isso aí: ela e você, nada a ver.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

2015: UMA GREVE NECESSÁRIA E DERROTADA

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires

A greve é uma instituição política inventada durante a Modernidade, mas ainda um importante instrumento da luta de classe na Pós-Modernidade. Até que se prove o contrário, outros tipos de enfrentamentos, embora necessários, não substituirão o movimento paredista a ponto de minar sua existência. Pelo menos, não agora.  Igualmente importantes e necessários, são os sindicatos da classe trabalhadora na qualidade de instituições representativas de uma luta coletiva contra o capitalismo e os interesses das várias frações burguesas de classe. Enterrar a greve e o sindicato no túmulo do passado, como algo superado no tempo, em favor do novo que ainda não nasceu nem sabemos como será, significa assinar o atestado de óbito de experiências vitoriosas de lutas coletivas no âmbito do movimento sindical.
O ANDES-SN é exemplo desse movimento sindical classista, democrático nas decisões (sempre consultando as bases) e combativo, isso porque não expressa a velha tradição corporativista da Era Vargas, mas atua na linha da autonomia em relação ao aparelho de Estado. Entretanto, outros sindicatos, centrais sindicais e movimentos sociais, estudantis e populares, optaram pelo “peleguismo” e, desde a chegada do PT ao governo brasileiro, trocaram a linha de frente do combate classista pelo aparelhamento na burocracia estatal, sempre alisando no pelo dos governos Lula e Dilma. Talvez, essa cooptação seja um dos fatores fundamentais que impossibilitam a construção de uma greve geral no país. Defender o mandato da presidente passou a ser a bandeira mais importante nesse difícil ano de 2015.
Nesse sentido, defendo que a greve construída no âmbito do Fórum dos Servidores Públicos Federais e, particularmente, no setor da Educação (ANDES, SINASEFE, FASUBRA, ANEL e oposição de esquerda da UNE), foi mais do que necessária e oportuna. No contexto de um mandato presidencial que foge, completamente, a linha ideológica prometida no debate da campanha e que trai os segmentos de esquerdas que foram decisivos no 2º turno, não resta outra coisa, a nós, senão parar as universidades e tentar parar o país. Quando deflagramos a greve, acusavam-nos de tentar desestabilizar o governo e de que o ajuste fiscal era algo inelutável, como uma estrutura de rocha na qual os sujeitos grevistas iriam bater a cabeça e quebrar a cara. Contra esses argumentos eu diria: não somos e não fomos nós quem desestabilizou o governo, mas os próprios caciques que andam diariamente no interior do Palácio do Planalto; e mais, partir numa luta com certo fatalismo e ceticismo não é o mais recomendável, o fazer-se da classe se dar na experiência da luta e o futuro é incerto, mesmo avaliando a correlação de forças desvantajosa para nós trabalhadores. Por isso, melhor lutar jogando a cabeça na rocha dura do capital, do que se conformar com um status quo vigente que governa para o grande capital financeiro, empresarial e agroexportador.
Fizemos nossa parte. Durante três meses paramos para discutir a universidade que queremos, fomos às ruas e as praças, gritamos na frente e no interior da reitoria, ocupamos o gabinete do Ministro da Educação. Somos poucos, mas corajosos e audaciosos, conscientes da importância da defesa de um projeto de universidade pública, gratuita e laica, uma universidade que se expanda para o acesso e a permanência de pobres, negros, índios, camponeses e não o projeto privatista do governo federal com o aval dos reitores que preferem a terceirização, a precarização das condições de trabalho, o fim da gratuidade de alguns cursos no interior das universidades públicas e os cortes no orçamento público destinado a educação. Muito mais do que apenas reposição salarial (que um direito constitucional que conquistamos), reestruturação da carreira, autonomia universitária, paridade entre ativos e inativos, nosso grito em 2015 foi contra o FIES, contra a privatização, contra o desmonte do serviço público, contra o ajuste fiscal e cortes de verbas, contra o fim de projeto como o PIBID e PET. Nesse particular, avalio como positiva nossa participação, mesmo sendo vozes isoladas no interior das universidades. Nós enfrentamos os gigantes do capital, o Estado Burguês e os reitores complacentes, não é uma luta fácil, mas importante e necessária.
Por outro lado, passados quatro meses de greve, considero que fomos derrotados nessa batalha, o que não significa perder as esperanças de continuar o combate e construirmos outras batalhas. E perdemos por várias razões que gostaria de mencionar: a) O governo não dialoga com nossa pauta setorial, o ministro da Educação sequer nos recebeu para o debate; nosso projeto de universidade diverge do projeto governista, pois enquanto este retira verbas das universidades públicas repassa milhões via FIES e Prouni para os grandes grupos empresariais que mercantilizam a educação; b) quanto mais a greve se estendia, mais o governo caminhava na contramão do lado da classe trabalhadora. Vieram mais cortes, inclusive na pós-graduação ao passo em que a Agenda Brasil e o ajuste fiscal foram sendo acionados sinalizando com mais impostos, mais retirada de direitos trabalhistas e mais criminalização de movimentos sociais e repressão; c) o MEC não tem autonomia, quem define tudo é o MPOG e o Ministério da Fazenda, os ministérios do ajuste e dos banqueiros; d) no interior da nossa universidade não contamos com o apoio da administração central, tivemos que fazer pressão para o reitor abrir as contas e mostrar o impacto dos cortes, isso sem falar que várias reuniões de câmaras foram convocadas a revelia do comando de greve, o que demonstra um desrespeito para com as categorias em greve; e) tivemos que gastar tempo com fura greve, profissionais que não respeitaram as deliberações democráticas da Assembleia e insistiram em trabalhar e nos dá trabalho; f) muitos companheiros que votaram em favor da greve não formaram conosco no comando local de greve, reforçando o esvaziamento da luta e a sobrecarga de atividades para poucos militantes; g) muitos estudantes desqualificaram, vergonhosamente, os professores sindicalistas, expressando uma fraseologia de triste memória a denominar-nos de “vagabundos”; h) esses argumentos anteriores, significa que no interior das universidade ocorre também o desmonte de um pensamento crítico e uma visão de mundo coletiva, conduzindo a maioria dos estudantes e professores a abraçarem a ideologia neoliberal da fragmentação, do individualismo, da competitividade e do conformismo.
Por essas e outras, entendo que chegar a quatro meses de greve apenas com uma proposta governamental de um índice de reajuste salarial muito abaixo da inflação é a derrota da classe trabalhadora e da universidade pública e a vitória do capital financeiro e empresarial que engorda suas contas por dentro do aparelho de Estado. A luta de classe é sempre desfavorável para os trabalhadores, pois os lugares políticos e sociais ocupados são assimétricos e ainda temos que contar com as fissuras e conflitos no interior da luta docente, por exemplo. Dividir para reinar é a lógica do governo. E muitos professores e estudantes têm caído nessa lógica fazendo a briga errada.
Para finalizar, gostaria de agradecer a tod@s @s estudantes que se juntaram a nós nessa luta, o movimento estudantil é brilhante, vigoroso e aguerrido e tem muito a contribuir nas trincheiras da resistência.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

“GALINHA PRETA” & “BANDEIRA LILÁS”

Prof. José Luciano de Queiroz Aires (UAH/UFCG)

O Comando Local de Greve da ADUFCG se reuniu com o reitor Edilson Amorim, na tarde do dia 21 de julho, para discutir os cortes orçamentários do MEC na educação pública federal e seus impactos concretos na Universidade Federal de Campina Grande. Durante a exposição do reitor, o historiador Luciano Mendonça de Lima fez um aparte denunciando algumas práticas de proselitismo religioso realizadas no âmbito da UFCG, ameaçando, assim, o caráter laico da referida instituição. Denúncia que eu me encarreguei de complementar quando afirmei ao reitor que durante as colações de grau, no auditório do Centro de Extensão José Faria Nóbrega, ocorrem “cultos ecumênicos” e que no site da UFCG havia sido publicado um artigo de um professor da instituição citando a Bíblia para fins de proselitismo e não de hermenêutica.
Durante o debate, dois professores usaram a palavra se pronunciando a respeito da questão religiosa no âmbito da universidade. E, para minha tristeza, foram duas falas infelizes as quais discordo e combato nesse texto.
Um deles, demonstrando mais preocupação com o consumo de maconha no interior da universidade do que com a questão da religião, acabou reiterando uma cultura preconceituosa para com as religiões de matriz afro-ameríndias ao dizer que não se importava, inclusive, com o fato de sacrificar “galinha preta”, sinalizando quanto a possibilidade de ter espaço para todas as religiões no interior da UFCG. Nesse caso, tenho uma dupla discordância. Primeiro, que a universidade não é espaço para nenhum tipo de culto religioso, mas para a discussão histórica, sociológica e antropológica das religiões. Sendo assim, ela pode cumprir um importante papel político que é o de conhecer para conviver com as diferenças, dentro e fora do âmbito acadêmico. Segundo, ao representar a Umbanda e o Candomblé, a partir do estereótipo da “galinha preta”, se reafirma a cultura histórica da desqualificação das práticas religiosas que sacrificam animais e, ainda, se acrescenta a dimensão racial da discriminação quando se afirma a cor da galinha sacrificada. Como um pouco conhecedor das religiões de matriz afro-ameríndias, no trânsito que sempre faço dos livros aos terreiros, gostaria de ressaltar que a dimensão de tais religiões está para além dos sacrifícios de “bode preto” e “galinha preta”, porque também se sacrifica “bode branco” e “galinha branca”. E os sacrifícios de animais são muito legítimos, se os lêssemos a partir da teia de significados, das quais no fala Clifford Geertz, tecidas na subjetividade dos seus praticantes e não na cabeça estranha que compara cultura a partir da sua identidade.
Ainda sobre essa questão, foi aventado, durante o debate, os “cuidados” que os gestores da UFCG devem ter no momento de tentar coibir os proselitismos religiosos, a fim de que os mesmos não possam ser acusados de intolerância religiosa. Esse tipo de fala acaba confundindo mais do que elucidando. Intolerância religiosa é não respeitar o Outro, dentro e fora da universidade. Proselitismo religioso é usar um espaço laico, público e diversificado, cuja missão é a produção do conhecimento, para fins de cultos, sejam eles quaisquer. Vou exemplificar a diferença. Arrancar o crucifixo de um estudante ou de um professor ou tomar de assalto sua Bíblia Sagrada que carrega na bolsa, são exemplos de intolerância religiosa. Proibir que professores rezem o Pai Nosso nas reuniões de Departamento, que se ostente imagens sagradas nos espaços da universidade ou que se professem ritos religiosos, são exemplos de proselitismo que devem ser combatidos e não de intolerância.
Outra confusão que gostaria de meter minha opinião se refere aos discursos que afirmam que, como historiadores ou cientistas sociais, não devemos fazer críticas às religiões, pois estaríamos incorrendo na tal da intolerância religiosa. Mais uma vez, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Escarrar em um crucifixo é diferente de dizer que o catolicismo atuou, ideologicamente, na sustentação da escravidão no Brasil ou foi o bastão do feudalismo clássico, conforme nos mostra Georges Duby; abrir a mala do som de um carro e botar para tocar no mais alto volume à frente da casa de seu vizinho que está realizando um culto evangélico é diferente de dizer que o luteranismo foi a ética que deu sustentação ao Capitalismo, conforme nos mostra o sociólogo Max Weber. Não confundamos alho com bugalho. As religiões, enquanto instituições, não estão imunes a dimensão crítica do conhecimento e isso alguns historiadores se esquecem de levar a cabo, preferindo doutrinar seus alunos, da escola básica ao ensino superior, empurrando goela abaixo um discurso único. É a historicidade das religiões que devemos conhecer e socializar no ensino de História, e não transformar a sala de aula em templo e a aula de História em pregação. E disso, os historiadores-religiosos devem ter consciência a fim de que possam fazer um distanciamento da sua crença em nome da ideia de que são os homens e mulheres que fazem a História e de que ao adentrar a sala de aula encontrará uma turma de alunos bastante diversificada.
Voltando ao assunto da reunião com o reitor e o debate que se configurou em torno dessa temática, gostaria de dialogar com o outro professor. Menos incomodado com a maconha, pareceu mais preocupado com o fato de “bandeira lilás” hasteada sobre a universidade, numa alusão ao arco Iris do Movimento LGBT. Nesse caso, gostaria de dizer que os movimentos sociais também devem ser objeto de produção de conhecimento no espaço acadêmico, mas de um conhecimento que sirva à vida em sociedade. Assim, a universidade cumpre seu papel político para com os excluídos da História, pesquisando sobre eles e atuando junto deles. No caso de se tomar as religiões como objeto de estudo, a universidade deveria atuar no sentido do combate ao fundamentalismo religioso e a defesa da diversidade religiosa. No caso dos movimentos sociais, incluindo as LGBT, igualmente relevante seria o combate a homofobia e ao monopólio da família heterocentrada e a defesa da diversidade de gênero e de tipos de famílias.

Ocorre que há uma diferença histórica gritante. Ao se abrir a universidade para fins de culto, além de ameaçar a laicidade da instituição, tem se reafirmado a perspectiva de discurso único cristocêntrico. Ao se abrir a universidade para índios, negros, pobres, LGBT, mulheres, camponeses, operários, se abrem as portas para a convivência com as diferenças e não para o discurso único. E, assim, a universidade talvez pudesse cumprir um papel mais relevante ao incluir sujeitos marginalizados historicamente, já que ela vem se prestando muito bem aos ditames do mercado e dos conservadorismos. 

domingo, 12 de julho de 2015

DOIS PROJETOS DE UNIVERSIDADE: DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ?

José Luciano de Queiroz Aires (UAH-UFCG)

A “Pátria Educadora” está em greve. Uma greve forte que movimenta o país inteiro levando docentes, estudantes e servidores técnico-administrativos às ruas brasileiras. O horizonte de expectativa desse movimento é a construção de uma greve geral que possa resistir ao projeto de educação levado a cabo pelo governo brasileiro com seus aliados internos e externos. Mas, afinal, o que está em jogo na atual conjuntura? Qual a importância de uma greve na educação nesse momento? São essas as questões sobre as quais gostaria de refletir nesse texto.
Inicialmente, gostaria de mencionar a temporalidade na qual estou escrevendo essas linhas. Em grande medida, o que pretendo desenvolver nesse artigo é resultado da experiência vivenciada em doze dias de participação do Comando Nacional de Greve do ANDES-SN e que gostaria de compartilhar com os leitores.
Mais do que o discurso verbalizado pelo governo brasileiro da “necessidade do ajuste fiscal”, em nome do qual é acionada a tesoura que corta mais de 9,4 bilhões do orçamento das instituições federias públicas, o que está em jogo é o embate entre dois projetos de universidade para o nosso país. Mais do que cortes, supostamente “momentâneos”, o que vai se consolidando é o modelo privatista, empresarial e mercadológico de educação, enterrando a universidade pública, gratuita, laica e de qualidade como direito social. A greve é fundamental e deve ser compreendida como arma necessária para enfrentarmos o projeto da mercantilização da educação dirigido pelas ambições dos empresários que se encostam às pilastras estruturadas em torno do orçamento da União.
Como é sabido de todos que acompanhamos a atual conjuntura, a política econômica conduzida por um Ministro da Fazenda, representante dos banqueiros, é direcionada no sentido de ajustar as contas públicas cortando direitos trabalhistas historicamente conquistados, diminuindo, consideravelmente, o repasse de verbas para setores fundamentais como a educação e a saúde pública e aumentando impostos e o custo de vida que afeta o andar de baixo da pirâmide social. A tesoura do Levy é bastante afiada quando faz um movimento para baixo e bastante enferrujada e incapaz de construir um movimento de corte para cima.
Saindo da metáfora e indo diretamente aos números, vale salientar que apenas em 2014, 45,11%, o equivalente a 978 bilhões de reais do orçamento da União foi comprometido com pagamento de juros e amortizações da dívida pública, restando apenas 3,73% para a educação. Desse modo, fica bastante evidente a hegemonia do bloco do capital financeiro que enriquece a cada dia que se aumentam as taxas de juros SELIC e quando o governo faz o esforço para manter o superávit primário que alimenta a boca enorme desses monstros que engordam especulando.
No andar de cima também se encontram as poucas famílias que acumulam fortunas e não são tributadas, conforme previsto na Constituição Federal. O Imposto Sobre Grandes Fortunas, caso fosse regulamentado no Brasil, atingiria 0,2% da população que, segundo dados da Receita Federal, corresponde a 221 mil contribuintes que possuem fortuna acima de 1 milhão de reais, muito dos quais escondidos em paraísos fiscais. Se esses afortunados fossem taxados em 1,5%, o governo arrecadaria algo em torno de 100 bilhões de reais por ano, mas o governo fez a opção de ajustar as contas de casa fazendo um ajuste fiscal pesando sobre os ombros já sofridos da classe trabalhadora brasileira.
Apenas essas duas molas mestras: o compromisso com o pagamento da dívida pública e a ausência de uma reforma tributária que taxe o capital e não a renda, já nos rende elementos explicativos para pensar seus reflexos no campo da educação. Ora, se sobra dinheiro para o mercado financeiro e falta a contribuição dos milionários para engrossar a receita, cabe à educação e outros setores considerados direitos sociais apenas a ínfima fatia da pizza do nosso orçamento.
E para piorar a situação, é importante ressaltar que nem toda previsão orçamentária para a educação se destina, exclusivamente, ao setor público. Aliás, o alimento que engorda os grandes grupos multinacionais e associados provém de recursos oriundos de programas como o PROUNI e o FIES. Basta exemplificar que a fusão do grupo Kroton-Anhaguera reúne mais estudantes/consumidores do que todos os matriculados nas 63 universidades federais e que a absoluta maioria dessas matriculas é mantida por meio dos programas acima mencionados. Basta dizer que, enquanto em 2014, o governo alocou R$ 13,5 bilhões para o FIES, as universidades públicas são precarizadas e se encontram ameaçadas de morte. A lógica neoliberal vem imperando no seu interior, inclusive com o aval dos reitores que aceitam a receita do MEC como uma lagartixa a balançar a cabeça para cima e para baixo dizendo “SIM SENHOR” a terceirização e a EBSERH, por exemplo. A fragmentação, o individualismo, a competitividade, vem reinando, absolutamente, entre docentes e estudantes, proporcionando uma disputa por espaços nos quais possam realizar seu “EU” já que cada dia parece se naturalizar a impossibilidade de um “NÓS”. Entretanto, a realização do “EU” pode ser provisória, pois se o teto do projeto de universidade pública desabar, essas cabeças também cairão e ficarão soterradas nos escombros da tragédia juntos com o “NÓS”. Aliás, isso já pode ser notado quando a CAPES corta 75% dos recursos do PROAP e quando projetos como o PIBID e o PARFOR estão ameaçados, por exemplo, uma vez que essa política de distribuição de bolsas por meio de programas tem feito com que muitos professores silenciem a respeito de política salarial justa, data base, carreira docente com possibilidade de progressão mais democrática, isonomia entre ativos e inativos, essa pauta, muitas vezes, é ignorada em função de um olhar direcionado às bolsas oriundas de órgãos de fomento ou empresas privadas ou estatais. Não sabem eles que elas são provisórias? A prova está à vista de todos que queiram enxergar, e são seus cortes e contingenciamentos.
A privatização da educação superior avança em duas frentes. Por um lado, cresce, vertiginosamente, o número de instituições privadas de ensino controladas por quatro grandes oligopólios cuja entrada no mercado acionário movimenta mais de 15 bilhões de reais por ano. Por outro lado, as universidades públicas vão aderindo cada vez mais à lógica privatista e a precarização do trabalho. A título de exemplo, podemos citar alguns casos que apontam nesse horizonte: a) a criação do FUNPRESP, que praticamente obriga os servidores públicos federais a contribuírem com a previdência privada para que não cheguem ao fim da vida com o teto da aposentadoria rebaixado para pouco mais de 4 mil reais; b) a política do MEC, com o aval dos reitores, de entregarem os hospitais universitários a EBSERH; c) o avanço das terceirizações, cujo debate no Congresso Nacional vem sinalizando em direção a atingir o setor fim do serviço público; d) a possibilidade de contratação de professor via Organização Social (OS), já legalizado pelo STF, o que inviabiliza os futuros concursos para docentes na universidades; d) a PEC 395/2014, já aprovada na CCJ da Câmara Federal e que altera o inciso IV do artigo 206 da Constituição Federal acabando com a gratuidade das especializações, aperfeiçoamento e cursos de treinamentos no interior da universidade pública.
Assim, conforme fez notar o historiador Marcelo Badaró, em recente artigo sobre a greve atual, a política de contratar professores, o fim da gratuidade nas universidades públicas e a implantação de políticas de gestão privatizante não ocorrem apenas no Brasil, mas em escala internacional e procuram atender aos receituários dos organismos internacionais como o FMI e o Banco Mundial que, de fato, são os controladores da política educacional vigente nesses tempos de globalização e neoliberalismo.

Por isso, entendo que a construção de uma greve geral é urgente e necessária para enfrentarmos esse projeto de universidade e defendermos a universidade pública, gratuita e de qualidade, incluindo os 10% do PIB e os recursos do pré-sal para ela e não para alimentar a sanha dos grandes empresários que acumulam capital mamando nas tetas do tesouro público nacional. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

MEMÓRIAS TRAUMÁTICAS: A ANPUH-PB E A COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE E DA PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA

Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG-ANPUH-PB)

A dialética do lembrar e esquecer tem uma dimensão política que envolve o campo da memória e da história. E como toda atividade humana, está sujeita a manipulações, usos, abusos, esquecimentos e silêncios. Assim, inserida no campo das batalhas, a memória se movimenta num campo de disputas políticas marcadas a partir das leituras e escavações que as gerações do presente realizam sobre o passado.
Daí por que, um filósofo engajado como Walter Benjamin, ao escrever as famosas Teses sobre o conceito de História, em 1939, aludia a dimensão do passado a ser lembrado como condição de “redenção” das gerações oprimidas. Para ele, era preciso retirar o passado da condição de neutralidade, ao qual fora alçado pela historiografia oficial, a fim de mostrar as relações de dominação de classe e de impedimentos e derrotas dos projetos dos trabalhadores nele realizados. Afinal de contas, a concepção de cultura e de História benjaminiana, perpassa pelo ângulo dos sinais de dominação, da barbárie que se esconde sob a beleza estética dos monumentos e das gotas de sangue que mancham os bens culturais. Escovando ao contrário, podemos/devemos explicitar os fracassos e as irrealizações dos projetos e das lutas dos excluídos da História, entender o processo dessas dominações e resistências na espessura do tempo passado.
Interessante notar a relação estabelecida entre os vivos e os mortos. Na Tese 2 Benjamin pergunta a respeito do “encontro secreto” entre as gerações precedentes e o presente, sinaliza quanto às ligações entre as vozes que escutamos no agora e os ecos das vozes que emudeceram, e alerta ao historiador materialista histórico ser um messiânico a redimir os apelos do passado. De um passado que foi prometido e não foi cumprido. Mas esse passado grita e o historiador precisa escutá-lo em seus horrores e não na sua monumentalidade. É dever do historiador, articular o passado não como de fato ocorreu, mas se apropriar dele como uma reminiscência a relampejar no momento de um perigo, buscar nele centelhas de esperanças, pois nem os mortos estarão seguros se o inimigo vencer. Aqueles que dominam no presente são herdeiros dos vencedores do passado ao passo que os oprimidos no presente herdaram a exploração e lutas dos excluídos do passado. (BENJAMIN, 1994, p. 224/225) Desse modo, a redenção/revolução encontra-se indissociável do trabalho de rememoração, de uma memória ferida e derrotada em oposição à memória oficial do vencedor, de uma reparação das injustiças aos oprimidos e da consequente punição moral aos responsáveis por elas. Os vivos do presente têm uma dívida para com os vivos do passado.
A redenção do passado oprimido, sua realização e reparação no presente dos projetos não realizados no passado, devem ocorrer em ligação com a rememoração histórica das vítimas desse passado (TESE 2). Nesse aspecto, segundo observa Michael Löwy, cabe ao anão teológico a tarefa da rememoração, num movimento dialético para o passado (memória) e para o presente (redenção/revolução). Nesse particular, pode-se perguntar a respeito da especificidade do marxismo benjaminiano. Ao ler História e consciência de classe (1924), obra de Georges Lukács, o aspecto que mais despertou atenção de Benjamin foi a ênfase na luta de classes, pois rememorar a luta entre exploradores e explorados interessava mais a ele do que estudar as forças produtivas, contradições sociais, formas de propriedades, modos de produção e Estado. Embora concorde com Brecht sobre a importância das coisas materiais, ele atribui grande importância aos aspectos espirituais e morais, uma vez que são esses que impulsionarão a luta por aquelas. O materialismo histórico benjaminiano foge a abstrações filosóficas evolucionistas e se volta para a luta concreta, para a dialética dos tempos.
A propósito dessa discussão, faz-se bastante relevante explicitar mais detalhadamente o conceito de revolução em Walter Benjamin. Benjamin entendia a revolução como um momento de ruptura no curso da história afastando a catástrofe que ameaça a humanidade. (SCHLESNER, 2011, p. 42). A revolução é o correspondente profano da redenção dos oprimidos, o dia do acerto de contas com as vítimas dos passados, um processo de liberação das aspirações libertárias das classes exploradas no cortejo triunfal da história. Esse dia, em que a revolução introduz um novo calendário (TESE XV) é, ao mesmo tempo, ruptura e tradição, pois como nos mostra Michael Löwy, se trata do dia do encontro do novo com todos os momentos de revoltas do passado.
Mais de setenta anos se passaram da escrita das teses benjaminianas, mas em grande medida elas são bastante importantes para os historiadores do Século XXI. Em um tempo marcado pelo conformismo e pela hegemonia do discurso da inevitabilidade do neoliberalismo e da sociedade de consumo, escrever e agir no contrapelo significa romper com o conservadorismo da teoria do fim da História. Como Benjamin alertava para o perigo do fascismo, com ele podemos alertar sobre o perigo do capitalismo neoliberal, pois a propaganda do progresso esconde as desigualdades que imperam no mundo contemporâneo. Dessa maneira, o historiador filiado ao materialismo histórico deve continuar se colocando do lado dos marginalizados, não apenas da questão de classe social, mas de gênero, sexualidade, geracional, étnica, pois como afirma Michael Löwy (2011, p. 153), “sua crítica geral à opressão e seu apelo para que se conceba a história do ponto de vista das vítimas- de todas as vítimas- dão ao seu projeto um alcance mais universal”.
Mais recentemente, outro filósofo, Paul Ricoeur, também se ocuparia de escrever uma obra emblemática sobre a memória, a história e o esquecimento, ressaltando a dimensão política e ética do ato de lembrar-esquecer. Diferentemente de Benjamin, que escreveu no tempo dos fascismos, a escrita de Ricoeur estava marcada pelo apartheid sul-africano e pela experiência da Comissão Verdade e Reconciliação. O filósofo francês retoma a noção de dívida transgeracional abordada nas teses do alemão. E, na esteira de Freud, defende o trabalho de memória em detrimento do dever de memória. 
Essas reflexões filosóficas são importantes para pensarmos no trabalho que a ANPUH-PB vem fazendo com a memória dos vencidos de 1964. Instituída pelo Decreto governamental nº 33.426, de 31 de outubro de 2012, a Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória do Estado da Paraíba conta com dois historiadores representando a seção paraibana da Associação Nacional de Professores de História. Tão logo o governador Ricardo Coutinho assinou e publicou o decreto, a diretoria da associação entrou em contato com o chefe de gabinete do governo, Waldir Porfírio, demonstrando interesse em nossa participação na Comissão. Desse modo, nos foi sugerido que apresentássemos uma lista compondo três nomes, dos quais um deles seria nomeado. Ao consultar os associados, foram sugeridos alguns nomes de historiadores que vem estudando o período do Regime Militar, de modo que enviamos três nomes dos quais o governo nomeou dois deles: a professora Lúcia Guerra e o professor Paulo Giovani Antonino, ambos do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba. Pelo Ato Governamental 6.018, de 11 de março de 2013, foram nomeados os sete membros da Comissão, cuja presidência coube ao anpuhano Paulo Giovani Antonino.

A Comissão dividiu as atividades em dez grupos de trabalhos:
1-      Mortos e desaparecidos políticos do regime militar

2-      Mapa da Tortura

3-      A bomba estourada no Cine-Teatro Apolo II

4-      Cassação de mandatos eletivos e a magistrados

5-      Demissão de servidores públicos federais, estaduais e municipais.

6-      Ditadura e Gênero

7-      Estrutura de repressão na Paraíba

8-      Intervenção nos sindicatos e em outras entidades da sociedade civil

9-      Perseguição dos órgãos de segurança ao setor educacional

10-  Repressão do Estado e de milícias privadas aos camponeses


Cabe, no entanto, ressaltar o papel desenvolvido pela ANPUH-PB nesse importante trabalho de resgate de memórias junto a Comissão da Verdade e Preservação da Memória. Sobretudo para os mais céticos em relação à nossa Associação e que chegam a questionar até sua utilidade. A história da ANPUH-PB é uma história de lutas políticas advindas dos tempos da ditadura. Não apenas porque somos uma das mais ativas sessões no tocante à realização de encontros estaduais, mas, sobretudo, pelas ações realizadas em prol da valorização do profissional de História e dos posicionamentos críticos diante das questões mais amplas que abrange a sociedade.
Assim sendo, uma associação de profissionais de História que viveu os tempos da ditadura civil-militar, não poderia faltar a esse momento importante do revirar do baú nos quais se escondem rastros de uma memória ferida, dolorida, traumática. Os dois anpuhanos que representam a ANPUH-PB na Comissão Estadual da Verdade e Preservação da Memória não apenas estão prestando relevantes serviços à comunidade de historiadores, levantando documentação que poderá render inúmeras pesquisas acadêmicas, mas, também, prestando serviços de larga envergadura à sociedade paraibana de modo geral, tentando pagar uma dívida, muitas vezes, mesmo que simbólica (mas nem por isso menos importante), as gerações que sofreram na pele o peso da tortura e do aparato militar montado para a repressão.
Sem desmerecer em nenhum momento os demais membros da Comissão, a ANPUH-PB, desde o primeiro momento do ato governamental de instauração da mesma defendeu que nela tivesse a participação de historiadores, profissionais formados para narrar sobre as temporalidades históricas. Até porque soaria estranho mexer na memória social sem um trabalho historiográfico eivado pela crítica inerente à operação historiográfica. De modo que a ANPUH luta justamente pelo reconhecimento da profissão de historiador para que sejam incluídos em um campo alargado de trabalho (museus, arquivos, centro de memória e documentação, consultoria) a participação de um profissional que tem formação compatível com as demandas da construção narrativa da experiência humana no tempo, embora não sejam os únicos a terem direito sobre os passados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
GAGNEBIN, Jeanne Marie. Sete aulas sobre linguagem, memória e História. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1987.
_______ Walter Benjamin ou a História aberta. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.
_______ Seis teses sobre as teses. Revista Cult. http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/seis-teses-sobre-as-teses/. Acesso: 13 dez. 2012.
LOWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. Tradução Wanda Nogueira Caldeira Brant. São Paulo: Boitempo, 2005.
ROUANET, Sérgio Paulo. As razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
SCHLESENER, Anita Helena. Os tempos da História: leituras de Walter Benjamin. Brasília: Liber Livro, 2011.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009

OLHANDO SALVADOR A CONTRAPELO

Prof. Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG-ANPUH-PB)

 “Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie” (Walter Benjamin)

 Depois que li Walter Benjamin, aprendi a olhar o patrimônio cultural de modo completamente diferente. Ruiu aquele edifício conceitual prévio que associava patrimônio a apenas símbolos antigos, tangíveis e pertencentes às elites, sobre os quais paramos para sermos fotografados, dada a concepção de beleza estética sobre eles imaginados. Olhamos as igrejas barrocas e os sobrados coloniais e, imediatamente, eis que surge a pergunta: “como os portugueses conseguiram construir tudo isso naquela época?”. O filósofo alemão, certamente, reorientaria o questionamento. Para Benjamin, a origem dos bens culturais não pode ser refletida sem o olhar do horror, pois suas criações “devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corveia anônima dos seus contemporâneos”. (BENJAMIN, 1994, p. 225)
 Fundamentado teórico e politicamente nessa concepção de cultura e de História a contrapelo, é que direciono meu olhar para a primeira capital do Brasil. E acompanhado por Benjamin como guia turístico dos melhores e mais críticos, percorro uma cidade construída sobre o sangue de nativos e africanos escravizados. Foram eles os sujeitos que pegaram pedra e cal para erguerem igrejas, praças, palácios e conventos que abrigavam uma elite colonial ávida por almas e açúcares. O Pelourinho, hoje tombado patrimônio da humanidade e cartão postal da cidade, tinha significação de sofrimento no Brasil Colonial. Eram colunas erguidas, inicialmente no Terreiro de Jesus e nas atuais Praças Castro Alves e Tomé de Sousa, sobre as quais os negros escravizados eram castigados publicamente e que, aos poucos, foi denominando todo o complexo do centro histórico de Salvador. A própria geografia simbólica da cidade também foi excludente, no alto, foram erguidas sedes administrativas, instituições religiosas e residências das elites; na cidade baixa, o porto e o comércio, ambas ligadas pelo atual Elevador Lacerda, herdeiro simbólico das desigualdades geográfica, social e étnico-racial. Os espaços públicos de Salvador, Praça Municipal, Terreiro de Jesus, Caminho de São Francisco, Largo do Pelourinho, Largo de Santo Antônio e Largo do Boqueirão, entre os quais se localizam a Igreja dos Jesuítas, hoje Catedral de Salvador; a Igreja e Convento de São Francisco, a Igreja do Carmo, a Igreja e Convento de Santa Teresa, a Igreja e Mosteiro de São Bento, a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco e o Palácio do Governador, foram construídos no século XVII a partir da riqueza gerada pela lavoura açucareira, o verdadeiro inferno dos negros escravizados. Tanta cana doce trabalhada envolta pelo suor amargo do escravo. Tanta igreja para “salvar almas brancas” e “condenar almas negas”, igrejas tão belas na plasticidade, mas tão sujas na história, pois em nome da universalização religiosa ocidental judaico-cristã, fora acionado o catecismo para convencer e a inquisição para punir. Entretanto, vale dizer que nativos e negros escravizados jamais se curvaram à dominação enquanto durou por mais de três séculos a escravidão no Brasil. Na Praça da Piedade, centro histórico de Salvador, em 1799, foram enforcados e esquartejados os líderes da Conjuração Baiana, movimento popular inspirado pelo Iluminismo e que defendia uma independência com República, liberdade de expressão e abolição da escravatura. Delatado por um dos participantes, a praça se transformara em palco de espetacularização política de uma tragédia exemplar, a demonstração pública de autoridade e poder expondo cabeças despedaçadas e corpos estilhaçados como forma de educar pelo medo e constituinte de uma teia de significados que mandava recado: “pode acontecer isso com qualquer um de vocês que se rebelarem contra a coroa”. Sangue continuou escorrendo sobre as ruas estreitas da Salvador antiga. 
A Independência de 1822, feita a partir de cima, manteve os privilégios das elites agrárias, o latifúndio e a escravidão. Pela Constituição de 1824, Estado e Igreja Católica eram irmãs gêmeas na continuidade da perseguição aos terreiros de Candomblé na Bahia do século XIX. O sincretismo religioso colonial não aboliu a intolerância e o preconceito contra as religiosidades afro-ameríndias, muito pelo contrário, acentuou a continuidade da desqualificação das mesmas a partir da visão estereotipada da “demonização”, do “pecado”, do “mal”, em detrimento do catolicismo, auto-afirmando-se como a “verdadeira” religião da salvação. Na madrugada de 25 de janeiro de 1835, os escravos malês (muçulmanos) insurgiram-se contra a ordem vigente e foram às ruas de Salvador defender a sua liberdade. A revolta envolveu 600 homens e foi delatada antes mesmo do seu inicio. Com a patrulha já em ação para conter a rebelião, os malês invadiram a Câmara Municipal sem muito sucesso nas investidas. No centro da cidade, segundo o historiador João José dos Reis, (...) atacaram um posto policial ao lado do Mosteiro de São Bento, outro na atual Rua Joana Angélica (imediações do Colégio Central), lutaram também no Terreiro de Jesus e outras partes da cidade. Em seguida desceram o Pelourinho,seguiram pela Ladeira do Taboão e foram dar na Cidade Baixa. Daqui tentaram seguir na direção do Cabrito, onde tinham marcado encontro com escravos de engenho. Mas foram barrados no quartel da cavalaria em Água de Meninos. Neste local se deu a última batalha do levante, sendo os malês massacrados. Alguns que tentaram fugir a nado terminaram se afogando. O saldo da revolta não foi dom melhores para os escravos africanos muçulmanos. Os envolvidos foram sentenciados com prisão simples, prisão com trabalho, açoite, morte e deportação para a África. Do total, quatro escravos foram executados por um pelotão de fuzilamento no Campo da Pólvora no dia 14 de maio de 1835. E assim terminava mais um capítulo sangrento da História do Brasil. Rememorar essas gerações oprimidas no passado é condição importante para uma atuação política no presente-futuro, na qual a História como memória social deve está a serviço da construção do que Paul Ricoeur denomina de “memória feliz” ou “justa memória”, o de fazer justiça pela lembrança do Outro cuja memória fora alçada ao esquecimento e silêncio.

sábado, 7 de dezembro de 2013

NARRADORES E NARRATIVAS DOS CARIRIS VELHOS

Dr. José Luciano de Queiroz Aires (UFCG- ANPUH-PB)

 A presente comunicação propõe a socialização de um projeto de pesquisa e extensão que desenvolvemos na UFCG, campus de Sumé, intitulado "História e Memória: entre fotografias e relatos orais do Cariri Paraibano ". O mesmo ainda se encontra em sua fase de desenvolvimento com vistas a fazer parte da futura formação do Núcleo de Documentação Histórica do Cariri. Desse modo, esse artigo procura narrar os objetivos, justificativas e metodologias do projeto, no tocante aos relatos orais das populações do semiárido paraibano.
 O projeto vem se desenvolvendo em parceria com o PIBID de Educação do Campo na área das ciências humanas e sociais , uma vez que entendemos que a docência não pode ser separada da pesquisa e que o profissional da educação básica deve ter uma formação que articule essas duas dimensões. Desse modo é que temos procurado desenvolver outros projetos no interior do PIBID, operando um trânsito entre a sala de aula e a produção e catalogação de documentação histórica. Em busca dos narradores e narrativas dos Cariris Velhos é que temos seguido e cujos passos nos levam a produção das memórias das populações da região, iniciando pelo município caririzeiro de Sumé. Procurando romper com uma concepção de história local confundida com a historiografia oficial, nosso objetivo é priorizar os relatos de homens e mulheres comuns, a fim de que possamos fazer a operação historiográfica a partir de outros ângulos que não, exclusivamente, a dimensão institucional e oficial. 
Evidentemente, não somos adeptos a linha que concebe o relato contado como sendo a própria história, muito menos que a função da história oral é apenas dar voz aos de baixo, tanto tempo excluídos da escrita da história; mas, articular essa dimensão da escuta no interior de um trabalho de memória feito pela historiografia. O projeto que desenvolvemos no município de Sumé prioriza sujeitos como professoras primárias, lideranças de assentamentos e associações rurais, mãe de santo, professor de capoeira, artistas locais, rezadores, parteiras, antigos mangaeiros, tropeiros, feirantes e ex-candangos. Como podemos perceber, o critério de seleção dos entrevistados se baseou em torno de atores comuns, homens e mulheres das classes populares, portadores de um acúmulo de experiências e saberes transmitidos pela tradição oral. Os bolsistas do PIBID tem feito o contato com as pessoas a serem entrevistadas, ao mesmo tempo em que fazemos leituras teórico-metodológicas no sentido de proceder a realização e a transcrição da entrevista como também de situar o debate envolvendo a chamada história oral e a relação história e memória. Até o presente momento, percebemos uma boa receptividade quanto à concessão e gravação da entrevista. Das três que realizamos, todas foram com professores: uma delas com o atual professor de capoeira Maxiste, enquanto as outras duas foram com as professoras aposentadas Maria Emilia e Creuza, todas já transcritas pelos bolsistas do projeto. Além dessas, foram realizadas outras entrevistas pelas alunas do curso de Educação do Campo, Maria Raquel Batista da Silva e Carla Mailde Santa Cruz, para as suas respectivas monografias de conclusão de curso. 
A primeira, fez algumas entrevistas temáticas sobre o poeta e compositor José Marcolino, ao passo que a segunda, seguindo uma linha etnográfica entrevistou camponeses da comunidade de Olho D`Água que vivem um momento de crise de identidade territorial motivada pela transferência de pertencimento municipal de Sumé para Serra Branca. Após os trabalhos monográficos, as referidas alunas disponibilizaram os áudios e transcrições das entrevistas para o projeto que visa produzir um núcleo de documentação histórica do Cariri paraibano. No momento estamos em contato com a mãe de santo e o presidente da Associação dos Moradores da Bacia do Açude de Sumé a fim de que possamos ampliar o leque da produção memorial. Pelas três experiências realizadas, percebemos um intenso desejo de registro de memória, uma vontade de contar o passado como se estivesse vivendo o mesmo. Além da vontade de contar as memórias, os três narradores procuravam subsidiar o relato com ícones da cultura material. O professor de capoeira no concedeu entrevista na sede da escola e fez questão de mostrar os diversos tipos de instrumentos musicais utilizados, além de uma reportagem afixada na parede da escola sobre o Mestre Bimba; D. Maria Emilia falou muito mais de seu pai, o pintor Miguel Guilherme, e juntou fotografias, seus quadros pintados, trabalhos acadêmicos realizados sobre o mesmo, como forma de demonstração de grandeza do seu genitor; já D. Creuza nos mostrou cadernos escolares dos anos 1970, expondo rastros de uma metodologia de ensino daqueles tempos em que atuara como professora primária.
 A importância desse projeto comporta alguns significados. Politicamente, trata-se de escutar à contrapelo, conforme nos ensinara o filósofo Walter Benjamin. Ouvir os narradores é também valorizar os saberes que eles adquirem e transmitem intergeracionalmente. Memórias marginalizadas, às vezes, oprimidas e silenciadas que foram arquivadas seletivamente na dimensão subjetiva e não nos lugares de memória monumentalizados aos quais subiam e sobem apenas as elites vencedoras e dominadoras. Atrelada a essa dimensão política, se encontram aspectos cognitivos. Produzir memórias não é o mesmo que produzir história, embora esta seja também uma memória social que narra os passados, a operação historiográfica passa por um processo de investigação criticamente conduzida por práticas científicas, ou como quer o filósofo Paul Ricoeur, a memória transportada pela historia deve se proceder pelo trabalho muito mais do que apenas pelo dever de memória, se se quer uma memória feliz da qual nos fala o filósofo francês. Pensando pelo prisma cognitivo, nosso projeto se presta a produzir memórias que poderão levar a vários trabalhos de pesquisas sobre o município de Sumé. Trabalhos que abordem o Semiárido Paraibano em sua multidimensionalidade e a partir de uma “história vista de baixo”. Outra importância a ser considerada consiste na questão da formação do licenciado em Educação do Campo, um curso pensado partir dos movimentos sociais do campo e que procura atuar politicamente junto às populações do campo em suas diversidades. Dessa forma, consideramos importante na formação desse profissional que irá trabalhar nas escolas do campo o desenvolvimento de habilidades para trabalhar com as mais variadas linguagens e metodologia de pesquisa e ensino. Os alunos e alunas do projeto, alguns dos quais hoje já formados, passaram pela experiência em torno da chamada história oral, fizeram contato com possíveis entrevistados, montaram um roteiro prévio das entrevistas, participaram do ato da entrevista e transcreveram as mesmas. Assim como, orientamos no sentido das inúmeras possibilidades de oficinas aulas que podem ser montadas na educação básica a partir dos relatos orais transformados em recursos didáticos.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 BATISTA, Maria Raquel. “Numa sala de reboco”: representações de Sertão nas músicas de José Marcolino. Monografia (Licenciatura em Educação do Campo), UFCG, 2013.
 BENJAMIN, Walter. O narrador. In: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet, 2. ed., Brasiliense, 1986.
 RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução de Alain François. São Paulo: Editora da UNICAMP, 2008. 
 SANTA CRUZ, Carla Mailde Feitosa. Estudo do Conflito Identitário e Territorial nas Comunidades Rurais de Olho D Água do Padre e Caititu. Monografia (Licenciatura em Educação do Campo), UFCG, 2013.